"FIFA Go Home"?

Chuva de gols na Copa do Mundo abafa manifestações populares pelo país

O espetáculo de 37 gols superou a indignação pública com estádios como destino de elefantes brancos pagos pelas arcas públicas e com projetos fracassados de infraestrutura urbana

As visões de uma Copa do Mundo interrompida por protestos e violência no Brasil estão se esvaindo à medida que o torneio com a maior quantidade de gols em meio século conquista os torcedores nos primeiros quatro dias de jogos.

Nos primeiros 11 encontros da Copa de 2014 houve quatro viradas e nenhum empate. Em duas das viradas, foram derrotadas a campeã de 2010, a Espanha, e a sétima melhor seleção do mundo, o Uruguai. O espetáculo de 37 gols superou a indignação pública com estádios como destino de elefantes brancos pagos pelas arcas públicas e com projetos fracassados de infraestrutura urbana, preocupações que alimentaram as maiores manifestações no Brasil em duas décadas em junho do ano passado.

Embora os manifestantes tenham continuado denunciando o custo de US$ 11 bilhões do evento, a agitação foi eclipsada pelas celebrações no bairro Vila Madelena de São Paulo depois da vitória de virada da seleção brasileira com 3×1 contra a Croácia. Os argentinos lotaram a praia de Copacabana no Rio de Janeiro para assistirem a Lionel Messi jogar no estádio Maracanã. O impulso até levou a presidente Dilma Rouseff a refutar as vaias que recebeu de torcedores brasileiros na estreia, advertindo três dias depois às pessoas do contra para não confundirem política com futebol.

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Mais de 30 gols “Quatro dias antes da Copa, havia uma preocupação enorme com os protestos nas ruas, mas o ambiente está mudando”, disse Marcos Troyjo, professor adjunto da Escola de Assuntos Internacionais e Públicos da Universidade de Colúmbia, em entrevista por telefone do Rio de Janeiro. “Foram feitos mais de 30 gols e houve várias surpresas. Os jogos são bons, os estádios foram vistos fantásticos na TV e o nível de descontentamento expressado nas ruas diminuiu, pelo menos nos últimos dois dias. A Copa do Mundo está desembarcando”.

A média de gols por encontro desde o começo da Copa em 12 de junho é de 3,4 gols. Se esta razão se mantiver durante o mês de duração do torneio, seria a maior média desde a edição de 1958 na Suécia.

Entre os destaques houve uma cabeçada de peixinho do atacante holandês Robin van Persie para ajudar a derrotar a Espanha, que bateu a Holanda na final de 2010 na África do Sul, e os três gols da Costa Rica para ganhar de virada contra o Uruguai, de melhor colocação nos rankings.

Professores que exigiam melhores salários estavam entre 150 manifestantes que marcharam até o estádio Mané Garrincha ontem em Brasília, cantando músicas contra a administração da Copa do Mundo por Dilma. Eles foram superados em número pela polícia que monitorava a passeata.

‘FIFA Go Home’
Umas poucas centenas de manifestantes marcharam até o estádio Maracanã no Rio levando cartazes que diziam “FIFA Go Home”. Lá eles encontraram efetivos da Polícia Militar, que usou granadas de choque para dispersar a multidão, informou o jornal local O Globo.

Embora o trabalho nos aeroportos do Brasil continuasse inacabado quando a Copa começou, isto ainda não causou problemas para os torcedores que viajam pelo País para assistirem aos jogos em 12 cidades, de Manaus, capital do estado de Amazonas, no norte do País, até Porto Alegre, no sul. Ontem, um grupo de torcedores chilenos cantou pelo seu time enquanto esperava em uma esteira rolante de bagagem no aeroporto do Galeão do Rio. Argentinos que estavam por perto responderam com músicas próprias.

Rousseff disse que a mudança de ânimo lhe lembrou de quando ela assistiu à Copa de 1970 enquanto estava presa pela ditadura militar do Brasil. O progresso da Seleção naquele evento começou a conquistar outros presidiários que tinham se recusado a torcer pela equipe porque esperavam que a vitória só fortalecesse o regime militar, disse ela.

“A Seleção representa a nossa nacionalidade”, disse ela ontem em um comunicado enviado por e-mail. “Está por cima de governos, de partidos políticos e de interesses de quaisquer grupos”.