Batalha consigo mesmo

Brasil está caminhando para uma crise financeira única, diz The Economist

O Brasil não apresenta sintomas de uma crise antiquada da balança de pagamentos nem está à mercê do capital global. A crise do Brasil é, em essência, uma batalha consigo mesmo, diz a publicação

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SÃO PAULO – Depois de falar em duas edições sobre o candidato Jair Bolsonaro (PSL), a revista britânica The Economist mais uma vez colocou o Brasil como tema, desta vez focando na situação econômica nacional. E as notícias para o País não são boas, aponta a publicação: de acordo com ela, o Brasil está a caminho de uma crise financeira única. 

A publicação britânica apontou, citando o economista Rudi Dornbusch, que normalmente há dois tipos de crise cambial.  O tipo pré-1990, que é lento, começando com uma taxa de câmbio supervalorizada, que dá origem a um déficit comercial e queda das reservas cambiais estrangeiras. Quando elas se vão, o “jogo acaba, a moeda cai, o ministro da Fazenda perde o emprego. Mas a vida continua como antes. O mundo não desmorona”.

O segundo tipo de crise é mais potencializado, com um país que já está angariando muitos empréstimos e alocando em más políticas sendo capaz também de abocanhar bilhões de dólares em mercados de capitais globais para uso indevido. Os bancos domésticos se juntam à festa, a economia cresce e, quando o fluxo de capital repentinamente se reverte, a moeda entra em colapso. A falência é generalizada e o dano é grande o suficiente para afetar os outros.

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Porém, para a The Economist, o Brasil parece exigir uma terceira categoria de classificação. “As eleições deste mês decidirão seu próximo presidente e o perfil do seu Congresso. Assim, eles moldarão a resposta a uma crise financeira em câmera lenta. O drama provavelmente será jogado no mercado de câmbio. O impacto pode ser de grande alcance. Mas o Brasil não apresenta sintomas de uma crise antiquada da balança de pagamentos. Nem está à mercê do capital global. A crise do Brasil é, em essência, uma batalha consigo mesmo”.

“O problema do Brasil é que as finanças do governo estão em um caminho perigoso. A dívida pública aumentou de 60% para 84% do PIB em apenas quatro anos”, segue a publicação. A The Economist ressalta que isso se deve muito ao colapso das receitas após 2013: “uma recessão brutal não ajudou. Mas o orçamento havia sido favorecido por receitas inesperadas de um boom de commodities e gastos de consumo alimentados por crédito. Aqueles não serão repetidos”.

Isso significa que cortes de gastos são necessários para consertar as finanças públicas. Enquanto os salários do funcionalismo público cresceram rapidamente, a Previdência excessivamente generosa é um problema muito maior e continuará aumentando conforme o Brasil envelhece. “As coisas poderiam ser piores se não fosse por conta de uma emenda constitucional em 2016 que limita o aumento dos gastos públicos”, aponta a Economist, em referência a EC nº 95. A publicação ainda ressalta que houve uma tentativa de reformar a previdência, mas que foi abortada quando o presidente Michel Temer foi implicado nos escândalos de corrupção que viram um de seus antecessores ser cassado e outro preso.

Em um Brasil diferente, a política procuraria conciliar as reivindicações dos seus credores (que são quase todos os poupadores brasileiros), aposentados, funcionários públicos e o restante do país, aval. Este último grupo sofreu um aperto nos serviços públicos e nos padrões de vida. Enquanto isso, os dois principais candidatos à presidência são figuras polarizadas que podem sofrer para fazer a reforma previdenciária.

À publicação, o economista Arthur Carvalho, do Morgan Stanley, ressaltou que um ponto crítico pode ser em agosto próximo, se não antes. Este é o momento quando o orçamento de 2020 será apresentado e, se a reforma da Previdência não estiver em vigor, será necessário um grande aperto nos gastos públicos.

Nesse cenário, os credores ficariam assustados e, embora os estrangeiros tenham pouco da dívida do Brasil, ainda haveria fuga de capitais, a moeda cairia e haveria aumento no rendimento dos títulos. “À medida que os poupadores brasileiros anteciparem a inflação e o caos econômico que resultarão da crescente dívida pública, eles tentarão escapar dela”, afirma a publicação, lembrando que muitos poupadores em outros lugares na América Latina possuem contas em dólar no exterior como um escudo contra a inflação doméstica. 

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Nada é inteiramente novo, aponta a publicação. Os sintomas das crises passadas no Brasil foram inflação alta e déficits externos. Mas, por trás disso, o problema era a política fiscal negligente, conforme apontou o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, da Gávea Investimentos.  Nesse cenário, ressalta a Economist, uma correção no meio do caminho pode evitar o pior. “O Brasil ainda pode administrar isso. Se não puder, os eventos provavelmente ganharão força dramaticamente”, conclui a publicação. 

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