Pandemia

Bolsonaro e Doria trocam acusações em reunião sobre crise do coronavírus

A crise envolvendo a Covid-19 acentuou a disputa entre o presidente e governadores, sobretudo Doria, visto como potencial candidato à presidência em 2022

Hamilton Mourão, Jair Bolsonaro e João Dória
(Marcos Corrêa/PR)

SÃO PAULO – O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) elevou ainda mais o nível de atrito com governos em meio ao avanço do novo coronavírus pelo país e às divergências sobre medidas a serem tomadas para frear o avanço da doença. Em reunião com representantes dos estados da região Sudeste, realizada nesta quarta-feira (25), o mandatário trocou acusações com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB-SP).

Durante a conversa por videoconferência, Doria disse que Bolsonaro deveria adotar postura de líder diante da crise, “dar exemplo ao País, e não dividir a nação em tempos de pandemia”. O presidente, por seu turno, respondeu: “Se você não atrapalhar, o Brasil vai decolar e conseguir sair da crise. Saia do palanque”.

Bolsonaro ainda disse que o governador “apoderou-se” do seu nome para se eleger governador e que depois “virou as costas” para atacar o governo federal. “Subiu à sua cabeça a possibilidade de ser presidente da República. Não tem responsabilidade. Não tem altura para criticar o governo federal, que fez completamente diferente o que outros fizeram no passado. Vossa excelência não é exemplo para ninguém”, disse.

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[Doria] acusa, levianamente, esse presidente que trabalha 24 horas por dia. Não aceitamos essa demagogia barata. Vossa excelência não é exemplo para ninguém. Senhor governador João Doria, faça sua parte”, afirmou o presidente.

A crise envolvendo a pandemia da Covid-19 acentuou a disputa entre Bolsonaro e Doria. À frente do estado com o maior número de casos, o governador paulista tomou medidas restritivas para evitar a propagação da doença, como o início de um período de quarentena, iniciado ontem (24).

Já o presidente tem optado por minimizar a doença e chamar atenção para os potenciais impactos econômicos de medidas como as tomadas pelo tucano. Ontem, em pronunciamento em rede nacional, Bolsonaro referiu-se ao novo coronavírus como “gripezinha” ou “resfriadinho” e criticou o fechamento de escolas e comércio, que chamou de “confinamento em massa”, para combater a epidemia, atacando a imprensa e governadores.

O encontro com os governadores do Sudeste foi o quarto de uma série de reuniões virtuais de Bolsonaro. Antes, o presidente havia conversado com representantes de governos do Norte, Nordeste, Sul e Centro-Oeste.

Na discussão acalorada, Doria também destacou que, embora os quatro governadores do Sudeste sejam de partidos diferentes – além dele, que é do PSDB, Wilson Witzel (RJ), do PSC; Romeu Zema (MG), do Novo; e Renato Casagrande (ES), do PSB –, há uma coordenação de ações. Depois da reunião, o tucano voltou a criticar Bolsonaro pelas redes sociais.

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Durante a reunião, Doria também disse que manteve divisas do estado, estradas e aeroportos abertos e que as fábricas continuam funcionando. O governador também ameaçou ir à Justiça se o governo federal confiscar respiradores mecânicos para doentes graves com a doença.

“Não é hora aqui de termos questões burocráticas impedindo a aceleração da importação de equipamentos e insumos necessários à saúde pública. Peço ao ministro da Saúde, aí a seu lado, que compreenda que São Paulo é o epicentro da crise. Não confiscar respiradores. Se essa decisão for mantida, informo que tomaremos as medidas necessárias no plano judicial”, disse.