Barômetro do Poder

Bolsonaro perde capital político após manifestações e com avanço do novo coronavírus, observam analistas

Levantamento mostra piora na percepção dos analistas políticos para a relação entre governo e Congresso e para o apoio do presidente junto à sociedade

SÃO PAULO – Diante dos avanços do novo coronavírus e do contra-ataque provocado na opinião pública frente às reações iniciais do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à pandemia da doença, analistas políticos veem um risco de perda de popularidade do mandatário e uma piora nas relações entre os Poderes Executivo e Legislativo.

É o que indica a edição de março do Barômetro do Poder, iniciativa do InfoMoney que compila mensalmente as avaliações e projeções das principais casas de análise de risco político e analistas independentes em atividade no Brasil. Para acessar a pesquisa na íntegra, clique aqui.

O levantamento mostra que, dividindo os 513 deputados federais e os 81 senadores em três grandes grupos (alinhados com o governo, de oposição e indefinidos), a média das estimativas dos especialistas aponta para uma base aliada com 91 assentos na Câmara (18%) e 15 no Senado (19%).

É o menor patamar médio estimado desde o início da atual administração. Os analistas estimam que a oposição conte com 150 deputados e 19 senadores e que os incertos somem 272 e 47 assentos nas respectivas casas legislativas.

A 14ª edição do Barômetro do Poder foi realizada entre os dias 16 e 19 de março e contou com a participação de nove casas de análise de risco político: BMJ Consultores, Control Risks, Dharma Political Risk and Strategy, Medley Global Advisors, Patri Políticas Públicas, Prospectiva Consultoria, Pulso Público, Tendências Consultoria e XP Política. E quatro analistas independentes: Antonio Lavareda (Ipespe); os professores Carlos Melo (Insper) e Cláudio Couto (EAESP/FGV) e o jornalista e consultor político Thomas Traumann.

Conforme acordado com os participantes, os questionários são aplicados por meio eletrônico e os resultados são divulgados de forma agregada, sendo mantidas sob anonimato as respostas individuais.

Segundo o levantamento, o grupo de analistas que considera péssima a relação entre governo e parlamento disparou de 7% para 38% entre abril e março, enquanto os que avaliam essa relação como regular despencaram de 36% para 8%. O quadro é pior do que o registrado em novembro – até então o mais negativo para o governo.

Da mesma forma, a expectativa de que a qualidade do diálogo entre presidente e parlamentares irá piorar nos próximos seis meses chegou ao pico de 69% dos respondentes. Nenhum analista acredita em melhora nas relações entre as partes neste período.

“O governo conseguiu se desgastar ainda mais com as manifestações antidemocráticas do dia 15/03 e com o desleixo demonstrado com o presidente em relação à pandemia da Covid-19. O recuo na coletiva do dia 18 é apenas parcial, já que ele aproveitou a ocasião para novamente criticar a imprensa, inclusive de forma individualizada, e convocar sua base de apoio para um contrapanelaço”, avaliou um dos respondentes.

“De certa forma, ele repete as convocatórias mais ou menos dissimuladas para o ato do dia 15, que prestigiou pessoalmente, às portas da sede do Executivo. Isso piorou suas já ruins relações com o Congresso e o STF, a despeito das declarações laudatórias da coletiva do dia 18. O presidente segue na sua estratégia de morde-assopra, mas se desgasta mais a cada momento”, continuou.

Também atingiu a pior marca a percepção sobre a relação entre os Poderes Executivo e Judiciário. O Barômetro mostra que, em um intervalo de um mês o grupo dos que avalia o diálogo ruim ou péssimo mais que dobrou: de 21% para 46%.

A mudança de percepção ocorre no calor das disputas entre os Poderes por recursos orçamentários e de atos em apoio ao atual governo e críticos ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal, realizados no último domingo (15).

Embora tenha sugerido o adiamento das manifestações ao longo da semana passada, Bolsonaro acompanhou parte dos protestos em Brasília e interrompeu um isolamento recomendado para cumprimentar um grupo de simpatizantes em frente ao Palácio do Planalto.

A conduta do presidente, que chegou a criticar a “histeria” com o surto da doença e dizer que ele seria o responsável caso tenha sido infectado com a Covid-19, incomodou setores da opinião pública. Por duas noites, foram realizados panelaços contra Bolsonaro (e também a favor, porém, de forma reativa e em menor escala).

Os episódios recentes levaram os analistas políticos a mudar percepção sobre a relação entre o presidente e a própria sociedade. Pela primeira vez, o levantamento mostra a visão de apoio baixo dos eleitores ao mandatário superar as avaliações de apoio regular.

Em uma escala de 1 (muito baixo) a 5 (muito alto), a média atribuída pelos especialistas consultados ao endosso popular de Bolsonaro é de 2 (baixo).

“Bolsonaro alienou os diversos grupos que o levaram a vitória em 2018. Isso sem ter uma esquerda forte e unida na oposição. Isso sem ter o PT pedindo impeachment. Um caso clássico de crise criada pelo próprio presidente”, observou um dos participantes.

“Somente o isolamento social por conta do vírus evita hoje manifestações populares nas ruas pelo impeachment ou renúncia do presidente”, complementou.

O Barômetro do Poder também mostra que 85% dos analistas políticos consultados veem altos impactos dos atos (e do endosso do presidente a eles) sobre o futuro das relações entre governo e Congresso Nacional. Na percepção da maioria deles, os episódios da última semana enfraquecem o presidente.

“O endosso aos protestos e a dificuldade de construir pontes de diálogo, somados ao negacionismo à pandemia colocaram o presidente em situação muito difícil”, pontuou outro analista.

A pandemia da Covid-19 também é vista como um ponto de inflexão na política e que ampliará os desafios do governo, seja do ponto de vista das demandas da população por medidas de enfrentamento à crise, seja na forma de dialogar com o parlamento em um momento emergencial.

“A emergência do coronavírus chegará primeiro à saúde pública, depois para a economia e, finalmente, na piora drástica do ambiente político”, disse um dos respondentes do questionário.

“O coronavírus é ponto de inflexão da relação entre Bolsonaro e a sociedade, Bolsonaro e o Congresso”, afirmou outro.

Todos os analistas consultados consideram alto ou muito alto o potencial impacto do avanço do novo coronavírus sobre a popularidade de Bolsonaro. O Brasil já registrou 6 mortes provocadas pela doença e tem 621 casos confirmados, segundo o último boletim divulgado pelo Ministério da Saúde na quinta-feira (19).

Na avaliação dos analistas, a agenda de reformas deve sofrer os efeitos da nova crise. O parlamento deve conduzir uma agenda mais voltada em respostas emergenciais ao avanço do novo coronavírus e não tende a oferecer resistências a iniciativas do governo nesse sentido.

“A crise sanitária deve levar o Congresso a aprovar iniciativas do governo relacionadas a ela, bem como medidas de mitigação da crise econômica por ela provocada. Porém, o condão aqui é a emergência, não a capacidade de articulação política do governo”, comentou um dos especialistas.

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