Crise

Em despedida, Mandetta alerta para pico de coronavírus e diz que sistema não está preparado para “marcha acelerada”

Em pronunciamento, o agora ex-ministro defendeu a necessidade do isolamento social e alertou para a evolução da doença nas próximas semanas

Luiz Henrique Mandetta
Luiz Henrique Mandetta em entrevista a jornalistas (Isac Nóbrega/PR)
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SÃO PAULO – Após sucessivos embates públicos, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) comunicou, nesta quinta-feira (16), a demissão de Luiz Henrique Mandetta do comando do Ministério da Saúde. O movimento era aguardado desde a semana passada e foi confirmado em uma reunião convocada às pressas pelo presidente nesta tarde.

Para comandar a pasta, o presidente escolheu o oncologista e empresário Nelson Teich, com quem se reuniu mais cedo. Formado pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e especializado em oncologia no Inca (Instituto Nacional do Câncer), ele é sócio de uma consultoria de serviços médicos. Nas eleições de 2018, chegou a atuar como consultor informal da campanha de Bolsonaro. Nesta crise do coronavírus, defende o “isolamento horizontal” como medida eficaz no enfrentamento da doença – em contraste com a opinião do presidente.

Pelo Twitter, Mandetta confirmou a saída, agradeceu a oportunidade de comandar a pasta e planejar o enfrentamento à pandemia do novo coronavírus. O agora ex-ministro também à sua equipe e desejou boa sorte ao novo comandante da pasta.

Logo após a reunião, Mandetta fez um pronunciamento a servidores da pasta e à imprensa, na qual agradeceu a equipe, pediu esforços na condução da transição ao sucessor. O ex-ministro também chamou atenção para os desafios que ainda estão por vir no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus, falou da relação com Bolsonaro e fez prognósticos para o futuro.

Mandetta voltou a defender a necessidade do isolamento social e alertou para a evolução da doença nas próximas semanas. Segundo ele, o país não está livre de um pico e o sistema de saúde não está preparado para “uma marcha acelerada”. Veja os principais pontos:

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1. Mensagem aos servidores
“Não tenham medo. Não façam um milímetro diferente do que sabem fazer. Eu deixo este Ministério da Saúde com muita gratidão ao presidente por ter me nominado e ter permitido que eu nomeasse cada um de vocês. Eu deixo este ministério, mas sei o que deixo. Sei que deixo aqui a melhor equipe. Trabalhem para o próximo ministro tal qual trabalharam por mim. Ajudem, não meçam esforço. Desdobrem seus esforços para que eles tenham o melhor espaço possível para trabalhar. Alertem, conversem, dialoguem”.

“Nada tem significado que não seja uma defesa intransigente da vida, uma defesa intransigente do SUS e uma defesa intransigente da ciência. Fiquem nos três pilares, que desses pilares vocês conquistarão tudo. Porque eles alimentam a verdade. A ciência é a luz, é através dela que vamos sair”.

2. Novo ministro
“Às vezes, isso é uma grande oportunidade. Uma equipe que vem e que pensa diferente, e uma visão diferente que pode mudar o pensamento de cada um de vocês”.

“Tenham a mais absoluta certeza que a gente fez e lutou um bom combate até aqui. Só que estamos só no meio, só no começo da batalha. E se eu deixo um pouco esse cenário e vocês que têm que ficar por força do ofício, sabem que ministros passam e o que fica é o trabalho do servidor do Ministério da Saúde. Vocês agora são responsáveis de fazer essa transição, que ela seja suave profícua, que tenhamos um bom resultado ao término disso tudo”.

3. Saúde universal
“Temos muito para dizer para o mundo sobre essa experiência magnífica de um país em desenvolvimento ter tido coragem de escrever na constituição que saúde é um direito de todos e que é um dever do Estado brasileiro. O mundo deveria copiar essa frase e pôr nas suas constituições para ver se a gente ganha um pouco de dignidade nesse século XXI, que começa agora”.

4. Futuro
“Muitas verdades que eram absolutas virarão pó. Muitas certezas serão questionadas. Muitos mercados florescerão e outros desaparecerão. O modo de viver será diferente. O relacionamento social humano será diferente. As videoconferências, o distanciamento será a tônica. Nós vamos ter que repensar muita coisa em termos do que queremos desta vida, qual estilo de vida vamos levar e como vamos tocar essa experiência que nos é dada por um período breve, de 80, 100 anos, mas que se traduz na permanência nossa e das nossas próximas gerações. Vamos procurar pensar bem mais nas próximas gerações”.

“A gente vê que não pode deixar ninguém para trás mesmo. A vida hoje de uma pessoal na Cracolândia tem o mesmo significado quando ela competir pelo leito de CTI do homem mais rico deste país”.

5. Combate ao coronavírus
“Não pensem que estamos livres de um pico desta doença. O sistema de saúde ainda não está preparado para uma marcha acelerada. Sigam as orientações das pessoas mais próximas que estão em contato com o sistema de saúde, que são os prefeitos, governadores e o próprio Ministério da Saúde. O momento ainda é de todos darmos as mãos e vamos juntos, porque vai ser bem dura a tomada de decisão que vamos ter que fazer nos próximos meses”.

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6. Presidente
“Agradeço muito o presidente. A conversa que tive com ele hoje foi extremamente amistosa, agradável, embora o que eu posso entregar agora a condução do ministério, é melhor que ele organize uma equipe que possa construir um outro olhar e que isso possa ser feito também na ciência. Sei da dificuldade, do peso da responsabilidade dele, do peso que é decidir em que momento a economia deve retomar sua normalidade, o impacto disso no emprego de milhões de pessoas. O presidente é extremamente humanista, ele pensa também nesse momento todo pós-corona”.

Desencontros com o presidente

As últimas semanas foram de tensão entre o presidente e o agora ex-ministro, em meio às discordâncias sobre as medidas para combater o novo coronavírus. De acordo com o mais recente boletim do ministério, divulgado hoje, o Brasil chegou a 1.736 mortes provocadas pela doença e ao menos 28.320 casos confirmados.

No centro das divergências entre os dois estavam medidas de isolamento social implementadas por governadores e prefeitos – endossadas por Mandetta – e o uso do medicamento hidroxicloroquina no tratamento da doença – defendido enfaticamente por Bolsonaro.

Durante a crise, o presidente chegou a se referir à doença como “gripezinha” ou “resfriadinho” e adotou postura crítica a políticas mais duras de enfrentamento à pandemia, contrariando recomendações de autoridades sanitárias nacionais e internacionais.

Bolsonaro é defensor da reabertura das atividades, sob alegação de severos impactos econômicos causados pela quarentena. O presidente sugere o chamado “isolamento vertical”, que consiste em restrições apenas para grupos considerados de risco, como idosos e portadores de doenças crônicas.

As posições do mandatário contrastam com o que defende a maior parte da população, como indicam pesquisas recentes, por isso custaram apoio da sociedade ao governo e motivaram uma onda de panelaços em diversas cidades do país.

A perda de popularidade do presidente e a contrastante conquista de forte apoio popular pelo ministro – e por governadores, que se tornaram os principais adversários políticos de Bolsonaro na crise – foi mais um ponto a colocar os dois em rota de colisão.

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No início do mês, Bolsonaro já havia exposto sua insatisfação com o então ministro. Em entrevista à rádio Jovem Pan, disse que “faltava humildade” a Mandetta.

Dias depois, em conversa com apoiadores em frente ao Palácio do Alvorada, afirmou que “algumas pessoas” do seu governo “de repente viraram estrelas e falam pelos cotovelos” e que não teria medo de usar a caneta contra eles. Foi o que quase aconteceu nove dias atrás, mas o movimento acabou debelado pela ala militar do governo.

O clima de trégua durou até o último fim de semana. No sábado (11), Mandetta participou de uma visita com Bolsonaro ao primeiro hospital de campanha do governo federal, em construção no município de Águas Lindas (GO). A visita também contou com a participação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), que havia anunciado rompimento com o presidente. Depois do encontro, Bolsonaro deixou o local e andou para conversar e cumprimentar apoiadores que se aglomeraram para vê-lo.

Na ocasião, o ministro limitou-se a dizer que não julga ninguém e que a recomendação pelo distanciamento social “vale para todos os brasileiros”. No dia seguinte, porém, em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, pediu um discurso unificado do governo e disse que o brasileiro não sabe se escuta ele ou o presidente.

O tom incomodou ministros da ala militar do governo, que viram no gesto um novo confronto com o mandatário e um desprezo aos esforços por acalmar os ânimos. O desembarque deste grupo foi decisivo para a confirmação da demissão de Mandetta.

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