BofA: conversa com investidores mostra ceticismo com inflação e aposta de Selic menor

Analistas do banco veem ainda surpresa positiva com desempenho de Dilma Rousseff, embora corte no orçamento gere ainda dúvidas

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SÃO PAULO – Em busca de sinais que mostrem algum impacto na economia brasileira provocado pelos recentes apertos monetários e pelas medidas macroprudenciais anunciadas pelo governo, o Bank of America Merrill Lynch acredita que os investidores permanecerão em postura de “esperar para ver” nesta semana, aguardando referências que comprovem o efeito dessas medidas no País.

Virgilio Castro Cunha e David Beker, que assinam o relatório do banco norte-americano, também destacam que os investidores permanecem céticos em relação ao cenário atual da economia brasileira. “Percebemos uma queda de confiança anormal nas expectativas de inflação, bem como na intensidade e duração da acomodação da atividade doméstica em curso”, escreve a dupla, após conversa com investidores locais ao longo da última semana.

Segundo os dois analistas, uma maioria esmagadora dos investidores locais acredita que o Banco Central adotará novas medidas macroprudenciais ao invés de voltar a elevar o juro básico, mesmo que o cenário inflacionário ou as projeções para os preços no País continuem se deteriorando. Cunha e Beker dizem ainda que muitos de clientes não esperam que o Copom (Comitê de Política Monetária) eleve a Selic na próxima reunião em abril, enquanto outros projetam uma elevação de 25 pontos-base nesse encontro.

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A dupla, no entanto, enxerga uma baixa probabilidade disso se tornar realidade, e afirma que trabalha com uma alta de 50 pontos-base na Selic. “Embora nossa visão sobre a inflação permaneça mais benigna que a do consenso do mercado, concordamos que a posição atual do banco aumenta desnecessariamente a probabilidade de maior duração das expectativas de inflação nos patamares atuais”, afirmam os analistas.

Projeção para o PIB: pessimismo que virou consenso
Sobre a atividade econômica brasileira, Cunha e Beker chamam atenção para as recentes revisões para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 2011, mostrando que a projeção de 4,1% feita por eles, que até alguns meses atrás era a mais bearish (pessimista) do mercado, é agora o consenso.

A percepção da dupla do BofA é de que o governo tem visto esse arrefecimento com bons olhos, visto que ele acaba ajudando a conter o ímpeto da inflação. No entanto, isso deixa claro que a apreciação do real não será usada para conter esse processo.

Ainda sobre a taxa de câmbio, eles argumentarm que os recentes terremotos no Japão não devem provocar uma fuga das aplicações dos investidores japoneses no Brasil – o que poderia apreciar ainda mais a moeda brasileira -, tendo em vista que os recentes aumentos do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), anunciados para frear a entrada de investimentos estrangeiros no País, acabam inibindo esses aplicadores de desfazerem suas posições no Brasil.

Surpresa positiva com Dilma, ceticismo com corte de orçamento
Passando para o campo político, Cunha e Beker não deixam de destacar a surpresa positiva que os investidores ouvidos pelo BofA ML tiveram com a performance política inicial da nova presidente da República, Dilma Rousseff, destacando a facilidade com que o governo conseguiu aprovar o projeto de lei para o salário mínimo, bem como o processo de formação do novo gabinete, avaliado como “mais suave do que o esperado”.

No entanto, ao falar sobre o corte de R$ 50 bilhões no orçamento do governo, o banco de investimentos adota uma postura mais cética, principalmente no que se refere à habilidade do governo de salvar R$ 2 bilhões por meio de identificação de fraudes no sistema de segurança social e também na redução de R$ 3,5 bilhões na folha de pagamento do governo. Eles também consideram exagerada a ideia de reduzir em R$ 40 bilhões os recursos para a segunda rodada do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

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