Barclays não vê crise à vista na América Latina, mas avanço abaixo do esperado

Analistas destacam necessidade de reformas que aumentem a produtividade e se mostra receoso com discursos populistas

SÃO PAULO – Embora alguns problemas relacionados com a inflação estejam presentes, a América Latina está em uma fase de ventos mais favoráveis, sobretudo em termos de comércio, como cita o Barclays. Porém, o banco aponta que a postura do eleitorado dos países da região se reflete nas políticas adotadas pelos governos – políticas essas que vão contra as reformas necessárias para essas economias. 

Alejandro Arreaza e Jimena Zuniga, analistas do Barclays, analisam o processo eleitoral em curso no Peru como um típico apelo populista, que ganha força quando a população está descontente com suas atuais condições de vida, o que parece ser o caso. 

Um triste cenário
Apesar da melhora econômica que muitos países da região vem observando ao longo dos últimos anos, a população não parece estar totalmente satisfeita. Um estudo feito pelo Latinobarometro, em 2010, revelou que apenas 21% dos entrevistados julgam a distribuição de renda como “justa” no continente. Os países que se mostraram mais satisfeitos foram Venezuela e Equador, liderados por políticos com um discurso “anti-mercado”, pontua o Barclays. 

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O resultado também mostrou um descontentamento com algumas políticas, como as privatizações. Segundo o banco, mesmo com a aprovação a esse tipo de política tendo aumentado nos últimos anos, ainda está bem abaixo dos níveis vistos nos anos 1990.  

No Peru, por exemplo, mesmo com um crescimento de 5,7% em média nos últimos dez anos e com redução da pobreza de 54,8% em 2000 para 34,8% em 2009, a percepção da população em relação às condições econômicas não é das melhores. Estudos revelam que 82% da população acredita que a economia está igual ou até mesmo pior do que há doze anos. Ainda mais preocupante é o fato de que metade dos peruanos não espera melhoras no futuro.

Necessidades
Para a dupla do Barclays, em um contexto como esse, é fácil de perceber porque candidatos com discursos populistas têm vantagens nas eleições: eles atendem as demandas dessa população.

No relatório, os analistas citam o discurso do candidato Ollanta Humala, que prega o suprimento das demandas sociais, maior presença do governo, necessidade de subsidiar o preço do combustível, nacionalização de “setores estratégicos” e o avanço para uma reforma constitucional que construa uma “democracia participativa”.

Implicações para a economia
O banco destaca que no âmbito comercial, a América Latina vai muito bem, porém alguns pontos precisam ser tratados para que a robustez econômica se consolide. Nesse ponto, segundo o Barclays, há um choque entre as necessidades econômicas e o desejo dos governantes populistas.

O Barclays ressalta que essa condição pode levar a duas possíveis políticas. Do ponto de vista conjuntural, esse cenário levaria à necessidade de políticas fiscais contracionistas, moderando as pressões de valorização e os riscos da chamada “doença holandesa” .

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Do ponto de vista estrutural, há uma demanda por políticas que aumentem a produtividade e facilitem a realocação de recursos entre setores. “Ambos os tipos de política são um desafio contra o cenário das opiniões dominantes, e se não forem implementados, pode não significar uma crise macroeconômica no futuro, mas o resultado poderia ser um desempenho econômico pior do que a expectativas de muitos”, conclui o Barclays.