Segue o jogo

Apesar dos protestos e “posição precária”, Dilma deveria continuar presidente, diz FT

"Mesmo que Dilma saia do governo, ela provavelmente seria substituída por um outro político medíocre - que, em seguida, tentaria implementar a mesma estabilização econômica que ela está tentando", diz o jornal britânico em editorial

SÃO PAULO – Em reportagem em que destaca o descontentamento dos brasileiros com a presidente Dilma Rousseff, o jornal britânico Financial Times traça um paralelo histórico do atual momento nacional, tanto em termos econômicos quanto políticos. Em texto chamado “O crescente descontentamento no Brasil com Dilma Rousseff”, a publicação afirma que Dilma deve continuar no cargo, apesar dos pedidos de impeachment. 

O FT ressalta que costuma-se dizer que o Brasil tenta diversas abordagens econômicas até finalmente escolher uma certa. E, ao longo dos últimos sessenta anos, o País também foi criativo na maneira de remover seus presidentes. Getúlio Vargas se suicidou, Jânio Quadros foi forçado a renunciar, João Goulart foi deposto através de um golpe militar e Fernando Collor de Mello sofreu impeachment por acusações de corrupções (contudo, ele renunciou um pouco antes do processo ser concluído). “Muitos se perguntam se Dilma Rousseff, eleita para um segundo mandato há oito meses, poderia enfrentar um destino similar”, destaca o FT.

O jornal ainda aponta os problemas que levaram Dilma a chegar a essa situação: um deles foi o escândalo de corrupção que assolou a Petrobras. “Como Dilma presidiu o Conselho de Administração da Petrobras quando grande parte da corrupção ocorreu, ela pode ser responsabilizada, pelo menos, por bruta incompetência”. Além disso, o cenário econômico recente é ruim, com a recessão devendo durar no mínimo até 2016.

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Neste meio tempo, o real está se desvalorizando, o investimento entrou em colapso, a inflação é o dobro da meta oficial, a confiança dos investidores evaporou e o desemprego aumentou. “Não admira que houve protestos em massa em todo o Brasil no domingo – ou que 66% dos brasileiros queiram que Dilma sofra impeachment”.

E o jornal pergunta: mas se isso acontecer? Além disso, isso faria alguma diferença? O FT ressalta que Dilma não está sendo acusada de corrupção e também tem afirmado repetidamente que não vai renunciar. “É verdade, ela enfrenta acusações de que sua primeira administração quebraram as regras de financiamento de campanhas e que ela ‘maquiou’ as contas públicas, o que pode ser o suficiente para o impeachment. Mas nenhuma decisão ainda foi tomada”.

Além disso, o impeachment exigiria dois terços do Congresso para apoiá-lo, e o apoio não existe, diz o jornal. Os políticos, que também são acusados de corrupção, estão relutantes em puxar o gatilho. Contudo, o PSDB está feliz em ver Dilma nesta situação, avalia o jornal. Os tucanos esperam chegar às eleições presidenciais de 2018 com o PT completamente desacreditado e, assim, chegar ao poder nas próximas eleições. 

O problema, diz o jornal, é que 2018 permanece há três longos anos de distância, e é necessário agir hoje. No entanto, a impopularidade do governo, além da atitude do Congresso de cada-um-por-si significa que muitas medidas de estabilização econômica necessárias estão paralisadas. Um rebaixamento do rating da dívida do Brasil para “junk” continua a ser uma possibilidade real. Se isso acontecesse, ainda mais investimento deixaria o país, e a economia iria piorar ainda. Nesse meio tempo, não há maneiras óbvias para quebrar o impasse. Além disso, mesmo que Dilma saia, ela provavelmente só iria ver um outro político medíocre substituí-la – e, em seguida, tentar implementar o mesmo tipo de estabilização econômica que ela está tentando fazer, diz o jornal.

“Alguma perspectiva é necessária. O Brasil está longe de estar no tipo de confusão que existe na Argentina ou Venezuela, mesmo que a sua queda do estado de graça tenha sido notável”. O jornal lembra ainda que, a seis anos atrás, Luiz Inácio Lula da Silva, o antecessor de Dilma Rousseff, proclamou que estava “convencido de que o século 21 é o século de Brasil”.

“Há ainda 85 anos pela frente para provar que a afirmação está certa. Antes disso, no entanto, o Sr. Lula da Silva, uma vez um dos políticos mais populares do mundo, pode ser indiciado por acusações de corrupção também. Raramente o orgulho atingiu níveis tão espetaculares”, conclui o jornal.