Chapa de Paes com Reis se divide entre Lula e aceno ao bolsonarismo

Mesmo se aliando ao prefeito, que estará com petista em outubro, Washington Reis diz que fará campanha para Flávio

Agência O Globo

Eduardo Paes (PSD), prefeito do Rio de Janeiro (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Eduardo Paes (PSD), prefeito do Rio de Janeiro (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

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Anunciada ontem, a chapa para a eleição do Rio composta por Eduardo Paes (PSD) e Jane Reis (MDB), irmã do ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis, faz com que a aliança represente ao mesmo tempo as candidaturas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência.

Após o evento que consolidou a parceria, o presidente estadual do MDB confirmou que pedirá votos para o filho de Jair Bolsonaro (PL), a despeito do prefeito do Rio, que estará no palanque do petista.

— Ali no evento não era importante tratar de presidencial, e sim de governador, mas vou fazer (campanha para o Flávio) — disse Washington.

A própria Jane foi uma entusiasmada apoiadora de Bolsonaro na eleição de 2022. No dia em que o então presidente fez um comício em Duque de Caxias durante o segundo turno, tendo a família Reis como anfitriã, ela compartilhou diversas fotos e vídeos.

Na solenidade que marcou o anúncio do apoio do partido a Paes, o prefeito deixou claro que pretende evitar a nacionalização do jogo. Interessa a ele, num estado refratário ao petismo, beber de diferentes fontes da disputa nacional.

— O que fazemos aqui hoje é juntar um grupo de pessoas que não pensa tudo igual, que pensa diferente. Que tem escolhas nacionais distintas, às vezes escolhas locais distintas, mas que entende que política é a arte de juntar gente — disse Paes na sede do MDB. — Nosso país aqui é o Rio de Janeiro, e é disso que vamos tratar nos próximos meses.

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Segundo o prefeito, o presidente Lula foi comunicado sobre a aliança e demonstrou apoio “integral”.

Operação da PF

A vinculação entre os Reis e os Bolsonaros virou alvo da Polícia Federal após Duque de Caxias ter sido palco da suposta falsificação no cartão de vacinas do ex-presidente. Até pouco tempo atrás, Washington era o favorito de Bolsonaro para representar a direita na eleição do Rio. Havia, no entanto, um imbróglio jurídico: o cacique emedebista está inelegível por causa de uma condenação por crime ambiental que ele tenta reverter no Supremo Tribunal Federal.

Quando percebeu, na semana passada, que a situação na Corte era quase impossível, Reis recebeu o prefeito do Rio e aliados para um almoço. Ficou selada ali a aliança, vista como estratégica por dois motivos: o fator regional, já que a capital e Caxias são os dois maiores colégios eleitorais do Rio, e o religioso, dada a relação entre os Reis e igrejas evangélicas.

Ter a máquina de Caxias ganha especial importância na esteira da dificuldade que Paes poderá enfrentar em outro município de tamanho parecido, São Gonçalo, que é governado pelo PL. Filho do prefeito Capitão Nelson, o secretário estadual de Cidades, Douglas Ruas, é um dos cotados para disputar contra o carioca em outubro.

Escolhida para a vice, Jane é advogada e atua em projetos sociais na Baixada Fluminense, além de manter interlocução com igrejas. A família Reis tem ainda um deputado federal (Gutemberg), um estadual (Rosenverg) e o atual prefeito de Caxias, Netinho. O nome de Rosenverg chegou a ser colocado como opção de vice, mas Paes manifestou preferência por uma mulher.

O anúncio de apoio a Paes contou com a presença de figuras nacionais do MDB, como o presidente Baleia Rossi e o ministro das Cidades, Jader Filho. Também compareceram dirigentes e representantes de partidos no estado, entre eles o PT, além do vice-prefeito Eduardo Cavaliere (PSD), que assumirá a capital no dia 20 de março.

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O principal eixo do discurso de Paes foi a crítica dura ao governo de Cláudio Castro (PL).

— As pessoas começaram, no Rio, a confundir política com associação para outros fins — alegou o prefeito. — Essas outras forças também vão estar unidas. Como falta (a eles) política, mas outros motivos o motivam, eles vão estar unidos para tentar manter o poder no Estado do Rio.

Reis foi demitido da secretaria de Transportes do governo Castro pelo então interino Rodrigo Bacellar (União), que era presidente da Assembleia Legislativa e estava na cadeira durante uma viagem do governador. Castro não reverteu a exoneração. O dirigente do MDB se mantinha pré-candidato ao governo mesmo quando Bacellar — que depois foi preso e afastado do cargo — tinha sido definido como o representante eleitoral do grupo do governador.

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Outro momento de fala incisiva de Paes se deu ao analisar a segurança pública.

— Ninguém vai ficar de bravata nas eleições, todo mundo lembra do bravateiro das eleições de 2018 (Wilson Witzel) que falava em “tiro na cabecinha”. Mas, aos delinquentes e marginais do estado: saibam que a cumplicidade que o estado tem hoje com vocês vai acabar a partir de janeiro de 2027.

Com a chegada do MDB, o pré-candidato a governador atrai o primeiro partido de centro de porte robusto. Até então, contava apenas com siglas mais à esquerda, como PT, PSB e PDT, e legendas menores. Paes vinha tentando o PP, partido que só governa menos prefeituras que o PL no estado, mas o fato de o União Brasil ter no Rio o comando da federação a ser formada pelos dois partidos dificulta as conversas.

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Um dos representantes do PT no evento, o vice-presidente nacional do partido e prefeito de Maricá, Washington Quaquá, “convocou” mais legendas para a aliança de Paes:

— É importante que esse país distensione. Nessa sala apertada cabe muito mais gente, o muro está baixo.

Em 2014, o Rio vivenciou uma situação eleitoral parecida, embora menos acentuada do que promete ser a de agora. Oficialmente coligado com a então presidente Dilma Rousseff (PT), o MDB do governador Luiz Fernando Pezão criou a dissidência “Aezão”, que pregava apoio ao tucano Aécio Neves. Francisco Dornelles (PP), que viraria vice-governador, participou do ato inaugural de apoio ao presidenciável, enquanto Pezão seguiu ao lado de Dilma.

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