China não deverá ser contaminada por onda de revoltas, diz analista da RGE

Peculiaridades distinguem a situação do país e das nações do Oriente Médio e norte da África, principalmente o crescimento

SÃO PAULO – O movimento de revolta popular contra os governos no Oriente Médio e no norte da África não deverão se repetir na China, aponta Adam Wolfe, analista do Roubini Global Economics. Segundo Wolfe, algumas semelhanças entre os países em questão e a China incluem uma elite corrupta, desigualdade e um sistema político que apresenta poucos escapes para insatisfações da população.

Apoio da classe média
No entanto, existem seis motivos para que a população no país oriental não realize um movimento de revolta semelhante, e a principal razão é que um governo comandado por um regime de partido único representa uma parcela maior da população, com pessoas mais dependentes do governo, do que nas autocracias que vigoram nos países árabes. Os 80 milhões de membros do Partido Comunista Chinês e elites que poderiam em outra situação ameaçar o poder recebem um mix de bens privados e públicos, e isso faz com que a classe média apoie o governo, aponta Wolfe.

“Adicionalmente, o Partido Comunista Chinês institucionalizou a transferência de poder entre gerações, um processo visto como mais legítimo que a tentativa geriátrica dos líderes do Oriente Médio e do norte da África em transferir o poder para seus filhos”, revela.

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Crescimento econômico e corrupção descentralizada
Ademais, o forte crescimento econômico da China durante o período de reforma, com poucos períodos de alta inflação, favorecem a permanência no poder. Soma-se a isso o fato de que a corrupção no país é descentralizada, focada em oficiais locais.

Quanto à situação dos jovens, uma parcela significativa destes tem atualmente melhores perspectivas, como aumento de salários, ao passo que o governo mantém o controle da internet e consegue desmantelar qualquer coordenação dos potenciais adversários. Para ilustrar este último cenário, Wolfe relembra que serão destinados mais recursos à segurança interna neste ano – US$ 95 bilhões – do que aos gastos militares.

Finalmente, não há uma voz forte por reformas dentro do partido, escreve o analista da RGE, como ocorreu nos anos 80. O premier Wen Jiabao realizou diversas propostas de reformas políticas em 2010, que agradaram aos comentaristas do Ocidente e aos liberais da China, mas nenhuma delas foi levado a cabo.

Riscos
Porém, Wolfe alerta para a consequência negativa de alguns destes fatos, já que uma política descentralizada abre aberturas para corrupção, e o crescimento econômico cria os incentivos e os meios para o surgimento de um grupo de oposição ao ao partido. No entanto, diz o analista,”talvez o perigo mais importante para a legitimidade do Partido Comunista Chinês no médio prazo seja a desaceleração do crescimento econômico chinês”, alerta, uma vez que a demografia, os maus investimentos e as reformas no setor financeiro devem diminuir o potencial de expansão do país em breve.