Guerra sem fim

Batalha pelo Brasil arde mesmo após eleição, avalia Mac Margolis

No dia 1º de novembro, cerca de 2.500 manifestantes marcharam na Avenida Paulista, uma importante avenida de São Paulo, pedindo o impeachment da recém-reeleita presidente Dilma Rousseff.

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SÃO PAULO –  Na semana passada me encontrei com um brasileiro conhecido meu que estava descontente com o estado da política nacional. Formado em um colégio militar, ele vinha recebendo e-mails de ex-companheiros de classe, muitos deles hoje oficiais da reserva do Exército, furiosos com a última eleição presidencial.

“Precisamos tirar esses petistas inúteis do poder”, eriçou-se um, usando a abreviação depreciativa para os membros do Partido dos Trabalhadores, ou PT, partido no poder.

Você poderia pensar que essas queixas exaltadas desde a eleição de 26 de outubro teriam diminuído agora. No entanto o confronto no Brasil arde. No dia 1º de novembro, cerca de 2.500 manifestantes marcharam na Avenida Paulista, uma importante avenida de São Paulo. Alguns dos cartazes alertavam para um iminente golpe radical, no estilo da chamada Revolução Bolivariana para o Socialismo do Século 21 da Venezuela. Outros clamavam pelo impeachment da recém-reeleita presidente Dilma Rousseff.

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“Golpistas!” e “fascistas!”, responderam os “dilmistas” nas redes sociais. No Congresso, o segundo colocado na eleição presidencial, Aécio Neves, foi saudado como um herói conquistador e fez um discurso de duas horas. Humberto Costa, senador do PT, defendeu a presidente – “essa mulher, uma guerreira, com um coração valente, ganhou a eleição!”, protestou -, mas foi abafado pelas vaias.

Talvez isso não seja tão surpreendente: essa foi a campanha presidencial mais acirrada do Brasil desde 1898. Mas a polarização e o antagonismo da campanha de 2014 deixaram os observadores do Brasil preocupados. Monitorando os debates partidários nas redes sociais às vésperas da eleição, o sociólogo Marco Aurélio Ruediger, da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, encontrou um país dividido em dois.

De um lado do gráfico bicolor da internet pairava uma nuvem vermelha representando os partidários de Dilma, que tuitavam principalmente sobre justiça e bem-estar social.

Do lado oposto havia uma nuvem azul, que ilustrava as postagens da oposição sobre corrupção, transparência e eficiência no governo. Entre as duas nuvens havia um buraco negro. “A sociedade está radicalizada e não estamos falando uns com os outros”, me disse Ruediger. “Nós vamos precisar de diálogo e não de quatro anos de inferno político”.

O inferno político é a política de sempre no Brasil, mas não do tipo forjado pela guerra ideológica. Afinal, o Brasil é uma cultura mutante onde a adaptação artística e a rendição estratégica – pense no samba e no futebol – evitam a colisão frontal. (Quantos países conquistaram a independência e derrubaram um monarca sem disparar nenhum tiro e depois projetaram um golpe militar por telefone, e não com tanques?).

O problema do Brasil não é o impasse ideológico: a linha de ação que pode resistir à mistura no Congresso, agora com 28 partidos, onde a lealdade muda ao sabor das oportunidades, é rara. O desafio real é colher progresso em meio à confusão. Dilma usou vários minutos de seu discurso da vitória para agradecer cada um dos 10 partidos aliados que apoiaram sua campanha. Ela precisará pilotar essa pesada geringonça política cada vez que um assunto importante estiver em jogo ou que uma ordem do Executivo precisar de aprovação do Congresso.

A urgência ajuda. Em meados dos anos 1990, enfrentando hiperinflação e uma crise no balanço de pagamentos, o presidente Fernando Henrique Cardoso forçou a turbulenta legislatura a aprovar 35 emendas a uma Constituição que havia sido redigida nove anos antes. O sucessor de FHC, Luiz Inácio Lula da Silva, conseguiu 14 e Dilma, até o momento, nove.

Que tipo de reforma um Brasil mais dividido organizará agora? A boa notícia é que a conflitocracia brasileira também impede que o governo se desvie para a franja mais radical. A Câmara dos Deputados tornou isso claro dois dias após a eleição derrubando um decreto do Executivo para criar conselhos populares que poderiam vetar iniciativas do Legislativo. É provável que o chamado de Dilma à convocação de uma assembleia constituinte para realizar uma reforma política não tenha melhor sorte.

Com a economia estagnada e a inflação elevada, recorrer a medidas populistas como isenções fiscais, subsídios e salários generosos para ter um crescimento ruim já não parece viável. Embora Dilma tenha sido reeleita demonizando o PSDB, chamando-o de fomentador da austeridade, suas primeiras medidas pós-eleição foram aumentar os preços do combustível e da eletricidade e a taxa básica de juros. “Fraude eleitoral!”, gritou a nuvem azul.

A realpolitik é o motivo mais provável. Economista por formação, Dilma sabe fazer muito mais do que simplesmente insistir em repelir todas as regras da economia de mercado. “Nós temos que fazer o nosso dever de casa”, disse ela a repórteres. Isso pode não animar os vermelhos, mas pode ajudar o Brasil a conseguir alguma coisa com sua desordem.