Eis as questões

As perguntas que o mercado se faz após a 1ª grande crise e o 1º grande anúncio do governo Temer

"Efeito Jucá" pode se repetir? Como o mercado está vendo os pacotes de medidas de Meirelles e Temer? O mercado ainda mostra cautela quando o assunto é o governo Temer

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SÃO PAULO – O início esta semana já começou muito movimentado para o governo Michel Temer, que teve que enfrentar a sua primeira grande crise com a revelação das gravações entre Romero Jucá, um dos nomes fortes do governo, e do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, que sinalizou intenção dos dois nomes de barrarem a Lava Jato.

Jucá se defendeu, negou que tenha feito essa sinalização mas, na manhã da terça-feira, teve o seu nome no Diário Oficial da União como ministro exonerado. Além disso, ele está marcado como o protagonista da primeira grande crise que o governo Temer teve que enfrentar em menos de duas semanas do mandato. 

Porém, o noticiário não parou e, nesta manhã, o presidente interino e o ministro da Fazenda Henrique Meirelles fizeram uma série de anúncios, que envolve corte de gastos do governo para reverter a tendência de aumento vertiginoso do endividamento público. Assim, Temer apresentou três medidas do pacote fiscal para reduzir a dívida pública brasileira e também elencou dois projetos em tramitação no Congresso Nacional que disse considerar como prioritários e sinalizou que revisará subsídios e mudará as regras para a aposentadoria dos trabalhadores. Porém, para que essas medidas passem, é necessário apoio do Congresso, algo que o presidente em exercício tem se empenhado fortemente em conseguir. Porém, os mercados ainda esperam para ver qual será a efetiva base de apoio de Temer na Câmara e no Senado, principalmente após o escândalo envolvendo Jucá.

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Confira as perguntas que o mercado está se fazendo após os acontecimentos desta semana: 

A Operação Lava Jato ainda pode afetar substancialmente o governo Temer?
A avaliação é de que, mais cedo ou mais tarde, o governo de Michel Temer seria afetado pela Lava Jato. Na avaliação do analista político Juliano Griebeler, da Barral M. Jorge, ao nomear senadores e deputados que estão sob investigação da Operação Lava-Jato, Temer assumiu o risco político de que novas fases da investigação pudessem criar instabilidade em seu governo provisório. Porém, a avaliação de muitos é de que a Operação atingiu o núcleo da gestão antes do que o esperado, com Temer governando o País por apenas doze dias e em um momento ruim uma vez que o governo está à beira de testar a sua força no Congresso. No caso, da mudança da meta fiscal.

Porém, a Lava Jato não deve parar por aí no governo Temer. Em entrevista ao programa Bom Dia Rio Grande, da RBS TV, o ministro-chefe da Casa Civil Eliseu Padilha afirmou que Temer consultou o ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, sobre se ele desejaria deixar o cargo antes de um eventual “bombardeio” pelo fato de o peemedebista ser investigado na Lava Jato. Além disso, diversos jornais informaram que Sérgio Machado, que gravou Romero Jucá, também teria gravado outros “caciques” do PMDB, caso de Renan Calheiros e José Sarney, levando a novas fragilidades para o governo Temer. “A Lava Jato permanece muito viva e constitui um risco-chave para o novo governo”, avalia a Eurasia.  

Aliás, os áudios que comprometeram Romero Jucá voltaram a gerar ruídos sobre se o governo poderia estancar a Lava Jato, uma “demanda dos políticos e dos empreiteiros” que remontaram também ao governo afastado de Dilma Rousseff. Porém, para a consultoria, a propensão a investigar da força-tarefa da Lava Jato não deve diminuir com o afastamento da presidente Dilma Rousseff e pode seguir complicando a percepção que os brasileiros têm do governo de Temer. “Com um número de membros seniores do PMDB potencialmente implicados no escândalo, Temer enfrenta um risco real de que sua administração não seja percebida como uma solução para a crise política e econômica, mas uma continuação dela.”

A saída de Jucá afeta a pauta do governo Temer?
Esta questão ainda parece ser permeada por controvérsias. Para o analista político da Barral M. Jorge, a questão afeta sim as pautas de votações, ainda mais levando em conta que Romero Jucá era um dos principais articuladores do governo. Além disso, os partidos da nova oposição tentam utilizar o fato para dificultar a atuação do governo interino. Vale destacar que o senador Telmário Mota (PDT-RR) protocolou representação no Conselho de Ética pedindo a abertura de processo contra o agora senador Romero Jucá (PMDB-RR) por quebra de decoro. 

 Já para a consultoria de risco político Eurasia, o “caso Jucá” não deve reduzir a capacidade do presidente em exercício de avançar com a agenda de reformas no Congresso, apesar de mostrar o potencial de risco que a Operação Lava Jato representa para o novo governo. 

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Aumentaram as chances de Dilma voltar? 
Com a divulgação dos áudios de Jucá, a presidente afastada reforçou o discurso de que houve um golpe para retirá-la do poder. Ontem, em discurso, Dilma afirmou que as gravações são uma prova do “caráter golpista desse processo de impeachment”.  

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo de hoje, o PT vai usar a primeira crise do governo interino para tentar anular o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. A publicação aponta  ainda que os problemas no início da gestão Temer animaram o PT, apesar de até o ex-presidente Lula considerar difícil um retorno da presidente Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto. No atual momento, será reforçada a ofensiva para reverter votos de seis senadores que votaram pela admissibilidade do processo de impeachment, buscando bater na tecla de que o processo foi contaminado por desvio de finalidade.

Neste cenário, pelo menos no curto prazo, as chances da presidente afastada Dilma Rousseff voltar ao poder aumentam, pois o discurso dela ganha forças (inclusive, porque a conversa entre Jucá e Machado indica intenção de barrar a Lava Jato). Porém, avalia o analista da Barral M. Jorge, ainda é muito cedo para avaliar como será o cenário quando se der a votação do impeachment definitivo da presidente. 

Como o mercado enxerga essa crise?
Para operadores do mercado financeiro, a instabilidade política deve continuar a ser uma fonte de volatilidade. 
“O problema com o Jucá criou um mal-estar e o mercado usa isso como motivo para operar. Mas o fato é que não chega a ser algo novo. Todo mundo sabe que neste governo não tem santo”, disse Sidney Nehme, economista da NGO Corretora, que chamou a atenção também para a nova proposta de meta fiscal do governo para 2016, de déficit de R$ 170,5 bilhões. “Um País que tem R$ 170,5 bilhões de déficit fiscal pode ter o dólar insensível a isso? Este ano precisa ser mesmo de mais desvalorização cambial”, defendeu. “A saída para o Brasil está no dólar, está nas exportações.” Assim, o “efeito Jucá” teve efeito limitado na Bolsa – mas a “imponderável” Lava Jato e os seus próximos capítulos podem afetar o mercado. 

E as novas medidas?
O noticiário da manhã desta terça-feira também é observado com atenção pelo mercado. No geral, os anúncios de medidas 
para limitar gasto público são vistos como positivos, assim como plano de reformar a Previdência e intenção de ampliar a produtividade da economia, conforme destacou o economista sênior do Goldman Sachs, Alberto Ramos, em relatório. Assim, o governo mostra intenção de adotar medidas estruturais, em vez de apenas medidas transitórias, de curto prazo. “Também é inquestionável que a nova equipe econômica gerou um choque de confiança e credibilidade, mas isso não é o bastante para entregar um ajuste fiscal da magnitude necessária e estabilizar a economia”, diz o research. Porém, afirma, o ganho adicional de confiança pelos investidores depende de o governo mostrar “coragem” no ajuste econômico. “Isso inclui cortar gastos. Também pode incluir aumentar impostos. Isso não é popular, mas não fazer pode implicar custos ainda maiores”, diz Ramos. 

Já em entrevista à Bloomberg, a pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional em Washington DC e professora da Johns Hopkins University, Monica de Bolle, afirmou que as medidas iniciais para economia anunciadas por Temer “não têm nada de irrealistas, a não ser talvez a reforma da Previdência, que é algo politicamente muito complicado para emplacar em 2 anos por um governo interino”.

Assim, o mercado se animou com as falas de Temer e de Meirelles, mas o cenário que se desenha para a aprovação de todas as medidas dessa agenda considera “ambiciosa” é de que pode haver dificuldades no Congresso, ainda mais pela falta de consenso político para tanto. Com a Lava Jato a todo vapor, a instabilidade pode continuar para o governo Temer – e a aprovação de medidas do Congresso poderia ser a vítima mais imediata dessa turbulência. 

(Com Bloomberg e Agência Estado)