Contágio

Bolsonaro diz que conversou com Queiroga para desobrigar uso de máscaras contra Covid-19; ministro diz que fará estudo

Medida defendida pelo presidente e contestada por especialistas valeria para quem tomou vacina contra a Covid-19 ou já contraiu a doença

Jair Bolsonaro (Foto: Isac Nóbrega/PR)

SÃO PAULO – O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou, nesta quinta-feira (10), ter solicitado ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a elaboração de um parecer para desobrigar o uso de máscaras por quem foi vacinado contra a Covid-19 ou já contraiu a doença.

A medida contraria orientação de autoridades sanitárias, que dizem que é necessária maior escala de vacinação e controle da pandemia antes de uma flexibilização como esta, e alertam para o risco de uma terceira onda no país em um momento de elevada pressão sobre o sistema de saúde.

“Acabei de conversar com um tal de Queiroga – não sei se vocês sabem quem é –, nosso ministro da Saúde. Ele vai ultimar um parecer visando a desobrigar o uso de máscara por parte daqueles que estejam vacinados ou que já foram contaminados. Para tirar esse símbolo, que obviamente tem a sua utilidade para quem está infectado”, declarou segurando uma máscara descartável na mão.

A fala de Bolsonaro ocorreu durante evento sobre turismo no Palácio do Planalto, em Brasília, e foi aplaudida pelos presentes. Ao contrário do que alega o presidente, uma pessoa pode ser infectada mais de uma vez pelo coronavírus. Mesmo vacinado, também é possível ser contaminado e transmitir a doença.

O uso de máscaras foi adotado por diversos países, diante de evidências crescentes de sua eficácia quando utilizada de forma abrangente pela população. Um estudo preliminar publicado em junho de 2020 mostrou que países que não recomendaram a medida tiveram aumento semanal médio de 55% no número de mortes per capita a partir do primeiro caso, comparado a uma alta de 7% nos locais em que a máscara é adotada, seja por meio de imposição dos governos ou por incorporação pela cultura local.

Vale lembrar que a máscara serve como uma barreira às partículas que são despejadas por pessoas contaminadas ao falar, tossir ou espirrar e que ficam suspensas no ar por algum tempo, especialmente em ambiente fechados e sem ventilação. Também evita que as pessoas toquem a boca e o nariz com mãos que podem estar contaminadas.

O ministro Marcelo Queiroga, que participava de outra reunião, disse ter recebido do presidente um pedido de “estudo” sobre o uso das máscaras, que, segundo ele, será feito mas não foi informada possível data de conclusão.

“O presidente está muito satisfeito com o ritmo da campanha de vacinação do Brasil, da chegada de novas doses, da distribuição de mais de 100 milhões de doses de vacinas. O presidente acompanha o cenário internacional, vê que em outros países onde a campanha de vacinação já avançou, as pessoas já estão flexibilizando o uso das máscaras”, afirmou em vídeo publicado nas redes sociais do ministério.

“O presidente me pediu que fizesse um estudo para avaliar a situação aqui no Brasil. Vamos atender a essa demanda do presidente Bolsonaro, que está sempre preocupado em pesquisas em relação à Covid”, complementou.

O Brasil alcançou hoje a marca de 482.135 mortes provocadas pelo novo coronavírus, sendo 2.344 registradas somente nas últimas 24 horas. Em casos confirmados, desde o começo da pandemia, 17.215.159 brasileiros foram infectados pelo vírus Sars-CoV-2, com 89.802 desses confirmados no último dia.

Especialistas têm alertado para os números elevados e os riscos de uma nova onda da pandemia no país. Eles alertam que o ritmo de vacinação ainda é baixo em comparação com outros países e que o momento não é adequado para relaxamento das medidas para conter a disseminação da Covid-19.

De acordo com dados do consórcio de veículos de imprensa, apenas 23.520.981 brasileiros tomaram as duas doses de vacinas contra a doença até agora – ou seja, cerca de 11,11% da população. Já a primeira dose de imunizante foi aplicada em 52.790.945 pessoas, o que equivale a 24,93% da população.

Depois de participar do evento no Palácio do Planalto, Bolsonaro voltou a tratar do assunto em uma transmissão ao vivo pelas redes sociais. Na live, o presidente negou ter imposto algo ao ministro, mas que solicitou um estudo sobre as pessoas poderem transitar sem máscara.

“Eu falei com o Queiroga agora. Não impus nada a ele. Se bem que também tenho que dar minhas piruadas aí, no bom sentido. ‘É possível a Saúde apresentar um estudo aí da desobrigatoriedade da máscara para quem já foi vacinado ou para quem já foi contaminado e curado, poxa?’. Ele falou: ‘É possível, é possível’. Vamos fazer isso. Vamos ficar reféns de máscara até quando? Está servindo para multar gente, pessoal. Está servindo para multar. Eu fui ameaçado agora de multa em São Paulo”, declarou.

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Bolsonaro tornou-se conhecido por posições contrárias às recomendações de autoridades sanitárias durante a pandemia de Covid-19. Em mais de um ano de crise, o presidente participou e estimulou aglomerações, recusou-se a usar máscaras, recomendou o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença e disseminou informações falsas sobre vacinas.

O mandatário já usou uma enquete alemã para criticar o uso de máscaras e chegou a questionar a eficácia da medida de proteção, a despeito de estudos indicarem o contrário e esta ser uma das principais medidas adotadas mundo afora no controle da disseminação do vírus.

Na cerimônia desta tarde, Bolsonaro repetiu críticas ao isolamento social – outra ação considerada fundamental para evitar o aumento do contágio pela doença. “O nosso protocolo para quem está infectado, este, sim, fica em casa. Não aquele fica em casa todo mundo. A quarentena é para quem está infectado, não é para todo mundo, porque isso destrói empregos, mata de outra forma o cidadão”, disse.

Bolsonaro também voltou a defender a tese da supernotificação de casos de Covid-19 pelos estados em uma suposta estratégia para obter mais recursos da União – embora estudos apontem para uma possível subnotificação no país.

No início da semana, o presidente citou um dados não oficiais passados por um servidor do Tribunal de Contas da União (TCU), posteriormente desmentidos pelo próprio órgão, para sustentar tal tese. Diante da confirmação de se tratar de documento falso, ele passou a citar “vídeos no WhatsApp” como evidências da suposta irregularidade.

Também durante a cerimônia no Planalto, Bolsonaro voltou a defender o tratamento precoce contra a Covid-19 por meio de medicamentos como hidroxicloroquina e ivermectina. “Por que isso aconteceu? Tratamento precoce.”

Os medicamentos são divulgados como potencialmente benéficos no combate à infecção pelo novo coronavírus pelo presidente, mas estudos científicos apontam no sentido contrário. A Agência Nacional de Vigilância sanitária já verificou efeitos adversos na população brasileira, e desde o último ano proíbe a venda sem receita de hidroxicloquina e ivermectina, para impedir a compra indiscriminada.

O vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Donizette Giamberardino Filho, afirmou em abril que “o Conselho Federal de Medicina não recomenda e não aprova tratamento precoce e não aprova também nenhum tratamento do tipo protocolos populacionais [contra a Covid-19]”.

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