Caráter político pesa na indicação de Murilo Ferreira para CEO da Vale

Apesar de currículo extenso, sinalização é que Ferreira deve ser mais aberto a projetos caros ao governo, como siderurgia

SÃO PAULO – No início desta semana, a Valepar, controladora da Vale (VALE3, VALE5), surpreendeu o mercado ao anunciar a escolha de Murilo Ferreira para a presidência da mineradora, em substituição a Roger Agnelli, cujo mandato termina em 21 de maio. Embora a empresa já tivesse confirmado que a alteração no comando ocorreria, o nome, que segundo a Vale partiu de lista tríplice formulada por empresa de seleção de executivos, foi definido com mais rapidez do que era esperado.

Além disso, após reportagens na semana anterior, o mercado tinha como certo que a indicação ficaria com Tito Martins, atual presidente da Inco, subsidiária canadense da mineradora, e diretor de Metais Básicos. Ainda assim, a notícia foi razoavelmente bem recebida por investidores e analistas. Desde o dia do anúncio, na noite de segunda-feira (4), até o fechamento de 6 de abril, as ações preferenciais classe A da Vale subiram 1,5%, e as ordinárias 1%. 

O peso do currículo
Apesar de não ter sido um nome comum na bolsa de apostas sobre quem assumiria a mineradora, Ferreira tem uma ampla trajetória no setor de mineração. Dos seus 58 anos de idade, 30 foram dedicados a atividades no segmento, inclusive na própria Vale. O executivo ingressou na mineradora em 1998 e passou por diversas áreas da empresa até chegar à diretoria executiva em 2005.

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Em 2007, Ferreira assumiu a presidência da Vale Inco, subsidiária canadense da empresa, onde ficou até deixar o cargo em 2008 – sua saída se deu por motivos de saúde, mas também há rumores de que ele se desentendeu com Agnelli sobre a aquisição da Xstrata, que acabou não se concretizando. 

Ferreira é graduado em Administração de Empresas pela FGV-SP (Fundação Getulio Vargas), com pós-graduação em Administração e Finanças pela FGV-RJ. O executivo ainda tem especialização em Fusões e Aquisições pela IMD Business School, em Lausanne, na Suíça. Durante sua passagem anterior pela Vale, o novo presidente da mineradora contribuiu para alguns dos grandes contratos firmados pela companhia na época. 

A aquisição da própria Inco foi a mais significativa em termos financeiros, já que representou um investimento de US$ 18,243 bilhões, mas outros negócios contribuíram para a ampliação dos segmentos de atuação da empresa, com compras em setores como níquel, carvão, cobre e bauxita. 

Mais aço e menos minério?
Essa abrangência, com ampla atuação internacional, é um dos elementos que incomoda o governo, que preferia ter no comando da empresa alguém mais alinhado a projetos de desenvolvimento nacional e de maior valor agregado, em detrimento dos esforços voltados para exportação. A percepção, que esteve bastante presente nos últimos três anos, foi recentemente explicitada pelo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão. 

“A Vale precisa contribuir mais fortemente com o desenvolvimento do País”, disse Lobão a jornalistas em evento realizado em Brasília na semana passada. A ideia seria investir mais em siderurgia, um negócio com margens menores e com um dinâmica de preços bem menos favorável do que o minério de ferro no momento. As próprias siderúrgicas têm se movimentado para aumentar sua participação em jazidas de minério. 

Cabe notar que nos últimos 11 anos a Vale fez apenas um investimento em aço, em março de 2003, na CST, de US$ 60 milhões. Por outro lado, foram 7 desinvestimentos em projetos ligados à siderugia, que totalizaram US$ 2,2 bilhões recebidos. 

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A força do governo
Analistas, portanto, não acreditam que o currículo de Ferreira tenha sido o único fator que pesou em sua indicação ao cargo. Para Luiz Pacheco, analista da Omar Camargo Investimentos, a opção por Ferreira atendeu diretamente ao desejo da Presidência da República.

Assim como boa parte do mercado, Leonardo Alves, analista da Link Investimentos, acredita que o nome em si não faria tanta diferença, “uma vez que Agnelli está sendo substituído por não agir de acordo com os interesses do governo em desenvolver esta ou aquela indústria, como investir em siderurgia no País quando nenhuma siderúrgica pensa em fazer”, apontou em relatório. 

Ferreira também teve intenso contato com a presidente Dilma Rousseff quanto ela era ministra das Minas e Energia e ele presidente da Albras, produtora de alumínio (uma indústria que tem intensa necessidade de energia elétrica) controlada pela Vale. Para Alexander Hacking, do Citigroup, o novo presidente da mineradora, ao lado do Conselho de Administração, terá que balancear a atual carteira de projetos da Vale com os investimentos domésticos preferidos pelo governo, como energia ou aço. 

Antonio Emilio Bittencourt Ruiz, analista do BB Investimentos, reconhece que este será o principal desafio de Murilo Ferreira em seu novo cargo. Embora tenha elogiado a experiência do executivo tanto na área quanto dentro da própria Vale, Ruiz avalia que “o desafio de Ferreira será conciliar as estratégias da companhia com os interesses dos principais acionistas, mantendo um bom clima onde todos saiam ganhando, administrando possíveis conflitos de interesse no desenvolvimento de novos projetos”, apontou.