Análise

Bolsonaro na máxima, Alckmin estagnado e Marina desidratada: possíveis conclusões para a nova pesquisa eleitoral

Levantamento DataPoder360 reforça percepção de que deputado é o principal beneficiário da greve dos caminhoneiros, em contraste com a centro-direita

SÃO PAULO – O deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) é o grande beneficiário do ambiente de radicalização potencializado pela greve do transporte de carga que percorreu o país nas últimas duas semanas. Essa é a principal constatação que se chega a partir do resultado da nova pesquisa presidencial divulgada pelo DataPoder360 na noite da última segunda-feira (4). Confira os detalhes aqui.

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Segundo o levantamento, feito entre os dias 25 e 31 de maio, o parlamentar tem entre 21% e 25% das intenções de voto, dependendo do cenário considerado. É o maior patamar alcançado pelo pré-candidato desde que a pesquisa para a disputa presidencial começou a ser feita.

A pesquisa contou com 10.500 entrevistas por meio de telefones fixos e celulares, com abrangência em 349 cidades em todas as regiões do país. A margem de erro máxima é de 1,8 ponto percentual, para cima ou para baixo. Para o primeiro turno da disputa, foram testados três cenários — todos sem a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado em segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

“Bolsonaro foi quem mais ganhou com esse ambiente de radicalização, porque, além de surfar na pauta conservadora que vem surgindo no Brasil e no mundo, ele melhor encarna o sentimento anti-sistema no Brasil, embora seja um político que exerça mandato de deputado federal há muito tempo. Ele consegue se descolar desta imagem e surfar na onda de descrédito da política tradicional”, observa Carlos Eduardo Borenstein, analista político da consultoria Arko Advice.

Além da pontuação elevada registrada, a pesquisa mostrou que o capitão do Exército na Reserva é o pré-candidato com eleitores mais convictos. De acordo com o levantamento, 77% dos eleitores que hoje declaram voto em Bolsonaro dizem que com certeza votarão no candidato escolhido. O resultado mostra efeito similar ao elevado índice de votos espontâneos que o parlamentar tem em outros levantamentos, o que revela maior robustez da candidatura.

A pesquisa DataPoder360 também mostrou que, se a eleição fosse hoje, Bolsonaro venceria nos quatro cenários considerados (contra Ciro Gomes, Marina Silva, Fernando Heddad e Geraldo Alckmin). O parlamentar, contudo, conta com, no máximo, 35% dos votos nessas situações. Para Borenstein, tal desempenho reforça um ambiente de dificuldades para o parlamentar superar o eleitorado da extrema direita e marchar em direção ao centro. O nível elevado dos “não voto” (brancos, nulos, não responderam), que chegam a 48%, ajuda a esconder tal situação.

O analista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria e autor do Mapa Político (relatório semanal de análise disponível na Loja de Relatórios do InfoMoney), chama atenção para algum possível efeito provocado pela metodologia adotada pela pesquisa sobre os resultados observados. Ele acredita que em uma sondagem telefônica como esta podem ganhar maior evidência nomes que apresentem melhor desempenho entre eleitores com maior renda e nível de escolaridade.

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“Naturalmente, os desdobramentos da crise dos preços dos combustíveis vão na direção de reforçar o peso dos projetos de oposição ao atual governo. No fundo, todos os nomes distantes ao atual governo potencialmente vão receber esses votos. No campo da direita, Bolsonaro é o nome com maior chance de mobilizar esses votos”, avalia Cortez.

“De todo modo, me parece que a própria inflexão do discurso de Bolsonaro ao longo do protesto sinaliza também um custo de ter posições mais extremadas”, pondera o especialista.

Os perdedores

Se é possível dizer que Bolsonaro foi o principal vencedor nesta nova pesquisa, o ex-governador paulista Geraldo Alckmin vive situação oposta. Embora tenha visto um ambiente de dificuldades para o ex-prefeito paulistano João Doria na corrida presidencial — o que afasta o fantasma de outra candidatura tucana –, o pré-candidato pelo PSDB segue estagnado em patamares baixos, assim como outros nomes da centro-direita.

“É bastante interessante ver os dilemas que Alckmin enfrenta, porque é também um dos nomes que deveria ter desempenho muito melhor neste tipo de eleitorado (renda e nível de escolaridade mais elevados). Naturalmente, nota-se como a candidatura de Bolsonaro tem machucado bastante as chances do PSDB”, analisa Cortez. 

“No Sudeste, ele perde para Bolsonaro. No Sul, vemos Alvaro Dias muito forte. Se avaliarmos esse desempenho, com as dificuldades tradicionais que o PSDB tem no nordeste, ele passa por uma situação de dificuldade. E todo aquele discurso de que ainda é cedo parece que internamente não é visto com uma naturalidade tão grande”, avalia Borenstein.

Para o analista da Arko Advice, o desempenho fraco de João Doria em um dos cenários testados pela pesquisa reforça a tendência de Alckmin, mesmo com as dificuldades hoje enfrentadas, ser confirmado candidato tucano à presidência. “Neste momento, nossa avaliação sobre a probabilidade de Alckmin ser o candidato do PSDB gira em torno de 90%. Mas não podemos desconsiderar o risco de um fato novo atingi-lo”, projeta.

Borenstein lembra que o ex-governador detém amplo controle sobre as estruturas internas do partido e que a legenda não contaria com alternativas à candidatura de Doria ao governo de São Paulo caso o ex-prefeito decidisse arriscar voos mais altos. Além disso, o especialista lembra que Doria enfrentaria resistência de caciques históricos tucanos. “É remota a possibilidade de Doria disputar a eleição presidencial. Mas, como em política tudo muda, não podemos descartar”, explica.

Um dos desafios enfrentados por Alckmin diz respeito à necessidade de formar alianças para garantir melhor estrutura durante a campanha, sobretudo em tempo de televisão e palanques regionais. Neste sentido, um dos cálculos especulados seria uma aproximação com o MDB. A crescente toxicidade do presidente Michel Temer e a perda de narrativas até mesmo no campo econômico elevam os custos de tal movimento, a despeito da poderosa estrutura emedebista. Em entrevista ao InfoMoney, Pérsio Arida, coordenador econômico da campanha de Alckmin, foi enfático em negar aproximações com o governo.

Obstáculos à aliança não surgem apenas entre os tucanos. Apesar de o ativo eleitoral de Henrique Meirelles (a narrativa da recuperação econômica) ser cada vez mais contestado e elevar o nível de ameaça à candidatura do ex-ministro, uma desistência não necessariamente levaria o MDB para próximo do PSDB.

“Também começa a surgir movimento de alas do MDB que não querem ter candidatura própria de lançar nomes para disputar com Meirelles na convenção e atrapalhar seu caminho. O ex-ministro começa a ter uma série de obstáculos. Mas, mesmo que o MDB opte por não ter candidatura própria, o entendimento com Alckmin é algo complicado, porque cada estado tem uma realidade própria. Ou o MDB vai com Meirelles ou eles podem optar pelo caminho de não apoiar ninguém. Se partido não lançar candidatura própria, pode ajudar nos estados. O grande temor é ter um encolhimento de bancada”, observa Borenstein.

“Hoje, pela distância que Alckmin teve do governo e o provável crescimento da impopularidade do governo, uma aliança é cada vez mais remota, pelo menos ainda antes do primeiro turno”, avalia o especialista.

Os resultados na esquerda

Outro destaque da pesquisa DataPoder360, além do desempenho de Bolsonaro e a resiliência de brancos, nulos e indecisos a cerca de quatro meses das eleições, foi o desempenho do ex-prefeito paulistano Fernando Haddad, cotado como possível “plano B” do PT para a corrida presidencial caso Lula, enquadrado na Lei da Ficha Limpa, não possa se candidatar. Para Cortez, o fato de o petista não ter recall elevado e ainda ser muito desconhecido por uma fatia do eleitorado e já apresentar um desempenho na casa dos 6% pode revelar uma candidatura forte. “Ele pode ser bastante competitivo e eventualmente ultrapassar Ciro Gomes nas pesquisas”, observa.

Já Borenstein hoje observa força na candidatura do ex-governador cearense, embora chame atenção para o potencial de transferência de votos de Lula. “Ciro leva uma pequena vantagem sobre o nome do PT e de Marina Silva. Só que o índice de Haddad está abaixo do percentual de eleitores que diz que votaria de qualquer forma em um candidato apoiado por Lula. Dependendo de como se der a transferência, o PT pode disputar com Ciro essa condição de partido que vá levar a esquerda ao segundo turno”, vislumbra.

Outro destaque da pesquisa foi uma desidratação observada na pré-candidatura da ex-senadora Marina Silva, que costuma ter boa pontuação entre eleitores de maior nível de escolaridade e renda, interessados na narrativa da alternativa ao establishment político. Para Cortez, ao longo da campanha, a fundadora da Rede terá de superar a postura reativa a demandas por valores mais abstratos e posicionar-se em questões concretas, com uma agenda mais propositiva. “A dificuldade e incapacidade que Marina tem de fazer essa proposição pode ter efeito limitador na chance de crescimento ao longo das pesquisas”, conclui.

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