Cientista político destaca divergência entre candidatura de Serra e Dilma

Para Bolívar Lamounier, Serra teria uma visão econômica menos estatizante que Dilma e uma base política mais consistente

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SÃO PAULO – Embora muitos investidores não estejam tão atentos para as diferenças entre as candidaturas presidenciais de José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), o cientista político Bolívar Lamounier destacou que há três tópicos centrais nos quais os dois candidatos diferem.

“Uma primeira questão é o papel do Estado na economia brasileira. Há consenso entre os agentes econômicos, pensadores universitários e técnicos mais qualificados que o papel do Estado precisa ser repensado”, ressaltou Lamounier, em evento sobre Relações com Investidores e mercado de capitais realizado pelo IBRI e pela Abrasca em São Paulo.

O cientista político explicou que o governo de Fernando Henrique Cardoso começou tal reforma do papel do Estado, com uma política mais liberalizante, com privatizações, abertura ao capital estrangeiro, entre outras ações, que dão mais espaço para que o mercado caminhe mais independente das intenções do governo.

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“No caso da Dilma, não sabemos seu pensamento claro sobre o assunto, mas tendo como base iniciativas das quais ela participou como a preferência majoritária da Petrobras na exploração do pré-sal, o reativamento da Telebrás e da participação de quase 80% do dinheiro público no projeto da Usina de Belo Monte, é possível ver um viés mais estatizante”, apontou.

Por outro lado, o candidato José Serra teria se mostrado até o momento menos a favor de um papel ativo do Estado na economia. “É claro que Serra tem uma política intervencionista quando precisa, mas ele não tem um papel estatizante”, falou Lamounier.

Outros pontos
Um segundo tópico em que as duas candidaturas diferem diz respeito às bases de apoio político. Enquanto Dilma tem uma base mais conflituosa entre si, com PT e PMDB, Serra, por outro lado, teria uma base aliada – constituída por PSDB e Democratas – mais consistente e com histórico de apoiar o presidente.

“Além disso, ambos [PSDB e Democratas] trazem a experiência de privatizações, quebra de monopólios, a Lei de Responsabilidade Fiscal, entre outros”, lembrou o cientista político.

Já a terceira questão em que os candidatos diferem é na concepção de democracia. “Serra é mais a favor da democracia representativa, que dá a todos os cidadãos o mesmo peso e os movimentos e entidades são tratados caso a caso conforme seus pleitos”, explicou.

Enquanto isso, a equipe de Dilma, assim como Lula, é mais adepta da democracia direta, que dá legitimidade a todos os movimentos sociais, pensamento esse que corrobora a formação do próprio partido, que surgiu através de uma federação de corporações e movimentos como o MST (Movimento Sem Terra), Pastoral da Igreja, entre outros, segundo Lamounier.

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Plebiscitária
“O Brasil tem melhorado de patamar político e econômico, com um grau mais alto de estabilidade, maior atenção à democracia e aceitação das regras constitucionais”, comentou.

Ele explicou que estamos caminhando para uma eleição a la Estados Unidos, chamada de confronto plebiscitário. “É basicamente o que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva queria, com confronto de dois principais candidatos. O lado positivo é que temos confrontação direta de ideias, projetos políticos”, falou.

Contudo, ele destaca que essa estratégia pode gerar também distorções porque a população pode ficar totalmente dividida entre os dois e, com isso, a situação econômica para o eleito poderia ser desconfortável. “Pelo menos é isso que vemos até agora, com a disputa equilibrada entre Serra e Dilma”, diz.

“Uma observação é que pelo andar da carruagem chegaremos a 2011 com o país dividido em duas visões e ideias políticas, o que pode prejudicar uma gestão mais eficiente. Não se sabe se isso vai continuar de fato, mas há chances”, comenta Lamounier.

Investidores estrangeiros
Como comentou Scott Cutler, vice-presidente da Nyse (New York Stock Exchange), os investidores de seu país não veem risco político nas eleições presidenciais brasileiras de outubro.

“Qualquer um dos dois principais candidatos que for eleito vai ser bom, na visão dos investidores norte-americanos. Nós não estamos preocupados com as eleições brasileiras porque não acreditamos que a política econômica mude no próximo governo”, falou.

Para estes investidores o que importa, com frisou Cutler, é que as empresas brasileiras tenham bons patamares de governança corporativa, de disclosure e de clareza nas informações. “Para a política, é preciso responsabilidade financeira e fiscal”, completou.