Operação Boca Livre

Casamento bancado pela Lei Rouanet durou final de semana inteiro e teve show de sertanejo

Felipe Amorim e Caroline Monteiro casaram no 300 Beach Club, espaço de frente para o mar; pai do noivo foi preso no âmbito da Operação Boca Livre

SÃO PAULO – A Polícia Federal deflagrou na manhã desta terça-feira (28) a Operação Boca Livre, que investiga desvio de R$ 180 milhões de recursos da Lei Rouanet. Um dos casos mais notórios foi o desvio para bancar o casamento do filho do empresário Antonio Carlos Bellini Amorim, do Grupo Bellini, em Jurerê Internacional, em 25 de maio deste ano. Felipe Amorim e Caroline Monteiro casaram no 300 Beach Club, espaço de frente para o mar.

Antonio Carlos Bellini Amorim e sua esposa foram presos hoje no âmbito da Boca Livre; ele é dono da Bellini Cultural e cabeça do esquema de fraudes na Lei Rouanet.

O casamento durou um final de semana inteiro e teve como atração principal um show do cantor sertanejo Leo Rodriguez, que afirmou não saber que o pagamento vinha de recursos públicos. 

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A PF anexou ao inquérito um vídeo da festa. Nas imagens, editadas como um vídeo , os convidados aparecem bebendo espumante no gargalo e dançando. Em coletiva de imprensa, o ministro da Justiça, Alexandre Moraes, falou sobre o vídeo do casamento investigado: “Nós vimos a gravação de um vídeo do casamento, uma festa boca livre que nós pagamos. No meu casamento, eu paguei. Por sinal, fiquei pagando um ano ainda. No casamento desse senhor que pagou com a Lei Rouanet foi em um hotel cinco estrelas em Florianópolis com direito a vídeo gravado. Nós achamos que haviam sido contratados modelos para fazer o vídeo. Eram os convidados mesmo, champanhe sendo aberto e isso com a Lei Rouanet”.

A Operação
Nesta manhã, foram cumpridos na Boca Livre, 14 mandados de prisão temporária de integrantes desse grupo, que atua desde 2001 em São Paulo. Os detidos serão encaminhados para a Superintendência da PF, na região da Lapa, na capital paulista. Em Brasília, policiais cumprem busca e apreensão na sede do Ministério da Cultura.

A ação investiga mais de 10 empresas patrocinadoras que trabalharam com o grupo e estima-se que mais de 250 projetos tenham recursos desviados. As empresas recebiam os valores captados com a lei e ainda faturavam com a dedução fiscal do imposto de renda. Com isso, o montante desviado pode ser ainda maior do que R$ 180 milhões, conforme a PF.

A organização apresentava iniciativas junto ao Ministério da Cultura e à Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo para a aprovação e utilização de verbas de incentivo fiscal previstas na Lei Rouanet. As investigações mostram que os recursos foram usados para custear eventos corporativos, shows com artistas famosos em festas privadas para grandes empresas, livros institucionais, além da festa de casamento.

Rodrigo de Campos Costa, delegado regional de Combate e Investigação ao Crime Organizado, disse que as irregularidades eram evidentes, com documentos fraudados de forma grosseira. “Houve, no mínimo, uma falha de fiscalização do Ministério da Cultura”, afirmou.

Em nota, o Ministério da Cultura informou que as investigações para apuração de uso fraudulento da Lei Rouanet têm o apoio integral do ministério e que “se coloca à disposição para contribuir com todas as iniciativas no sentido de assegurar que a legislação seja efetivamente utilizada para o objetivo a que se presta, qual seja, fomentar a produção cultural do país”.

(Com Agência Brasil)