Entrevista

Apesar de toda “desgraça”, sociedade nunca esteve tão aberta a novas ideias, diz escritor

Para Bruno Garschagen, que escreveu o livro Pare de Acreditar no Governo, a sociedade está começando a questionar a “terceirização” da responsabilidade individual

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SÃO PAULO – Em tempos de manifestações de rua, vale observar: não é de hoje a revolta dos brasileiros com os políticos do País. Ao mesmo tempo, cada vez mais a população exige mais do Estado, formada justamente pelos políticos que os brasileiros tanto criticam.

E, para Bruno Garschagen, isso é um paradoxo: por que razão os brasileiros, que têm uma imagem tão negativa sobre os políticos, acham que o governo deve resolver os problemas do país? Foi com base nesta pergunta que o cientista político escreveu o livro “Pare de acreditar no governo: por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado”.

E, em entrevista ao podcast Rio Bravo, o escritor e cientista político fala sobre o livro, recentemente publicado pela editora Record e a pesquisa que fundamentou a obra. Durante a entrevista, Garschagen indica como e quando o Estado se agigantou a ponto de se tornar fundamental segundo a percepção majoritária da sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, o autor observa que os brasileiros conseguem enxergar os políticos como responsáveis pelas promessas frustradas e pelos escândalos de corrupção.

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Ao analisar essa contradição, Garschagen comenta que ocorre uma espécie de separação do governo em relação aos políticos, “como se esse governo não fosse formado por esses mesmos políticos”. Apesar do atual cenário de crise política, Garschagen é otimista em relação às ideias que começam a questionar a “terceirização” da responsabilidade individual. “Quanto mais o Estado cresce, mais as pessoas delegam ao Estado a responsabilidade de conduzir as suas próprias vidas”.

Confira a entrevista:

Rio Bravo – Conte um pouco sobre a origem do livro. Como pesquisador, e sua trajetória acadêmica é bastante destaca nesse sentido, você já se preocupava com esses temas?

Bruno Garschagen – Na verdade, não. Eu começo pensando em construir a minha vida acadêmica a partir de 2007, quando eu vou para Lisboa estudar no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. É a partir daí que o estudo da política torna realmente sério e constante. Nesse período, os meus interesses não eram a política brasileira, a cultura brasileira não fazia parte dos meus interesses acadêmicos e nem intelectuais. E minha ligação era com a Inglaterra. Então, política inglesa, cultura inglesa e literatura inglesa. Só que eu comecei, em 2009, a trabalhar com alguns institutos, quer dizer, isso foi o início de um trabalho com institutos dedicados à promoção e defesa da liberdade e aí, quando eu voltei para o Brasil, em 2010, morando aqui, sendo vítima desse Estado intervencionista esse problema se torna mais evidente.

De qualquer forma, mesmo no período em Lisboa, o distanciamento do Brasil me fez perceber a política brasileira e a cultura brasileira de uma forma diferente daquela que eu tinha quando eu morava aqui. Essa percepção de que ao mesmo tempo em que nós não confiávamos nos políticos e pedíamos que o governo resolvesse todos os problemas é algo que já fazia parte de algumas dúvidas que eu tinha a respeito da política brasileira ou da cultura política brasileira. Quando eu retornei ao Brasil em 2010, comecei a amadurecer essa ideia. O título, depois, aí já falando sobre o livro diretamente, o título vem de uma provocação, ou de uma mensagem, que o Leandro Narloch me enviou alguns anos atrás dizendo que: “Um dia gostarei de ver um livro de minha autoria cujo título seria ‘Parem de acreditar na política'”. Eu fiquei com esse título na cabeça e, discordando um pouco da afirmação dele porque acho que como a política é importante e é preciso lidar com ela.

Eu retomei essa ideia desse paradoxo, que eu tenho chamado de Paradoxo de Garschagen, seguindo o conselho e sugestão do meu amigo Martim Vasques da Cunha. Quando eu pensei em projetos de livros sobre política brasileira que eu me interessaria fazer, eu elaborei esse título, “Pare de acreditar no governo”, e o subtítulo “Por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado”. Fiz um esboço de sumário, então, no final 2013 eu conheci o editor Carlos Andreazza, da editora Record, em um café informal – não era para tratar de nada específico -, me perguntou se eu não teria algum projeto de um livro que não fosse acadêmico, e eu apresentei esse livro.

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Estava elaborado nesse título e subtítulo, ele gostou muito da ideia e me pediu que apresentasse um pequeno projeto. Eu fiz e, com uma semana, eu recebi o contrato e comecei a pensar no livro. O livro foi pesquisado e escrito de janeiro a outubro de 2014 e foram mais alguns meses aí de revisão, capa, etc., tentado explicar esse Paradoxo de Garschagen, que é um mal que nos assola, porque ao mesmo tempo que a gente não confia nos políticos, e essa é uma coisa curiosa, não confiamos nos políticos porque a gente vê os políticos de carne e osso.

A cada escândalo de corrupção, a cada promessa não cumprida, nós, brasileiros, conseguimos identificar aquele responsável por essa promessa frustrada, e aí a razão de nós canalizarmos essa desconfiança nos políticos. Com relação ao governo e ao Estado, é interessante, porque é como se nós dissociássemos, desvinculássemos, o governo dos políticos, como se esse governo não fosse formado por esses mesmos políticos que nós não confiamos.

RB – Como esses problemas que envolvem o Brasil nesse momento invariavelmente a soluções, de acordo, tanto com a classe dirigente como pelos intelectuais, as soluções sempre passam pelo Estado. De onde vem essa necessidade ou esse entendimento que as soluções passam por ai?

BG- A tese que eu defendo no livro é que a vinda dos portugueses e a colonização portuguesa trazem não só os portugueses, mas toda uma cultura dentro da qual uma cultura política, e essa cultura política portuguesa é uma cultura política patrimonialista, intervencionista, uma série de problemas e fundamentada nessa ideia de que o Estado deveria ser o grande agente social, político e econômico. Claro, era uma época completamente diferente. Era um período de uma monarquia com poder bastante centralizado, era um momento político e social completamente diferente do que temos agora. Então, é difícil fazer essa comparação.

De qualquer forma, essa cultura intervencionista se manteve nos sucessivos governos portugueses, aos quais nós estávamos submetidos durante o período em que fomos colônia, e quando há a vinda da família real para cá, com D. João VI, essa cultura política já estava sedimentada. A nossa monarquia brasileira, que pode até se dizer que começa com D. João VI, mas principalmente no primeiro e segundo reinado, esses dois reinados mantiveram essa cultura política intervencionista, mas, ao mesmo tempo, foi o único período da história do Brasil em que se tentou superar, pela via da Constituição, pela via política, esses problemas de origem, o problema do patrimonialismo. Foi o único período da nossa história que se tentou efetivamente fazer isso. Ao contrário do que o nosso… O nosso ensino é muito ruim sobre a monarquia. A gente não conhece muito bem o que aconteceu, mas houve várias tentativas de reforma da monarquia.

A impressão que tem é que a monarquia nunca tentou se reformar, mas houve pelo menos quatro tentativas sérias de reforma e as duas grandes forças políticas da época, os liberais e conservadores, no momento atual em que a gente tenha na política 50 tons de vermelhos, é até estranho nós imaginarmos que no século XIX tivemos liberais e conservadores dividindo a arena política. Mas a partir do golpe militar de 1889, que derruba a monarquia, essa tentativa de superação do patrimonialismo é completamente destruída, e não só foi destruída, como o republicanismo radical que foi instituído aqui, e os dois primeiros governos do Marechal Deodoro da Fonseca e do Floriano Peixoto foram duas ditaduras. Ao longo da República Velha, houve uma tentativa de construir um Estado, uma administração burocrática, que em vez de controlar o Estado, tornou o Estado mais eficiente para atrapalhar a sociedade.

Aí vem o grande agente do Estado como conhecemos hoje, esse Estado grande, balofo, gordo, ineficiente, incompetente que quer intervir nos modos de vida em todas as dimensões da vida social política e econômica, até onde consegue alcançar, foi a revolução de 30 com Vargas.

Então, com Vargas, durante todo o período em que ele está no poder como ditador, embora a ditadura formal venha com 37, com o Estado Novo, mas a partir de 30, e até a saída do Vargas no final da Segunda Guerra Mundial, é o Estado querendo fazer tudo, é o Estado entrando em todas as dimensões, é o Estado criando sindicato para ir negociar com o governo, é o Estado estatizando o ensino com o Ministério da Educação, é o Estado tentando, por várias maneiras, por via da legislação ou de normas administrativas, tentando conduzir e orientar a vida dos brasileiros.

A partir daí, todas as ideologias, iluminismo, patrimonialismo, positivismo, o varguismo, que já é uma adaptação do positivismo, que já tinha sido adaptado pelo Borges de Medeiros. Enfim, todos esses “ismos” essas ideologias, em vez de se constituírem como um rompimento da nossa trajetória política, foram sendo agregadas a cada momento político. Essa modernização do patrimonialismo acabou criando um tipo muito singular de autoritarismo na política, e esse autoritarismo se manifesta com esse intervencionismo, que é um dos grandes assuntos do meu livro.

RB – Como essa ideia do patrimonialismo pode ser percebida ainda hoje, em termos políticos, da maneira como os partidos estão organizados hoje?

BG – De uma forma muito rudimentar, se você pegar o conceito clássico de patrimonialismo, é como os políticos brasileiros se apropriam da administração pública, do poder político como se fossem seu próprio patrimônio pessoal. Esta já é uma forma corrompida de lidar com o poder político, porque o patrimonialismo que se desenvolveu no Brasil mediante os portugueses, foi um patrimonialismo um tanto diferente dos outros de outros países da Europa, por que, ao contrário dos outros países, os portugueses se envolviam de uma forma afetiva com as populações locais, e essa forma afetiva fazia com que a relação do soberano com o súditos fosse um relação de pai para filho.

Isso tornava o patrimonialismo aqui com uma característica bastante singular. Respondendo objetivamente a sua pergunta, a forma mais clara com que esse patrimonialismo pode ser observado hoje é a forma como os políticos se apropriam da coisa pública como se fosse um patrimônio pessoal e fazem do poder político um meio de benefício próprio, em benefício daqueles que podem beneficiá-lo de alguma forma, seja por apoio político, apoio financeiro, ajudando, privilegiando ou beneficiando grandes empresários ou médios empresários para com isso estabelecer uma moeda de troca. É como usar o patrimônio público como se fosse um patrimônio privado.

RB – O desempenho econômico recente do Brasil nos últimos 7, 8 anos fez com que muitas pessoas acreditassem que a intervenção do Estado não só era desejável como poderia ser bastante interessante para o país. A gente pode dizer que isso reabilitou essa presença maior do Estado em termos ideológicos?

BG – Em termos ideológico sim, mas acho que a origem disso tudo foi o pequeno período em que o governo deixa de atrapalhar, e a estabilidade da moeda é um exemplo claro. A gente teve décadas de período de inflação muito alta por conta de medidas de políticas públicas equivocadas, quer dizer, o governo agindo no sentido de atrapalhar ou bagunçar a economia. Quando, no governo Fernando Henrique, há o Plano Real e é estabelecida uma ordem e essa ordem permite que a sociedade brasileira não tenha mais preocupação com a moeda, isso faz toda a diferença. Isso cria uma nova ordem em que a economia de mercado pode se desenvolver, porque há uma sensação de segurança econômica.

Essa segurança econômica ajudou a promover uma determinada prosperidade. Essa prosperidade do Brasil, junto com o clima favorável de economia internacional, faz com que o governo do PT, quando Lula assume o governo, não tenha muita preocupação com relação ao dinheiro, porque, com o dinheiro está entrando, deixa de ser uma preocupação e começa a tomar várias medidas para gastar esse dinheiro. E ao adotar essas medidas para gastar o dinheiro, essa presença do Estado, para a população, fica muito mais forte. Quando você vive um período de aparente prosperidade econômica, que as pessoas têm dinheiro e podem gastar e o governo começa a promover vários incentivos econômicos, seja reduzindo um imposto aqui outro ali ou distribuindo crédito para casa própria etc., para a população que não tem informação sobre a política, a mensagem que o governo passa é que o governo pode ajudar. O que essas pessoas não sabem é que essa ajuda tem um custo, isso tem que ser pago.

Quanto mais perdulário for um governo, quanto mais irresponsável for o governo, gastando dinheiro, criando incentivos para que as pessoas se endividem, uma hora o dinheiro acaba e essa conta vai ter que ser paga. Nesse período todo, antes dessa crise que a gente está vivendo agora, em que o governo tem que começar a apertar os cintos e aí, passando um outra mensagem para a população, desagradando, e aí você tem um problema de baixa aprovação do atual governo. Por um lado, você tem um governo que aproveita a maré favorável para se colocar para a sociedade como o grande de provedor e efetivamente adota medidas para fazê-lo. Isso acaba aflorando essa conduta intervencionista e reforça a mentalidade estatista da população. Quando a farra acaba, quando a ressaca vem, aí as pessoas começam a se dar conta de que o problema existe, de que foram cometidos vários erros e que esses erros serão pagos por nós mesmo, porque o governo não produz nada, quer dizer, ele expropria as riquezas da sociedade mediante tributos e nós temos que pagar a conta.

Você cria um período que é muito interessante, especialmente para o meu livro, que as pessoas estão prestando atenção no que está acontecendo e querem entender o que está acontecendo. Do ponto de vista da ideologia, quando você tem uma ideologia no poder, como é o caso do PT, que tem no DNA essa conduta intervencionista de controlar, de aparelhar o Estado e colocar o Estado e o governo a serviço do partido, essa característica fica muita mais evidente, muito mais aflorada e as consequências negativas são ainda piores do que um governo que não tivesse esse conjunto de elementos que constitui a ideologia do PT.

RB – Nas últimas semanas, tem havido um debate bastante acalorado em torno da reforma política. De alguma maneira essa discussão ecoa ainda essa leitura a respeito da presença do Estado e da força que o governo tem para resolver todas as questões?

BG – O problema dessa reforma política é que ela está sendo feita à toque de caixa e pelos motivos errados. Eu, por natureza política, sou um reformista e não um revolucionário, mas há um problema sério. Todo vez que você faz uma reforma, essa reforma tem que ser feita por bons políticos baseados ou fundamentados em boas ideias, e nós não temos uma coisa nem outra.

RB – Você consegue ver algum tipo de reação por parte da sociedade em relação a esse estado de coisas?

BG – Sim, apesar de toda desgraça política e econômica atual, pelos dados até agora apresentados parece que vai piorar, infelizmente, eu acho que nunca houve um período em que a sociedade brasileira, de baixo para cima, esteve tão aberta a novas ideias, tão propensa a aprender coisas novas porque tem percebido que esse modelo que está aí intervencionista, concentrador de poder, com políticas baseadas em atrapalhar a sociedade e a iniciativa privada, tentando orientar os modos de vida, infantilizando a população.

Em uma parte da população que ainda está presa nessa armadilha, essas pessoas continuam terceirizando sua própria responsabilidade individual. O Estado se coloca como o grande provedor, essas pessoas entregam ao Estado, aos políticos que elas não confiam, essa responsabilidade individual porque é muito confortável você delegar a terceiros resolver problemas individuais, que podem ser mais ou menos sérios. Mas isso cria um ciclo, porque quanto mais o Estado cresce e age como provedor, mais essas pessoas delegam ao Estado essa responsabilidade de conduzir a vida delas.

Mas a gente está em um período muito interessante em que a sociedade brasileira, de várias classes sociais, de diferentes formações escolares e acadêmicas, diferentes idades, essas pessoas estão efetivamente querendo algo novo, mudanças e abertas a novas ideias. Eu fiz essa pesquisa sobre história política do Brasil. Pelos registros que se tem, você tem períodos específicos da história em que grupos se uniam sobre uma determinada bandeira ou agenda política para lutar por algo. Hoje não. Hoje você tem, no Brasil inteiro, parcelas da sociedade brasileira que querem uma mudança desse quadro político terrível que nós temos e do quadro econômico porque essas pessoas não querem mais ser atrapalhadas.

Eu tenho a esperança que essa coisa pulsante que tenho verificado em todos os estados brasileiros por onde passei, possa se constituir no futuro, se todas as pessoas que hoje trabalham divulgando as ideias da liberdade, boas ideias, bons princípios, boas virtudes, que é uma coisa que também está meio perdida, porque a verdade foi relativizada, aí as crianças não sabem mais o que é certo e o que é errado, aí você tem um problema ético também…

Mas acho que parcelas da sociedade brasileira estão preocupadas com isso e estão se mobilizando, mas vai depender de nós, a responsabilidade é nossa, e não do Estado ou do governo, fazermos agora o que precisa ser feito para que, no futuro, nós tenhamos uma mudança clara dessa mentalidade estatista. E assim, em decorrência disso, a mudança da cultura política intervencionista que se traduz em políticos que chegam ao governo e agem da pior forma possível para aumentar seu próprio poder, aumentar seus privilégios e atrapalhar a sociedade brasileira.