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Mercados agitados

Bolsa volátil, pesquisas, candidatos pró-mercado: parece o Brasil de 2014, mas não é…

Se o cenário brasileiro foi bastante movimentado em 2014 em decorrência das eleições, desta vez a Argentina deve ter o mesmo movimento neste ano, destaca BofA

SÃO PAULO – Se em 2014 foi a Bolsa brasileira que teve altos e baixos na maré das pesquisas eleitorais, em 2015 os argentinos que deverão sofrer com a volatilidade decorrente das eleições presidenciais, conforme destaca relatório de estratégia do Bank of America Merrill Lynch.

Conforme destaca a equipe de análise do banco americano, o candidato de oposição ao governo kirchnerista, Mauricio Macri, está em uma tendência de alta nas últimas pesquisas.

O principal índice de ações da Bolsa de Valores da Argentina, o Merval, tem alta acumulada no ano de 25% (22% em dólar) e a volatilidade pode continuar nos próximos meses como parte de uma eleição apertada, variação de preços das commodities (especialmente soja e petróleo bruto)e fluxo de notícias sobre as negociações com os credores do país.

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Os analistas destacam que do ponto de vista do mercado acionário, um risco-país mais baixo pode levar a um potencial de valorização mais alto mesmo depois do recente rali e o aumento do volume negociado sugere que os investidores estão se posicionando para uma mudança política favorável no pós eleições.

Após reunião na última semana com empresas, consultores políticos e econômicos, o BofA destaca que, apesar de estarem pessimistas com o cenário macroeconômico, embora tenha algum otimismo para possíveis mudanças nas eleições de outubro.

“A visão geral é de que todos os candidatos adotariam uma abordagem econômica mais favorável ao mercado do que a atual, com menor intervenção do governo”, ressalta a equipe do BofA.

Pelo lado mais cauteloso, a necessidade de ajustes macroeconômicos poderia ter consequências negativas para os ganhos no curto prazo, e há poucas ações com elevada liquidez no país . Além disso, os três maiores setores (financeiro, energia, e utilities) são altamente influenciados por decisões políticas do governo.

Breve histórico
A Argentina é a terceira maior economia da América Latina e uma das maiores produtoras agrícolas do mundo e que tem 42 milhões de habitantes.

Nos últimos dez anos, o país enfrentou uma combinação expressiva de seus preços de exportação e políticas fiscal e monetária expansionistas, mas insustentáveis. Para gerir os desequilíbrios externo e orçamental trazidos por essas políticas, o governo impôs controle de capital, enquanto a inflação se acelera fortemente, chegando a 40% segundo fontes ouvidas pelo BofA.

Conforme destaca a equipe de análise do banco, as eleições são o principal evento do país neste ano, com o primeiro turno ocorrendo em 25 de outubro e o segundo turno (se necessário) ocorrerá no dia 24 de novembro, o que pode levar a diferentes consequências para a economia e para os mercados. E cerca de dois terços da população está pedindo mudança, de acordo com as pesquisas recentes.

A presidente Cristina Kirchner não pode se candidatar a um terceiro mandato e ainda não definiu o seu candidato a sucessor pelo seu partido. O passos dos ajustes e das prioridades pós-eleitorais pode mudar dependendo do vencedor.

Desafios
“Independentemente do vencedor, acreditamos que será importante resolver os problemas que afetam a economia argentina”, afirma a equipe. E eles não são triviais.

Pelo lado fiscal, a nova administração deve lidar com uma lacuna fiscal difícil com recursos limitados, com as despesas primárias tendo forte alta (40% frente o ano anterior) e as receitas fiscais subindo abaixo da inflação (35% ante ano anterior).

“Achamos que uma das principais razões possíveis é que o governo optou por subsidiar diretamente os serviços públicos, ao invés de optar por aumentar as tarifas em linha com o aumento dos custos e compensa a desvalorização do peso argentino ao longo de mais de uma década”, afirma a equipe. E, dado a necessidade de reduzir os gastos do governo com subsídios, a expectativa é de que as tarifas tenham que ser ajustadas nos próximos anos.

Outro desafio é superar o baixo crescimento e a pressão sobre o câmbio, ressalta a equipe, destacando que, para reduzir a pressão sobre as reservas do Banco Central, o governo optou por restringir as importações. “O custo dessas medidas é terrível em termos de atividade”. O BofA destaca ainda que as autoridades continuam a adiar o ajuste necessário do câmbio e que, atualmente, a diferença entre a taxa de câmbio oficial e do mercado negro é cerca de 50%.

Além disso, a Argentina tem que buscar acordo com os holdouts, os detentores de bônus que não participaram da reestruturação da dívida em 2005/2010. A falta de acordo, ressalta o relatório, dizendo que esse impasse tem impacto significativamente negativo na economia.

Outro ponto são os controles de capital. “Em nossa opinião, o governo terá de reduzir controles de capital ao longo do tempo, uma vez que este deve ser um pré-requisito para recuperar a confiança das empresas e atrair investimentos. “As restrições ao pagamento de dividendos têm sido um grande impedimento para novos investimentos na Argentina”.

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E o mercado de ações?
O índice Merval tem alta de 25% no acumulado do ano, sendo 22% em termos dolarizados e o cenário de volatilidade pode seguir nos próximos meses em decorrência de uma apertada corrida eleitoral, além da variação dos preços das commodities e das notícias sobre as negociações com credores.

E, se o risco-país ficar mais baixo, poderia fornecer um upside adicional em relação aos níveis atuais, mesmo após um rali recente. Os estrategistas do banco destacam ainda que, apesar do índice Merval, benchmark da Bolsa de Valores da Argentina estar sendo negociada a 11 vezes o preço em relação ao lucro, em linha com o Ibovespa, está sendo negociada com desconto em relação a outros países emergentes.

“Este desconto é atualmente justificável, a nosso ver, dado um sistema financeiro mais vulnerável. No entanto, o potencial para uma mudança em sentido de políticasmais pró-mercado poderia definir o cenário para um período de menor risco-país os ganhos mais fortes, embora seja esperada uma maior volatilidade no curto prazo.

Se a probabilidade de tal mudança crescer e os candidatos da oposição ganharem impulso, seria de esperar que os mercados de ações reflitam essa melhoria. E o aumento do volume negociado sugere que os investidores já estão assumindo alguma probabilidade de um ambiente político mais favorável pós-eleitoral.

“Com base nas nossas discussões na Argentina, as condições macroeconômicas menos favoráveis sobre a próxima legislatura poderia levar a uma maior probabilidade de uma vitória da oposição. Por outro lado, o mercado argentino tem poucos setores com um elevado nível de liquidez, e os três maiores setores (financeiros, energia e utilities) estão sujeitas a uma intervenção significativa do governo”, afirmou a equipe.

No que se atentar
O processo eleitoral está em curso e, entre agora e outubro há muitas datas importantes no calendário eleitoral, sendo as duas datas mais importantes dos quais são de 10 de junho e 09 de agosto.

As alianças para as eleições nacionais têm de ser registradas até 10 de junho. Os governos provinciais podem escolher as suas datas para as eleições locais. As províncias que terá datas separadas para incluem a cidade de Buenos Aires, Chaco, Mendoza e Salta. Em 28 de fevereiro duas cidades na província de Mendoza iniciara, este ciclo eleitoral.

“Estas eleições locais são importantes por várias razões. Em primeiro lugar, 13 assentos para governador estão em jogo, das 24 unidades da federação. Estes incluem a maioria dos distritos importantes, incluindo a cidade e província de Buenos Aires, Cordoba, Santa Fe, Mendoza e San Miguel de Tucumán. Em segundo lugar, eles terão testes para alianças que diferentes partidos da oposição estão implementando. Terceiro, eles vão ser um teste da força eleitoral dos Kirchneristas”.

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Oposição na Argentina
Para a oposição, o evento mais importante é a convenção do Partido Radical em 14 de março. E, apesar do nome, o partido é considerado centrista. O BofA ressalta que, enquanto o partido perdeu um apoio significativo depois da hiperinflação e depois forçado a sair do poder em 2001, mas ainda há uma presença nacional importante.

O partido Radical decidiu unir forças com PRO de Mauricio Macri e com Elisa Carrio, da Coalición Civica para as eleições presidenciais de outubro, em linha com as expectativas.

Os radicais elegeram Ernesto Sanz como seu representante para competir com Macri e Carrio nas primárias obrigatórias de 09 de agosto. Sanz é um centrista e seria de esperar que ele adote políticas amigáveis ??ao mercado se for eleito presidente.

Para o BofA, esta foi uma etapa importante, pois reduz a fragmentação, deve dar o candidato da oposição um amplo apoio no país e pode impulsionar ainda mais a posição de Macri nas sondagens, uma vez que ele foi capaz de mediar um acordo difícil com os radicais.

A candidatura de Macri vem ganhando força nas últimas semanas, impulsionado ainda pela morte do promotor Alberto Nisman e os efeitos sobre a política argentina. A vitória de Macri seria positiva para a Bolsa, aponta o banco, uma vez que ele é visto como mais pró-mercado.

“Além disso, lembramos que a história da Argentina é de ruptura política, não de continuidade […]. Mantemos nossa visão de que a Argentina provavelmente vai se mover em direção a políticas mais centristas após a eleição presidencial, como parte de uma tendência regional para centrismo (centrista por necessidade). No entanto, há muitas peças que podem mudar neste processo eleitoral. Por um lado, Kirchner continua a ser um operador político importante e ainda segue desconhecido como ela vai posicionar-se nas próximas eleições”.