Nova estratégia

Bolsonaro ensaia nova aproximação com o “centro”: o que pode mudar?

Aceno coincide com momento de maior dificuldade para o governo, em meio à crise do novo coronavírus, e reforça aposta para enfraquecer Rodrigo Maia

(Crédito: Antonio Cruz/ Agência Brasil)
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SÃO PAULO – O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) iniciou, nos últimos dias, um movimento, nos bastidores, de aproximação com algumas das lideranças mais influentes da Câmara dos Deputados, oferecendo maior participação no governo federal em troca de uma base parlamentar com mais solidez.

A articulação envolve algumas siglas do “centro”, como PP, PL, Republicanos (partido que agora abriga os filhos do presidente enquanto o Aliança pelo Brasil não sai do papel) e PSD, que juntos detêm 147 representantes – o equivalente a 29% do total de assentos da casa. Também está na mira o MDB, que tem 34 deputados federais e a maior bancada do Senado Federal, com 13 representantes – 16% do total da casa. Além destes, o governo espera que siglas menores sigam o movimento de adesão.

Em troca, os partidos poderão ocupar espaços com orçamentos bilionários no segundo e terceiro escalões. Conforme noticiou o jornal Valor Econômico, o PSD recebeu a promessa de nomear o presidente da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Já o PP sugeriu nomes para o Fundo Nacional de Educação (FNDE), hoje ocupado por uma indicação de Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados.

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Ainda há acenos do governo federal com as cobiçadas secretarias do Ministério do Desenvolvimento Regional, Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), Telebras e a presidência do Banco do Nordeste. Tudo para garantir a possibilidade de uma nova aproximação em meio a meses tumultuados para a relação entre governo e parlamento. Mas ainda há muita desconfiança.

Há também especulações sobre uma possível reforma ministerial. Uma das teses, segundo o portal UOL, seria a recriação do Ministério do Trabalho e sua oferta ao PTB, presidido por Roberto Jefferson (RJ) – o que, além de visar a governabilidade, poderia enfraquecer o ministro Paulo Guedes (Economia).

O movimento contrasta com a participação de Bolsonaro e o discurso que proferiu em manifestações que pediam intervenção militar e a volta do AI-5, em Brasília, no último domingo (19). Na ocasião, o presidente atacou o que chamou de “velha política” e disse que não iria negociar nada.

Para analistas políticos, a busca do mandatário por aproximação com lideranças do “centro” coincide com um momento de maior dificuldade para o governo federal, em meio ao agravamento da crise provocada pelo avanço da pandemia do novo coronavírus.

Além disso, a estratégia pode sinalizar uma tentativa de enfraquecer o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que conquistou protagonismo político no processo, em meio à descoordenação do governo e a lentidão na apresentação de medidas efetivas de enfrentamento da doença.

Também passa pelo movimento de Bolsonaro a disputa pela sucessão de Maia no comando da casa legislativa. Há uma percepção no Palácio do Planalto de que a relação com o deputado está profundamente desgastada e existe um interesse em patrocinar um nome mais próximo do governo para a sucessão.

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Na última quinta-feira (16), Bolsonaro insinuou que o deputado estava conspirando para tirá-lo da presidência e disse que o parlamentar estava tendo uma péssima atuação na crise.

Caso queira concorrer mais uma vez ao posto, Maia terá de aprovar uma emenda constitucional, já que o texto atual impede a recondução de presidentes das casas em uma mesma legislatura. De qualquer forma a oposição cada vez mais pública do governo pode afetar a condução dos trabalhos e o jogo político pela frente.

“O Planalto inicia cedo e de maneira explícita a sua movimentação. É um jogo arriscado e, independentemente do resultado em fevereiro de 2021, afetará de maneira negativa a dinâmica das votações da Câmara até lá”, observam os analistas políticos da XP Investimentos.

Há ainda riscos associados ao menor controle do presidente sobre a agenda do próprio governo, caso a distribuição de espaço seja posta em prática – o que também poderia frustrar parte de seu eleitorado mais fiel e a quem buscou fazer acenos mais enfáticos na crise da Covid-19.

Também há dúvidas sobre o futuro da agenda de reformas, tendo em vista o papel importante desempenhado por Maia ao longo dos últimos anos e o tensionamento provocado neste momento pelo governo para mudar os rumos do bloco hegemônico na Câmara dos Deputados.

“Ainda está muito cedo para traçarmos um prognóstico se Bolsonaro vai ter sucesso ou não nessa iniciativa. Vai depender de como será o processo de entrega dos cargos, do relacionamento que vai ter com esses partidos. Mas, de qualquer forma, é uma iniciativa positiva do presidente, em meio ao isolamento que passou a ter desde a eclosão da pandemia”, pontua Carlos Eduardo Borenstein, da consultoria Arko Advice.

Para ele, também deve ser monitorado o risco de manifestações populares críticas ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal continuarem acontecendo à revelia das posições do presidente.

“Existe um risco, independentemente de a negociação avançar ou não, de esses grupos continuarem se mobilizando à revelia do presidente. Pode surgir uma movimentação de apoio de parlamentares e empresários próximos a ele, no sentido de continuar aglutinando as ruas”, complementa.

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O histórico do governo Bolsonaro também alimenta dúvidas de analistas sobre o que de fato pode mudar com o novo namoro com o establishment parlamentar. Ou se esse seria mais um passo em falso que antecede um novo tensionamento com o “sistema”.

“É importante ter cautela. Bolsonaro só precisa da ‘velha política’ para maldizê-la ao seu eleitorado. Não pode prescindir da retórica antissistema, mas é de quem, com acordos pontuais, após alternar maior e menor tensão, consegue trégua para relevar as consequências de suas polêmicas. Nesta etapa, o centrão pode acumular cargos e recursos como um ‘seguro’, caso haja eleição municipal, enquanto não decide se banca mudanças regimentais para reconduzir Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre às funções deles”, pontua Leopoldo Vieira, da consultoria Idealpolitik.