Entrevista

Com impeachment, Brasil tem oportunidade histórica de romper com o passado, diz analista

Para cientista político Carlos Pereira, a escolha é entre colocar "panos quentes" na situação atual, como já foi feito muitas vezes no passado, ou sinalizar uma ruptura

SÃO PAULO – O impeachment é um processo, traumático, incerto e de difícil resolução. Porém, também pode representar uma oportunidade para que o Brasil rompa com o seu passado conciliador e fazer uma ruptura. 

Esta é a avaliação do cientista político e professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (FGV/EBAPE), Carlos Pereira, em entrevista ao InfoMoney, afirmando que o Brasil tem um rara oportunidade. “O cenário melhor seria o  impeachment, com a afirmação de quadros de direito. O ensinamento seria maior diante com ruptura”.

Pereira destaca que “a tradição brasileira é de acomodação: questões históricas como a proclamação da República, Revolução de 1930, escravidão, a saída sempre foi de colocar “panos quentes”, algo que precisa ser rompido. 

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Em linha com essa direção de “panos quentes”, diversos políticos passaram a defender a chamada “eleições gerais”, caso até mesmo do senador Valdir Raupp (PMDB-RO), que é aliado de um dos maiores beneficiários do processo, o vice-presidente Michel Temer. 

Para o cientista político, há uma crise aberta, situação esta que ninguém gosta de passar. “Normalmente, numa situação de crise, as tendências são de auto-preservação, de buscar saídas conciliatórias, que não levem à ruptura. Romper significaria poder trazer custos ainda maiores”, destaca. Porém, para ele, as eleições gerais não irão acontecer, principalmente por ser praticamente impossível uma renúncia coletiva dos parlamentares.  

O embate parece bastante disputado, com os votos a favor do impeachment chegando a 306 deputados, enquanto 126 estão contra a votação, de acordo com levantamento realizado pelo jornal O Estado de S. Paulo. Assim, os votos de indecisos e dos que não responderam são cruciais para definir o rumo do governo

Assim, apesar das indicações de que o impeachment vem ganhando terreno, o cenário parece bastante incerto. E a pergunta que passa a ser feita é: o que acontece se o impeachment da presidente Dilma Rousseff for derrotado? 

Para Pereira, as ameaças não acabam para a presidente Dilma Rousseff, mesmo se ela se consagrar vencedora do processo. O cientista político destaca que pode haver logo em seguida a abertura de um novo processo de impeachment – desta vez através do pedido da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), mais bem articulado e com outras denúncias que não estão em pauta no atual pedido, elaborado pelos juristas Janaína Paschoal, Miguel Reale Jr. e Hélio Bicudo.

“Se esse processo não vingar, esse problema vai continuar, com tensões pró-impeachment, com as ações contra a chapa Dilma Rousseff-Michel Temer no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) no radar. O problema não cessa”, afirma o cientista político. “Se o governo sair vitorioso, será vitória de Pirro, com gosto amargo da derrota”, destaca ele. 

Ao ser perguntado se Dilma pode buscar um governo de “reconciliação nacional” no curto prazo caso ela ganhe esta batalha, como muito vem sendo aventado, Pereira demonstra dúvidas. “Ela com certeza vai tentar fazer [a repactuação], mas não será efetiva neste movimento. O momento não é de cooperação e sim de ruptura. A sociedade não vai compactuar com isso”, destaca. 

“Não existe mais a confiança entre os partidos. O instituto da cooperação foi rasgado. Desta forma, os custos de cooperação são  maiores do que custo de ruptura”, destaca. 

Alternativa não-política
As últimas pesquisas apontam para uma decepção da população com a classe política, o que poderia apontar para a emergência de um nome fora da política para as próximas eleições de 2018. Porém, para Pereira, esta
 alternativa “apolítica” é pouco provável, destacando que o sistema político está muito estável.

“Os partidos políticos têm base muito grande, partidos nacionais, com sólida representação no território nacional. Não deve acontecer a eleição de alguém de fora dos quadros políticos, como o ex-primeiro-ministro da Itália Silvio Berlusconi”.

Lava Jato: sem restrições
Muito se fala que, com a eventual entrada de Michel Temer no governo, haverá uma espécie de “acordão” para que a Operação Lava Jato seja interrompida. Mas, segundo Pereira, “n
ão há a mínima chance da Lava Jato ser parada”. Isso porque ela está sendo implementada por instituições completamente independentes dos políticos.

Assim, conclui Pereira, o cenário é de incertezas e o impeachment só deve ser definido nas últimas horas antes da votação na Câmara dos Deputados. Porém, o cenário tende a ser de continuidade da polarização e de sinalização pela ruptura, o que pode ser benéfico para o Brasil. 

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