Café vira símbolo da disputa entre Brasil e EUA e domina conversa entre Lula e Trump

Produto mais afetado pelo tarifaço de 50% é usado por Lula para pedir revisão das barreiras; Trump admite impacto e fala em “sentir falta” do café brasileiro

Marina Verenicz

Publicidade

O café, produto mais simbólico das exportações brasileiras, foi destaque na conversa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta segunda-feira (6).

Durante a videoconferência, Trump reconheceu o impacto das tarifas de 50% impostas em agosto sobre produtos brasileiros e admitiu que os Estados Unidos estão “sentindo falta” do café nacional, segundo apurou a BBC News Brasil.

O telefonema, que durou cerca de 30 minutos, marcou um novo passo na reaproximação diplomática entre os dois países, após semanas de tensão desde o anúncio do tarifaço americano.

“Cafezinho mais caro do mundo”

O café brasileiro, que responde por um terço do consumo americano, foi o setor mais afetado pelas tarifas. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), analisados pela BBC, mostram que as exportações de café para os EUA despencaram 47% em volume e 31,5% em valor em setembro, somando US$ 113,8 milhões.

A queda levou o superávit comercial brasileiro a cair 41% no mês, para US$ 3 bilhões. O comércio total com os EUA teve retração de 20,3%, enquanto as importações americanas cresceram 14,3%, ampliando o déficit brasileiro para US$ 1,77 bilhão.

Nos Estados Unidos, o impacto já é sentido no bolso do consumidor. O preço do café subiu 3,6% em agosto, o maior salto mensal em 14 anos, segundo o Escritório de Estatísticas do Trabalho americano.

Continua depois da publicidade

O aumento é nove vezes maior que a inflação média mensal (0,4%) e acumula alta de 20,9% em 12 meses, a mais intensa desde 1997.

Outros grandes exportadores também foram atingidos: a Colômbia, por exemplo, recebeu uma tarifa de 10%, o que reforçou a pressão inflacionária sobre o produto nos EUA.

Do atrito à aproximação

O diálogo entre Lula e Trump ocorre após um período de forte atrito diplomático, que começou quando o republicano justificou as tarifas como retaliação à “perseguição judicial” contra Jair Bolsonaro (PL).

A relação entre os dois líderes, contudo, mudou de tom desde setembro, quando se encontraram brevemente na Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Trump afirmou ter tido “excelente química” com o brasileiro e sinalizou a possibilidade de um encontro bilateral.

Durante a conversa desta segunda, Lula voltou a defender a revisão das tarifas e pediu também a revogação das sanções aplicadas contra autoridades brasileiras, entre elas o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Segundo fontes do Palácio do Planalto, o telefonema partiu de iniciativa americana.

Continua depois da publicidade

“O presidente Lula descreveu o contato como uma oportunidade para restaurar as relações amigáveis de 201 anos entre as duas maiores democracias do Ocidente”, afirmou o governo em nota.

Repercussão

Trump, por sua vez, escreveu na rede Truth Social que teve uma “ótima conversa” com Lula.

“Discutimos muitos assuntos, mas o foco principal foi a economia e o comércio. Teremos novas discussões e nos encontraremos em um futuro não muito distante, tanto no Brasil quanto nos EUA. Gostei da conversa — nossos países se darão muito bem juntos!”, declarou.

Continua depois da publicidade

O republicano nomeou o secretário de Estado, Marco Rubio, para conduzir as negociações com o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro da Fazenda Fernando Haddad e o chanceler Mauro Vieira.

Segundo o Planalto, os dois presidentes também avaliam um encontro presencial em novembro, durante a Cúpula da ASEAN, na Malásia, ou na COP30, em Belém (PA).

Em tom bem-humorado, Trump teria dito que, durante a ONU, “a única coisa que funcionou foi o encontro com Lula”.

Continua depois da publicidade

Impacto econômico

O café tornou-se símbolo da crise comercial entre os dois países, com efeitos diretos sobre exportadores brasileiros, torrefadoras americanas e o consumidor final nos EUA.

Caso as tarifas persistam até o fim do ano, o Brasil pode perder espaço no mercado americano para fornecedores asiáticos e africanos, como Vietnã e Etiópia.

O Itamaraty vê no diálogo um sinal positivo e aposta em negociações técnicas lideradas por Alckmin para buscar uma redução progressiva das tarifas até o primeiro trimestre de 2026.