Análise

As 5 consequências políticas para a condenação de Lula no TRF-4

Por mais que ainda não esteja completamente descartada a possibilidade de Lula competir, cresce o ceticismo do mundo político e mercado acerca dessa possibilidade

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SÃO PAULO – A condenação unânime a 12 anos e 1 mês de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro diminuiu as possibilidades recursais da defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva junto à Justiça e tornou mais difícil sua candidatura ao Palácio do Planalto nas eleições de outubro.

Por mais que ainda não esteja completamente descartada a possibilidade de Lula, hoje líder isolado nas pesquisas, competir, cresce o ceticismo do mundo político e mercado acerca dessa possibilidade. Tal avaliação pode trazer consequências imediatas aos planos do líder petista e à própria eleição.

A primeira delas seria a maior resistência de partidos e possíveis candidatos a outros cargos firmarem aliança com Lula. Como a candidatura ainda é incerta, a despeito do prestígio do ex-presidente em determinadas regiões do País e em faixas importantes do eleitorado, é possível que figuras do centrão comecem a estudar alternativas para composição.

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“É muito mais difícil se ele não tem uma perspectiva real de chegar ao poder e se as forças políticas começarem a perceber isso”, afirmou o analista político Paulo Gama, da XP Investimentos. “Nesse caso, é mais difícil, evidentemente, para ele conseguir alianças… Ele vai ter um tempo de campanha, mas, sem saber se ele estará de fato na urna, é mais difícil que alguém queira se amarrar com ele desde o início”.

A segunda é dentro do próprio PT. Apesar dos esforços de Lula, da presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann (PR), da ex-presidente Dilma Rousseff, e outras figuras pedirem para que não seja discutido nenhuma alternativa à candidatura de seu líder, naturalmente as especulações sobre um “plano B” surgirão. Atualmente, aparecem com mais relevância os nomes do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e do ex-governador da Bahia Jaques Wagner. Além disso, existe a possibilidade de o partido realizar aproximação com candidaturas de outros partidos de esquerda, caso de Ciro Gomes (PDT), Manuela d’Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSOL). De qualquer forma, Lula ainda tenderá a ser usado como importante cabo-eleitoral para deputados, senadores e até candidatos a governos estaduais pelo partido.

A terceira variável a ser observada com cautela será a reação das pesquisas de intenção de voto a este novo episódio. Neste campo, há analistas que acreditam em uma queda de apoio ao petista, em função da impactante condenação criminal em decisão colegiada e a ampla cobertura que recebeu de todos os veículos de comunicação do país, em tempo real. Tal avaliação, contudo, está longe de ser consensual.

“Há uma série de dificuldades que ele vai enfrentar, fatalmente, mas continua bem posicionado nas pesquisas. Não se espera uma queda brusca a partir disso (condenação), acho que os eleitores de Lula não ignoravam que ele havia sido condenado e não vai ser mais uma, ainda que com essa perspectiva de inelegibilidade, que vai fazer com que esse eleitor olhe de maneira diferente para a situação”, observou Gama. O analista político lembra que o ex-presidente vem crescendo nas pesquisas desde o episódio da condução coercitiva, em 2016.

A quarta consequência natural esperada por analistas é uma radicalização no discurso do PT. A lógica do partido hoje é ir até as últimas consequências com a candidatura de Lula, o que naturalmente o conduziria à narrativa da perseguição política, da qual o julgamento de quarta-feira teria sido um dos episódios. Do ponto de vista pragmático da política, existe uma simbiose entre Lula e o PT na insistência da candidatura do ex-presidente: de um lado, o principal líder do partido ganha um flanco importante de defesa na própria política, seu ponto mais forte; do outro, o partido mantém aproveitamento de parte da popularidade de Lula. Isso será importante em eventual transferência de voto para um possível substituto na corrida presidencial. Além disso, o ex-presidente seria importante cabo eleitoral de candidatos a deputado federal e estadual, além de nomes que buscam assento no Senado ou governos estaduais. Apesar da maior radicalização no discurso, os movimentos ligados ao partido terão menos recursos para organizar grandes mobilizações.

Um possível enfraquecimento político de Lula (seja pela consequência #1 ou a #3 com viés negativo ao petista) pode trazer consequências também do ponto de vista da fragmentação da disputa presidencial. Enquanto o mercado observa com atenção os riscos de fragmentação do centro governista, a quinta possível consequência da condenação de Lula seria uma divisão maior nos votos que o líder petista concentra hoje, caso haja uma desidratação nas intenções de voto ou inelegibilidade. Neste cenário, os mais diversos partidos e candidatos deverão brigar pela herança do capital político do ex-presidente, principalmente junto ao eleitorado de baixa renda e escolaridade nas regiões Nordeste e Norte do país.

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Conforme observou o analista político Ricardo Ribeiro, da MCM Consultores, a fragmentação eleitoral deste ano hoje sinaliza aproximação ao cenário de 1989, sobretudo se Lula não for candidato. Com o ex-presidente no páreo, o especialista mostra que o pleito fica mais parecido com os de 1994 e 2002. Uma fragmentação da esquerda pode ser benéfica ao governador Geraldo Alckmin (PSDB), que ganha tempo para viabilizar sua candidatura junto ao centro. Por outro lado, um possível ganho de expressão do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), atual segundo colocado nas pesquisas, criaria ainda mais sombra sobre o tucano.

“Bolsonaro é o maior beneficiário da condenação, e não a centro-direita. Os partidários do deputado na sociedade e nas redes sociais foram os mais ativos defensores da condenação do ex-presidente, e, consequentemente, ficaram mais encorajados após o resultado favorável ao que defenderam. Bolsonaro, sem Lula, já aparecia como líder imbatível [nas pesquisas de intenção de voto]. Além disso, as pesquisas já demonstravam que ele seria receptor de votos do ex-presidente entre camadas de menor renda”, observou o analista de cenários Leopoldo Vieira, do Idealpolitik.

Para Vieira, caso não haja um candidato reconhecido pela esquerda no segundo turno, o ambiente de maior radizalização pode levar a um cenário similar ao que ocorreu nas eleições presidenciais norte-americanas, quando parte do eleitorado democrata se absteve de votar por não se ver representado por Hilary Clinton e, na prática, acabou beneficiando o candidato Donald Trump. As inúmeras diferenças entre os sistemas eleitorais norte-americano e brasileiro à parte, Geraldo Alckmin precisará “empolgar” o eleitor antes que seja tarde para viabilizar sua candidatura.