Política

Bolsonaro não está à altura do cargo que ocupa, diz FHC

Em transmissão promovida pela Casa do Saber, tucano diz que presidente "foi pego no contrapé" pela crise e governo "está perdido com a situação"

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SÃO PAULO – O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) afirmou, nesta quarta-feira (13), que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) “não está à altura” do cargo que ocupa e que não tem representado a liderança necessária no enfrentamento à pandemia do novo coronavírus.

Em transmissão promovida pela Casa do Saber, o tucano disse que o presidente “foi pego no contrapé” pela crise e o governo “está perdido com a situação”. “[Bolsonaro] Não está à altura Ele nunca se sentiu cômodo naquela cadeira. Eu tenho a sensação de que é um homem que age por impulso. Ele primeiro age, e depois pensa”, afirmou.

“Falta carinho, para que as pessoas afetadas (pela pandemia) sentissem que os outros estão sofrendo junto com elas. E olha que não sou de temperamento derretido, mas é preciso demonstrar solidariedade. A sensação é que há uma certa arrogância. ‘Sou atleta’. Não adianta ser atleta, morre todo mundo. Precisa haver humildade diante da tragédia que estamos vivendo”, continuou. Para FHC, falta ao atual presidente “visão de futuro” e capacidade de convencer a população sobre os caminhos a serem seguidos.

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“Acho que perdemos o rumo, ele ficou assustado com o que está acontecendo”, pontuou. “O exercício da liderança é muito difícil. Você tem que ter rumo. Não pode perder o rumo. E tem que ter quem te acompanha. A ideia não pode parecer uma imposição ao povo. É preciso convencer e não me parece que o presidente tem essa capacidade”.

Na avaliação do tucano, Bolsonaro não cumpre o papel de conciliador de um presidente no sistema político brasileiro. Para ele, o atual chefe do Poder Executivo tem dividido e “inventado adversários que não existem” – como o globalismo e o marxismo cultural.

Questionado sobre a possibilidade de impeachment, FHC disse que Bolsonaro erra ao desdenhar do Congresso Nacional, da imprensa e do Supremo Tribunal Federal e que ele “nunca teve apreço pelas instituições”, mas um processo desta natureza deixa marcas na sociedade.

“É melhor evitar. Mas quem tem que evitar mesmo é quem está no poder. Bolsonaro está cavando a própria fossa. Pare de cavar, meu Deus. Não quero isso. Sei o custo histórico. Eu me opus ao impeachment do presidente Lula. Ele foi o primeiro líder sindical que chegou à Presidência. Vamos tirar? Isso fica na história”, disse.

“Para impeachment, é preciso acumulação de muita força negativa. Espero que não chegue a esse ponto”, continuou.

Diante das dificuldades enfrentadas pela atual administração, FHC vislumbra um ganho de protagonismo dos outros Poderes, mas criticou “extrapolações” de função por parte do STF. Dentro do governo, o ex-presidente avalia a conquista de maior espaço pela ala militar como mais um sinal de fraqueza do presidente.

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“Não creio que as Forças Armadas estão fazendo um movimento para ocupar o poder. É a fraqueza do presidente que leva a nomear muitos militares. Nomeação de militares é sinal de fraqueza”, analisou.

Do ponto de vista eleitoral, FHC defendeu a conformação de uma ampla aliança de “centro” para enfrentar os extremos, mas disse ainda ter dúvidas sobre nomes capazes de liderar o movimento. “O Brasil precisa consolidar um centro. Não um centro amorfo. Precisa ter lado, de crescimento econômico, de emprego, saúde e educação. Quem surgir aí, eu estaria disposto a apoiar”, disse.

Entre os lembrados estão os governadores tucanos Eduardo Leite (RS) e João Doria (SP), que na sua avaliação cresceram na crise da Covid-19. Também foram citados os governadores petistas Rui Costa (BA), Wellington Dias (PI) e Camilo Santana (PT), além de Flávio Dino (PCdoB) e o apresentador Luciano Huck.

“Mas acho que o momento não é para alguém que simbolize nem PSDB, nem PT. É preciso alguém mais palatável para o grosso da população, que não é nem lá nem cá. Unificação não é só a favor, é contra também. É contra o autoritarismo”, ponderou.

Fernando Henrique Cardoso também manifestou preocupação com o que virá após o momento mais agudo da pandemia do novo coronavírus. “Vamos ter que prestar atenção no que vai acontecer depois do fim da pandemia. Falta de comida emprego. Isso pode provoca explosões”, disse.

Do ponto de vista macroeconômico, defendeu a continuidade de uma agenda de reformas visando a construção de um Estado “mais competente”. Para o tucano, a saída da crise se dará pela tecnologia e terá de ser associada a um olhar especial para o social, com a necessidade de construção de programas para setores vulneráveis – estes profundamente afetados pela conjuntura criada pela pandemia.