Análise

As estratégias por trás da “guerra” entre Alckmin e Meirelles pela candidatura de centro nas eleições

Governador e ministro disputam espaço na representação de agendas similares. O primeiro conta com a máquina do maior colégio eleitoral do país, enquanto o outro, sonha com ventos favoráveis advindos de uma retomada mais expressiva da economia

SÃO PAULO – Uma semana após dizer que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, não seria o candidato apoiado pelo governo nas próximas eleições presidenciais, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, deu outro recado ao tucano. Em entrevista ao programa Conexão Estadão, da Rádio Eldorado, na última segunda-feira (18), o comandante da equipe econômica da gestão Michel Temer ironizou a posição ambígua ensaiada pelo PSDB de desembarque do governo mas busca por apoio no próximo pleito. A despeito do elevado nível de rejeição, o ministro ainda dá sinais de que sonha em disputar a próxima corrida eleitoral, impulsionado por possíveis ventos mais favoráveis advindos da economia.

“É uma posição interessante, para dizer o mínimo, estar fora do governo por questões eleitorais, mas querer apoio na eleição. Para alguém ser apoiado pelo governo, precisa ser parte da estrutura de apoio a ele”, afirmou Meirelles durante o programa. A fala foi um claro recado ao governador Geraldo Alckmin, recém-consagrado presidente nacional do PSDB e que busca a consolidação de sua candidatura para a sucessão de Michel Temer, sonhando com o apoio do próprio peemedebista e seu partido. Como atenuante, o próprio ministro disse na sequência que o tucano poderia ser o candidato do centro no ano que vem. Mas o recado já estava novamente dado. Uma semana antes, Meirelles criticava a falta de apoio dos tucanos à reforma da Previdência. De lá para cá, o partido fechou questão, mas ainda não dá indicações claras de que conseguirá votar em peso a favor da matéria.

Segundo o deputado Sílvio Torres (PSDB-SP), considerado um dos mais próximos aliados de Alckmin, a bancada na casa teria cerca de 60% dos votos favoráveis à proposta de mudanças nas regras para as aposentadorias. Ele defende que, mais que uma questão simbólica, o fechamento de questão pode ajudar o partido a ampliar o apoio à PEC 287. “Não se trata de discutir a punição. A punição ou não vai acontecer se houver deputados que votem contra e o diretório se reúne e decide”, afirmou em entrevista concedida à InfoMoneyTV na última sexta-feira (15). “O fechamento de questão é uma decisão conjunta das bancadas da Câmara e do Senado e da Executiva. Então, evidentemente, tem um peso bem maior no convencimento e também para dar conforto na hora da votação para deputados que estejam em dúvida ou como se justificar perante o eleitorado”. Com as recentes movimentações, o PSDB conquista posição mais confortável no campo situacionista do que o próprio PSD, partido de Meirelles, que não fechou questão pela reforma da Previdência e apresenta uma divisão interna maior em relação ao tema.

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“O PSDB reiteradamente tem apoiado todas as propostas dessa agenda econômica do governo. Aliás, em muitas delas, proporcionalmente, foi o que mais deu votos”, argumentou o deputado federal paulista. “O PSDB, muito claramente, deixou dito que vai ter seu candidato e gostaria de estar muito à vontade de poder propor seu programa sem estar vinculado ao governo. Mas, no plenário, continuamos votando com a agenda que propusemos junto com esse governo. Isso não nos atrapalha”.

Para sua candidatura ter chances de decolar, Meirelles depende de uma retomada expressiva da economia, a ponto de reduzir seu elevado nível de rejeição. De acordo com o último barômetro político feito pelo instituto Ipsos, 70% dos brasileiros desaprovam a maneira como Meirelles vem atuando no país. É a pior marca registrada pelo ministro desde abril do ano passado. Apenas 7% dizem aprovar totalmente ou um pouco a atuação do ministro da Fazenda. Além disso, naturalmente o ministro disputaria espaço com Alckmin na disputa, em um momento em que analistas chamam atenção para os riscos ao governismo caso múltiplas candidaturas nesse espectro político sejam apresentadas.

[Henrique Meirelles] tem um desejo bastante latente de sair candidato à presidência, mas é um homem bastante racional e tem consciência de que seria uma aventura neste momento, em função do que as pesquisas detectam”, observou o cintista político Marcelo Issa, diretor da consultoria Pulso Público. Apesar da percepção de que sua candidatura pode ser uma aventura, o ministro continua dando sinais de interesse. “Talvez porque tenha bastante vontade e uma expectativa de que a economia alavanque uma candidatura dele. Mas vejo que, mesmo que a economia realmente cresça acima do esperado no ano que vem, o envolvimento ainda que indireto do ministro Meirelles nos negócios da empresa JBS, do Grupo J&F, dificulta muito o lançamento de uma candidatura. A população está muito sensível às questões envolvendo a operação Lava Jato, à exceção daquilo que tange ao ex-presidente Lula — é óbvio que houve um efeito, mas no caso dele a resistência a esse alcance parece ser maior”, disse.

Na avaliação do cientista político, a estrutura partidária também beneficia o tucano. O PSDB é um partido com maior capilaridade, mais recursos e uma experiência maior em disputas presidenciais. Além disso, ele lembra que, de 1994 para cá, PT e PSDB concentraram no primeiro turno mais de 75% dos votos, à exceção de 2002, quando a taxa ficou em 69%. Uma polarização dessa magnitude não tende a desaparecer de uma hora para outra. No caso da disputa entre Alckmin e Meirelles, ainda é importante salientar a maior unidade dos tucanos em torno do nome do governador do que do PSD em torno do ministro.

Aliado de Alckmin, o deputado Sílvio Torres chama atenção para o que ele entende como grande vantagem do governador na disputa para ocupar o espaço centrista: o trampolim paulista, maior colégio eleitoral do país. “O governador Alckmin candidato já sairia, se bem posta sua sucessão, com uma vantagem competitiva que quase ninguém tem nesse quadro. Por isso, é muito importante que a definição daqui passe por quem dê a ele mais estabilidade para poder garantir esses votos e sair pelo Brasil buscando mais votos”, disse em entrevista ao InfoMoney. Ele acredita que Alckmin será capaz de replicar as alianças construídas em São Paulo nacionalmente, o que lhe garantiria estrutura, capilaridade e tempo de televisão. Para Torres, há muitos riscos ao governismo associados à candidatura de Meirelles e por isso o ministro não deve se lançar.

“É muito difícil você se jogar em uma candidatura achando que vai empolgar a opinião pública imediatamente”, observou. “Há eleitores que votariam em um ou em outro. Não tenho dúvida que um vai acabar tirando votos de outro. Mas eu tenho imensa dificuldade em imaginar que Meirelles saia candidato a presidente da República. O próprio partido dele não vê isso com bons olhos. O próprio governo também não acha que o ministro da Fazenda envolvido em uma reforma tão importante possa, em março, largar tudo. Isso vai desmoronar o governo. É uma especulação difícil de acontecer”.

Contudo, também há riscos associados à candidatura do governador paulista. Representam desafios a Alckmin o crescimento nas pesquisas eleitorais e a construção de uma imagem que interesse o eleitorado, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste, onde há uma diferença expressiva em relação ao ex-presidente Lula. Há ainda um calcanhar de aquiles do governador: corre no Superior Tribunal de Justiça um pedido de instauração de inquérito contra ele. O tucano é acusado de receber recursos de caixa dois da empreiteira Odebrecht nas últimas duas eleições que disputou.

Do lado das pesquisas, Torres tenta amenizar o desempenho ainda fraco de Alckmin. “Particularmente, acho que as pesquisas de hoje são basicamente recall. Acho que elas não apresentam nenhuma tendência que garanta o cenário que vamos ter em setembro de 2018. Historicamente, a decisão do eleitorado acontece um mês antes da eleição. O horário eleitoral na TV e rádio vai começar em agosto. Até lá, grande parte da população vai continuar bastante indiferente, senão alienada. E o debate vai acontecer entre formadores de opinião, o debate das articulações regionais. Esse é o debate que interessa daqui pra frente. Está demonstrado que os números de agora são bastante frágeis. Até ontem não se sabia quando o julgamento do Lula iria ocorrer. E agora sabe-se que será em janeiro. Isso não tenho nenhuma dúvida que vai alterar o cenário eleitoral de 2018”, explicou. Ele espera que o petista não dispute e Alckmin consiga herdar alguns votos marginais. O cenário ainda é de muita especulação.