Aumento na renda trará novo perfil de eleitor às eleições de outubro

Para especialistas, "novos eleitores" estão propensos a analisarem com mais preocupação questões como educação e saúde

SÃO PAULO – Os perfis dos eleitores brasileiros nas eleições de outubro serão completamente diferentes daqueles que estiveram presentes nos pleitos anteriores. Motivos: o aumento na renda e a saída da condição de pobreza.

De acordo com dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), 9,5 milhões de pessoas saíram da condição de indigência e 18,4 milhões da pobreza entre 2004 e 2008, o que, para muitos analistas, subentende-se como novas pretensões na hora da escolha do candidato.

“Essas pessoas que tiveram uma ascensão social estarão mais preocupadas em preservar algum patrimônio. Elas provavelmente mudaram o lugar de moradia, seus filhos agora estudam, e elas estarão preocupadas com essas coisas”, afirma o cientista político da Universidade de Brasília, David Fleischer.

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Os “novos eleitores” estão propensos a analisarem com mais preocupação questões referentes à educação e saúde, avalia Fleischer. Segundo informações da Agência Brasil, o cientista defende um maior conservadorismo por esses cidadãos na hora de estudarem as propostas dos candidatos.

“Esse ex-pobre tende a estar mais preocupado com questões como segurança pública e invasões de terra e menos preocupado com os outros que continuam pobres”, diz.

Política de classes
O economista e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da FGV (Fundação Getulio Vargas),Marcelo Nery, compactua das ideias de Fleischer e projeta mudanças no perfil dos eleitores, em função do movimento da “nova classe C”.

Esses cidadãos representam um grupo de proporção tão grande que eles já correspondem a aproximadamente metade da população e, juntos, poderiam escolher as eleições, se votassem em um único candidato.

“É uma classe poderosa, mas não é homogênea”, ressalva o economista. Nery concorda que esses eleitores devem “cobrar mais caro” por seus votos agora e tendem a ser menos vulneráveis à manipulação eleitoral. “Quando as pessoas saem da condição de miserabilidade, mudam o horizonte delas”, afirma.

Motivos
No entanto, o aumento da renda, que, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), passou de R$ 1.694 em 2001 para R$ 1.808em 2007, não é a única razão para a mudança de perfil. O economista sustenta que a forte demanda escolar tem provocado resultados positivos nesse cenário.

“O brasileiro fez o seu dever de casa e pôs o filho na escola. Se você olhar e ver que coisas mais estruturantes como a educação estão crescendo junto com a renda, isso permite vislumbrar no futuro um nível maior de consciência e, no presente, um número menor de oportunismo”, explicou.

Aliada a esse processo, está  a manutenção da democracia no País, algo que nenhum brasileiro havia visto. “Como democracia é uma coisa que se pratica, vamos começar a ver o resultado disso”, afirmou Nery.