Aposta é de alta de 50pb da Selic, mas mudança de estratégia não é descartada

Com cenário inflacionário ainda complicado, analistas veem chances de alta de 25 pb e novas medidas macroprudenciais

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SÃO PAULO – O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) inicia sua reunião nesta terça-feira (19) sem deixar pistas muito claras ao mercado sobre os rumos da política monetária do País. Em meio a um cenário inflacionário ainda complicado, os analistas se dividiram ao apontar qual será a elevação da taxa Selic promovida pelo comitê.

A maioria das apostas se concentra em alta de 50 pontos-base, mas nas últimas semanas a projeção de duas altas de 25 pb ganhou força.

“Acreditamos em uma alta de 50 pb nessa reunião, para ajudar a conter a deterioração significativa do cenário inflacionário, mas admitimos que os riscos de uma estratégia de duas elevações de 25 pb são altos”, diz o Société Générale, avaliando o tom mais ameno o tom adotado pelo BC recentemente. 

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Faz diferença? 
O banco francês afirma que, apesar de parecer a mesma coisa, não é. “A sinalização é diferente”, explica Alejandro Cuadrado, analista do banco. Enquanto uma alta mais forte da taxa Selic agora poderia restaurar a credibilidade do BC, um movimento mais brando justamente quando a inflação está em alta poderia reforçar uma alta na curva de juros.

A Gradual também destaca essa “migração” do mercado para expectativas de alta de 25 pb na Selic. “O cenário de inflação mais comportada no segundo semestre [como vem sendo apontado pelo BC] não nos parece absurdo, e de fato há eventos que podem levar a uma queda nos preços”, diz a corretora, listando o fim do QE2, nos EUA, o efeito das medidas adotadas até agora pelo BC e o aperto monetário nos emergentes como razões para esse arrefecimento da inflação. 

Sangue frio
Por isso, “o Banco Central tem que ter sangue frio agora e manter-se fiel ao plano por ele mesmo traçado. Mudar de tom agora pode custar ainda mais caro no controle das expectativas”, diz o economista André Perfeito, que acredita que uma alta de 25 pb, acompanhada de alguma medida macroprudencial já será suficiente para “acomodar a atividade de forma mais tempestiva”.

No mesmo sentido, a Rosenberg também aponta o “dilema” do BC em seguir o caminho previamente traçado – e prometido ao Governo – de encerrar o ciclo de aperto com uma alta de 50 pb da taxa Selic em abril, ou mudar de estratégia agora, “já com o desgaste de ter que se explicar à mais alta autoridade do País”. “Se houver uma mudança de rumo, o comunicado e a ata seriam as oportunidades perfeitas para comunicá-la ao mercado. A conferir”, escreve a consultoria.  

+25 pb
Além de Perfeito, a Bradesco Corretora e a Modal também apostam em uma alta de apenas 25 pb na taxa Selic – que, na visão da asset, deve ser a última. “Temos a percepção de que o Banco Central torce por uma janela de oportunidade que se abrirá após esse próximo Copom, com dados mais fracos de atividade, em conjunto com uma desaceleração na inflação mês a mês, dados de crédito também enfraquecidos e contas fiscais mostrando desaceleração dos gastos”, diz a asset.

Entretanto, essa indicação não seria a melhor opção do BC, segundo os economistas da Modal. “Mesmo que esses indícios de desaceleração se materializem, acreditamos que o BC não deveria sinalizar a parada de juros nessa reunião, por acharmos que ainda é muito cedo para indicar se os dados de março/abril serão fruto de um efeito estatístico ou se representarão uma tendência de desaceleração da economia que ajudaria no combate inflacionário. Os riscos são grandes em caso de insucesso e melhor seria gerar um ciclo de aumento de juros mais longo”.

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Mais medidas macroprudenciais à vista
Apesar de não entrarem em acordo sobre o tamanho da alta da Selic, as análises de modo geral têm algo em comum: o BC deve anunciar novas medidas macroprudenciais para complementar os efeitos sobre a inflação no País. “É mais provável que o BC opte pela intesificação do uso de instrumentos macroprudenciais para conter a demanda agregada”, afirma a LCA. A consultoria espera uma alta de 50 pb na taxa de juro nesta reunião. 

Neste mesmo sentido, Guilherme Loureiro, do Barclays, prevê uma elevação de 50 pb do juro básico seguida de um período de pausa por parte do BC, para observar o comportamento da inflação, mas sem descartar a implantação novas medidas macroprudenciais, especialmente para conter a oferta de crédito.

Já o banco francês acredita que é “bastante possível” que o aperto monetário venha desses instrumentos alternativos, já que o BC tem “capacidade política e vontade limitadas para responder às pressões inflacionárias e às perspectivas otimistas”. 

Governo e mercado divergentes
Também apostando em alta de 50 pb, a Rosenberg & Associados levanta os próximos passos do Copom como principal ponto a ser observado, uma vez “o mercado vem tentanto convencer o Governo de que será necessário ter um aperto monetário maior do que ele imaginava e tudo indica que o BC começa a se convencer”, afirma a equipe liderada por Thais Marzola Zara.

“Enquanto o BC vê a inflação ceder no último trimestre, o mercado entende que as ações tomadas até agora, incluindo o que tem sido sinalizado pelo BC para suas ações no futuro imediato – i.e. Selic encerrando o ano em 12,25% – não serão suficientes”, completa o time da Rosenberg & Associados.