Análise

Com candidatos “na retranca”, Bolsonaro recebe “proteção virtual” em debate e Ciro se destaca na esquerda

A menos de um mês do primeiro turno, o terceiro debate entre presidenciáveis foi morno, mas permitiu exposição de propostas e estratégias das campanhas

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SÃO PAULO – Três dias após o atentado contra o deputado Jair Bolsonaro (PSL), seis candidatos à presidência participaram de debate organizado pela TV Gazeta, jornal O Estado de S.Paulo, rádio Jovem Pan e Twitter. O ataque a faca contra o parlamentar foi lembrado em diversos momentos pelos participantes, que criticaram o clima de radicalização e o uso de violência na política e preferiram adotar o tom de moderação em vez de confrontos em função das circunstâncias.

A menos de um mês do primeiro turno, o terceiro debate entre presidenciáveis foi morno, mas permitiu exposição de propostas e estratégias das campanhas. Mais uma vez, o PT ficou sem representante, já que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, teve seu pedido de registro indeferido pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e ainda não foi substituído pelo partido.

Leia também: Bolsonaro ocupa espaço de Lula como “ausente presente” em debate na TV Gazeta

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Para analistas consultados pelo InfoMoney, o atentado a Bolsonaro impediu uma postura necessária de enfrentamento da campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) contra o parlamentar, em busca de recuperar votos perdidos pelos tucanos ao longo dos últimos anos. O resultado, neste campo, foi uma blindagem ao deputado e gestos de solidariedade por parte de seus adversários.

Do lado da esquerda, a avaliação é que Ciro Gomes (PDT) foi o nome que melhor se aproveitou da nova ausência de um candidato do PT. Enquanto o partido não apresenta Fernando Haddad como o substituto de Lula na disputa, o pedetista busca avançar sobre o eleitorado do ex-presidente, o que pode pôr em risco a transferência de votos planejada pelos petistas.

Confira a análise de três especialistas sobre o truncado debate:

Iuri Pitta, sócio-diretor da Analítica Comunicação

O lamentável ataque a faca sofrido por Jair Bolsonaro provocou dois nítidos efeitos no terceiro debate entre candidatos a presidente: esfriou a temperatura do confronto e criou uma espécie de proteção virtual ao líder nas pesquisas. Predominaram os gestos de solidariedade ao ferido e as falas para tentar marcar diferença em relação ao estilo de Bolsonaro foram tímidas: a resposta de Geraldo Alckmin à provocação de Henrique Meirelles sobre discurso de radicalização, no início do debate, e a menção de Ciro Gomes à divergência de ideias.

O copo meio cheio dessa situação é que, sem histrionismos, houve mais espaço para propostas. O copo meio vazio é que, com o apertado tempo de fala e regras mais do que manjadas, os candidatos pouco explicam o que pretendem fazer e as divergências dependem de conhecimento prévio do espectador, como no confronto Ciro versus Alckmin sobre o teto de gastos. O candidato do PDT conseguiu alfinetar o tucano com o fato de o Museu do Ipiranga estar fechado há cinco anos, voltou a criticar a emenda 95, mas pouco falou sobre uma efetiva política para a cultura ou para a preservação do patrimônio histórico.

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Era natural que o debate fosse acanhado, em clima de “pisar em ovos”, depois de um ato gravíssimo como o ataque a um concorrente ao Palácio do Planalto. Esse terceiro encontro entre os presidenciáveis lembrou uma partida de tênis de jogadores de fim de semana: muita troca de bola de fundo e poucas jogadas ofensivas na rede. Só com a entrada em quadra do real candidato do PT e a depuração do impacto do ataque a Bolsonaro será possível saber se um desses “tenista” terá condições de chegar à final (segundo turno) contra o hoje favorito candidato do PSL

Ricardo Ribeiro, analista político da MCM Consultores

A essas alturas, debate sem Bolsonaro e sem o PT fica capenga. Os candidatos estavam cautelosos, procurando mostrar moderação. Pouparam Bolsonaro. O PT já foi mais mencionado, principalmente por Alckmin. O tucano foi o principal alvo de Meirelles e este de Boulos. Marina, que no debate anterior se destacou por confrontar Bolsonaro, desta vez pouco apareceu. Ciro talvez tenha sido o de melhor desempenho. Usou bem sua capacidade retórica para se apresentar como alternativa mais consistente ao PT, é por onde pode crescer.

A audiência do debate deve ter sido pequena, vamos ver como os candidatos vão usá-lo. Dificilmente terá qualquer impacto relevante na corrida e em pesquisa, mas deixou a impressão de que Ciro, depois do baque de perder o “blocão” e o PSB, voltou pra valer à disputa de uma vaga para o segundo turno.

XP Política

Com a ausência de Jair Bolsonaro no debate da TV Gazeta, ficou enfraquecida a primeira grande disputa da reta final da campanha: a tentativa de Geraldo Alckmin de desconstruí-lo para herdar parte de seus votos.

Os rivais de Bolsonaro esperavam que os debates pudessem servir para expor fragilidades do deputado — nos dois primeiros eventos, o desempenho do parlamentar não foi de fato bom, mas, ainda no início da campanha, os programas foram jogados mais na retranca do que no ataque.

A menos de um mês da eleição, o programa de hoje exigia postura mais ofensiva – mas, sem Bolsonaro no púlpito, ficou impossível deflagrar a estratégia de maneira direta.

Isso não impediu, no entanto, que o começo do programa expusesse uma disputa pelo discurso da pacificação, na esteira do atentado na semana passada. A decisão da organização, de mencionar o ataque no início do programa e prestar solidariedade ao candidato, contribuiu para isso também.

O momento, no entanto, durou pouco – apenas parte do bloco inicial e das considerações finais. Por ter sido escolhido para responder a primeira pergunta sobre o tema, Alckmin conseguiu marcar posição e condenar o extremismo sem parecer aproveitador. Assim como Marina, mencionou a pacificação também no encerramento. E usou o mote de que o próximo presidente não pode ser mais um problema para o país.

Dado o risco de escorregões e o desempenho de Bolsonaro nos encontros anteriores, sua ausência somada à lembrança e solidariedade da emissora e dos rivais não foi de todo o mal para o deputado.

Vencido esse ponto, sobrou a disputa da segunda questão da reta final de campanha: quem herdará os votos de Lula? Mais um ponto em que o protagonista estava ausente, já que Fernando Haddad não foi convidado por ainda não ter sido oficializado candidato.

Marina Silva e Ciro Gomes – os dois que rivalizam com Haddad na disputa pelo espólio lulista – foram confrontados em momentos diferentes sobre a prisão de Lula. Ciro, com um eleitorado alvo mais definido, pôde ser mais direto: “A sentença que condenou Lula é injusta”. Marina, questionada diretamente sobre o tema, sintetizou as contradições dos dois públicos que tenta alcançar ao não defender nem condenar o ex-presidente – a contradição só não ficou mais explícita porque Alvaro Dias preferiu não aponta-la na réplica.

Sem os protagonistas no palco, a disputa apenas indireta deixou o encontro mais na retranca e menos ofensivo do que se esperaria para essa fase da disputa.

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