Com a instabilidade no Egito, investidores poderão alterar suas estratégias

Temendo pressão inflacionária e volatilidade nas commodities, analistas apostam em fuga dos emergentes e preferência por blue chips

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SÃO PAULO – A situação no Egito tem chamado a atenção do noticiário internacional, com a intensificação dos protestos pela queda do governo de Hosni Mubarak, no poder desde 1981. O conflito que, além de políticas, tem consequências econômicas, permanece no foco dos analistas. A cada instante novos fatos alimentam as incertezas acerca do futuro do país, inflamando os temores sobre desdobramentos negativos para os mercados financeiros.

O clima de aversão ao risco parece ter se instaurado no mercado, principalmente após a agência Moody’s ter revisado para baixo o rating do país, de Ba1 para Ba2. Em resposta, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s rebaixou de “BB+” para “BB” os ratings soberanos em moeda estrangeira de longo prazo do Egito. A agência também sinalizou que poderá fazer novos cortes nos próximos meses.

A analista do Credit Suisse, Jacqueline Madu, acredita que essa situação pode gerar incerteza entre os investidores, além de possíveis impactos no próprio país. O banco ressalta que os eventos podem levar a um outro salto nos preços globais dos grãos, causando distúrbios em diversos países. O CEO (Chief Executive Officer) da Pimco, Mohamed A. El-Erian, divide a mesma opinião e avalia que, apesar de os fatores da crise egípcia serem internos, pressões externas como o aumento dos estoques de alimentos por parte de outros governos, podem agravar a situação.

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Enquanto as dúvidas acerca da futura forma de governo não forem sanadas, as empresas da região devem ser negativamente impactadas e os consumidores devem permanecer menos otimistas em relação à economia, ao menos no curto prazo, segundo a analista do Credit Suisse. Esta visão reforça a revisão para baixo das expectativas do banco para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) do Egito.

Importante destacar que na noite desta terça-feira Hosni Mubarak anunciou que não planeja concorrer novamente à reeleição.

Impacto sobre o petróleo
Para Mohamed A. El-Erian, da Pimco, o Egito não tem a importância da China no que diz respeito à demanda global e exportação, nem se compara aos grandes produtores de petróleo do Oriente Médio, porém o seu papel para o mercado de commodities é fundamental e o agravamento dos protestos no país pode levar a choques indiretos em demais regiões. A principal questão em jogo é o futuro do canal de Suez, sob controle do Egito.

O país detém uma posição geográfica privilegiada no canal – um dos principais exportadores de petróleo. Ainda mais importante é seu papel no Oriente Médio, estrelando como um elemento crucial na promoção da estabilidade geopolítica em uma área sujeita a forte volatilidade. Portanto, a maneira como o país lidará com essa instabilidade pode ter um impacto profundo nos mercado globais.

Jacqueline afirma que pode haver uma interrupção no fornecimento de petróleo com o fechamento do canal de Suez.  Na análise de Michael Hartnett, do Bank of America Merrill Lynch, normalmente as ações e as cotações de petróleo sobem e descem juntos porque o que é bom para um é bom para outro, como por exemplo a melhora de indicadores econômicos. O problema é que choques no fornecimento da commodity invalidam essa premissa e tornam a cotação do óleo e as ações negativamente correlacionadas.

Mudança na preferência
A expectativa é que esse movimento leve a cotações acima de US$ 100 por barril de petróleo (como já visto em Londres), além de um espraiamento da instabilidade para demais regiões, gerando um cenário ruim para os mercados de forma geral. Isso deve se traduzir em grande rotação no preço das ações a curto prazo, sobretudo devido a elevação nas cotações de petróleo, maior inflação e crescimento da incerteza.

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Por isso, de acordo com o analista do BofA, essa instabilidade pode abrir margem para uma mudança dos investimentos dos mercados emergentes para os desenvolvidos, uma preferência por blue chips em detrimento de small caps e predominância de investimentos em setores de energia e bancos.

Para Giovani Silva, analista do JP Morgan, a situação no Egito deve se converter em aumento no preço do petróleo e pressão inflacionária para os mercados emergentes. Maiores custos de empréstimos podem impactar o mercado acionário e devem ser um dos principais motivos para a mudança na preferência dos investidores.

Passos para a reestruturação
A necessidade de mudanças é clara, mesmo entre os integrantes do governo. Porém o conceito da chamada mudança gerenciada não está bem definido e embora todos queiram evitar o caos, a maneira de estruturar essa mudança ainda é indefinida e diverge entre os membros do governo egípcio, gerando ainda mais pressões e incertezas. Por isso, para o CEO da Pimco, o país precisa de um mecanismo para conciliar as diferentes visões em relação à gestão da mudança e assim, promovê-la.

Outro ponto crucial para a recuperação da confiança e reestruturação do país está na resposta da oposição. Seus protestos devem ser canalizados para a promoção da ordem, permitindo não só a estabilidade interna do Egito, mas também o combate das preocupações vindas de fora do país.

Para Mohamed, embora a situação seja grave, não é impossível revertê-la. Isso porque o Egito não está “indefeso” e detém bases econômicas sólidas, grandes reservas internacionais e uma dívida externa mínima. Além disso, as forças armadas desempenham um papel fundamental à medida que são respeitadas pela maioria dos cidadãos. “Em contraste com muitos outros países em desenvolvimento, as forças armadas, quando solicitadas, podem ajudar a facilitar as reformas econômicas e políticas, incluindo a realização de eleições livres e justas”, afirmou.

A visão do CEO da Pimco é que, dentro de algumas semanas, a autoridade do país será capaz de promover mudanças importantes, restaurando a ordem na região. E com isso, os demais países poderão tirar lições importantes desses eventos históricos.