Sem otimismo

Arminio Fraga diz que Brasil vive “espetáculo do horror” e defende privatização de todas as estatais

Ex-presidente do BC afirma que o País vive horror com desgovernança, violência, populismo, desordem e corrupção; por outro lado, gestor da BlackRock ressalta otimismo com o Brasil

(PSDB)
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SÃO PAULO – No mesmo dia em que o Ibovespa atingiu máxima histórica com a captação em dólares de US$ 3 bilhões no exterior representando um voto de confiança no Brasil (veja mais clicando aqui), o ex-presidente do Banco Central e sócio-fundador da Gávea Investimentos, Arminio Fraga, deu declarações bastante críticas sobre a situação nacional mesmo que, muitas vezes, não tenha dado tanto destaque para a economia. 

Durante a sua participação no 18º Congresso do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), em São Paulo, Arminio afirmou que o Brasil vive “espetáculo de horror” com total desgovernança, violência, populismo, desordem e corrupção.

“É um espetáculo de horror. Acho que a solução é enfrentar todas essas crises ao mesmo tempo, mas não tenho a solução”, disse ele. O economista apontou que a crise tem dimensões amplas: “é uma crise econômica, já que o PIB per capita caiu 10% nos últimos anos. E na política vivemos um momento triste, com o governo sendo incapaz de governar o país pensando no longo prazo. Há incapacidade do Estado de agir para construir um futuro melhor”. Segundo ele, a classe política é “incapaz de governar o País com senso de desenvolvimento com D maiúsculo e com visão de longo prazo”, 

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Arminio ressaltou que, mesmo com as regras, há tentativas das leis serem burladas. Ele disse acreditar que a melhoria da governança obtida no setor privado contaminaria o setor público – mas não foi o que aconteceu.”O governo tem problemas graves de governança. É quase uma total desgovernança. Mas não perco a esperança”. 

Fraga disse que esse conjunto de crises tem uma raiz em comum, sendo que a manifestação mais direta foi a incapacidade de ação no Estado. “É um quadro em que as relações de causa e efeito se perdem um pouco no tempo”, disse, apontando que na sua visão todas essas crises terão de ser enfrentadas de forma paralela.

Segundo ele, os problemas vistos hoje não foram apenas causados por um “grupo que tomou conta do Estado, que escolheu um modelo econômico ruim e se apropriou do Estado em benefício próprio, foi muito mais do que isso”, destacou.

O ex-presidente do BC ressaltou que os problemas brasileiros têm se mostrado resistentes ao tratamento. “A doença é difícil e os sinais estão aí: corrupção, recessão, violência, desordem, populismo”, disse ele. Para Fraga, não é de se surpreender que neste ambiente ocorra uma “imensa e crescente rejeição” à classe política e seus partidos. “Isso assusta um pouco”, disse ele, ressaltando que é a favor da renovação da classe política.

Sem estatais

Arminio Fraga ainda afirmou ter plena convicção de que o governo não deve ter empresas, dizendo-se favorável à privatização de todas as estatais. Para ele, o cenário ideal seria criar ambiente competitivo e concorrencial e não privatizar monopólios.

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“Não é nada ideológico. Mas defendo a privatização de todas as estatais, sem exceção. O governo tem empresas para impor seus objetivos econômicos. O apoio à existência de estatais vem daqueles que se beneficiam dessas distorções, entre eles clientes, funcionários e fornecedores. Algumas dessa relações ocorrem fora do mercado, gerando transferência e alocação de capital problemática. Melhor seria se o governo terceirizasse os serviços que necessita. A questão é como fazê-la (a privatização) para criar algo robusto. Este é um tema que precisa entrar no debate público”, disse ele.

De acordo com o economista, a venda de uma fatia minoritária da BR Distribuidora, controlada pela Petrobras, não é o melhor caminho a ser trilhado. Essa não seria a melhor forma de capturar valor da empresa, visto que a estatal seguiria como sua controladora: “isso é rasgar dinheiro”. “Hoje sabemos que está lá (na Petrobras) o Nelson Carvalho no conselho, o Pedro Parente na gestão. Daqui a três anos ninguém sabe quem estará lá. Os governos arrumam as casas, arrumam as empresas e vem outro e desarruma”, explicou.

A Petrobras espera realizar uma oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da BR até o fim deste ano, com a venda de uma fatia que poderia variar entre 25% e 40%, conforme reiterou o presidente do Conselho de Administração da Petrobras, Nelson Carvalho. Fraga e Carvalho participam do Congresso organizado pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). A palestra de Fraga sucedeu à proferida pelo presidente do conselho da Petrobras. Ele citou, como exemplo, que não faria sentido vender a Petrobras para um único comprador, seja nacional ou estrangeiro, e que o ideal seria fatiar a empresa. Ele também citou a necessidade de privatizar os bancos públicos, ressaltando que eles respondem por cerca de 60% dos ativos do setor. “Isso é demais”.

Visões diversas

Enquanto Arminio Fraga mostra pessimismo, a maior gestora de recursos do mundo, Black Rock, tem o Brasil como a principal aposta na América Latina. O investimento em empresas brasileiras totaliza cerca de 65% dos US$ 2,5 bilhões de patrimônio dos fundos latino-americanos da instituição. Em entrevista para o jornal O Estado de S. Paulo, o principal gestor para a região William Landers explica que o otimismo tem a ver com o momento econômico do Brasil. “Nossa visão é positiva, porque os indicadores estão melhorando e, principalmente, a taxa de juros caiu de 14,25% para 8,25%, sendo que o Banco Central (BC) tem, claramente, espaço para cortar mais.”

O gestor entende que uma melhora do cenário econômico ainda mais significativa virá com a aprovação da PEC da Previdência, “ainda que amena”. O que pode atrapalhar a onda de otimismo é apenas a eleição de 2018. Embora o risco de um governo populista vir a se eleger “seja pequeno”, na avaliação da BlackRock, “não é negligenciável”. Entre otimismo e pessimismo com o Brasil, a bolsa brasileira segue atingindo máximos. Contudo, à medida que as eleições do ano que vem se aproximam, os temores do mercado podem voltar a aparecer. 

(Com Agência Estado) 

 

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