Visão de analistas

Bela vitória? Votação da meta não é nem “amostra” do que Temer ainda terá que enfrentar

Grande teste de Temer no Legislativo deve vir com votações para mudança na previdência e teto para gastos

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SÃO PAULO – “Bela vitória”. Esta foi a definição utilizada pelo presidente interino Michel Temer para classificar a mudança na meta fiscal aprovada nesta quarta-feira (25) de madrugada no Congresso Nacional, autorizando o governo a realizar um déficit de R$ 170,5 bilhões. Com isso, o Brasil deverá completar três anos consecutivos sem conseguir fazer economia para pagar os juros da sua dívida. 

Porém, de acordo com analistas políticos ouvidos pela Bloomberg, a votação que se estendeu pela madrugada não é nem uma amostra dos desafios que Temer enfrentará no Legislativo. 

Rafael Cortez, analista político da Tendências Consultoria Integrada, destacou que “não havia oposição ao conteúdo, seja no Congresso, seja nos grupos sociais” e que Temer não deve ter esse mesmo apoio às medidas de conteúdo mais complexo, como Previdência ou teto de gastos. Para ele, o maior mérito da votação de ontem foi Congresso permanecer em sessão assegurando quórum, mesmo com extensa votação de vetos, que foi estendida por quase 17 horas. 

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Para o analista da MCM Consultores, Ricardo Ribeiro, a votação da meta mostra que há articulação forte por parte do governo no Congresso, ainda que não seja um tema controverso. “A mensagem é mais a favor da capacidade de articulação do governo. A mudança da meta não era muito controversa. Fora o PT, todo o resto das forças políticas não queria que governo ficasse bloqueado em suas ações. Não é um teste significativo de apoio a Temer. As questões mais polêmicas virão pela frente, como a da Previdência e teto para os gastos. Mas essas são votações demoradas. Previdência só deve ser votada em 2017. Teto nominal para gastos, que só aumentariam pela inflação do ano anterior, só deve ser votado no final 2016 e início de 2017”, reitera o analista. 

Votação simbólica e dinâmica do governo
Uma questão que também entrou no radar foi sobre a votação simbólica. Segundo o cientista político e professor do Insper Carlos Melo, a v
otação simbólica para a aprovação da meta fiscal no Congresso não permite saber qual a real força do governo e com quantos votos pode contar. “Não é, com efeito, comum. O motivo de Renan Calheiros ter encaminhado desse modo, ‘somente ele poderá nos dizer'”, afirma Melo.

Já o analista da Tendências destaca que o “voto simbólico foi uma contribuição da presidência do Senado para que votação fosse mais rápida”.  

Além disso, ressalta Cortez, há mais desafios no radar para o governo Temer: para ele, as medidas anunciadas por Temer e Henrique Meirelles, episódio Romero Jucá e recuo estratégico do governo no caso do ministério da Cultura ‘exemplificam a dinâmica que se deve esperar do governo interino’. “O governo tem diagnóstico positivo em termos de condução da política econômica e isso deve contribuir para melhora da confiança; porém tem limitação no campo político”, destaca. 

Sobre o “episódio Jucá”, o governo Temer mostra que estoque de capital político desta administração é baixo; “Temer não tem popularidade elevada e uma parte da atual base política é objeto da Lava Jato”, avalia Cortez.

 (Com Bloomberg)

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