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Antes quase impossível, lua de mel de Dilma com o mercado está por um fio, diz FT

Desde que ganhou a reeleição em outubro, depois de uma campanha que demonizou os banqueiros e empresários, Dilma conseguiu o que a princípio parecia quase impossível; mas desautorização de ministro de fala sobre salário mínimo trouxe efeito contrário, diz jornal

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SÃO PAULO – Apenas cinco dias depois de ter assumido o seu segundo mandato, a presidente Dilma Rousseff já passou por momentos difíceis com o mercado e que ameaçam a brevíssima lua de mel com os mercados, conforme destaca matéria do jornal britânico Financial Times.

O ponto de mudança foi após o novo ministro do Planejamento Nelson Barbosa, que figura como uma das esperanças para reanimar a economia, ter sido desautorizado por Dilma Rousseff depois de falar sobre mudanças no salário mínimo.

As observações de Barbosa foram louvadas por economistas ortodoxos, que culpam a regra de incorporação do PIB de dois anos antes mais a inflação pela alta de preços na economia. Mas não foram tão bem-vindos entre os partidários do PT e os trabalhadores de centro-esquerda.

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E, em meio a uma reação de esquerdistas, Barbosa teve que dar um passo atrás. “A atual regra continuará”, afirmou. O episódio destaca os desafios que Dilma terá de enfrentar para remodelar a sua imagem de intervencionista – adquirida durante seu primeiro mandato – para se apresentar como um presidente fiscalmente responsável e amigável ao mercado.

Desde que ganhou a reeleição em outubro, depois de uma campanha que demonizou os banqueiros e empresários, Dilma conseguiu o que a princípio parecia quase impossível – a lua de mel com os mercados. Isso porque, avalia o FT, ela fez isso adotando as medidas que o partido de oposição, o PSDB, defendia e que a presidente criticava.

O governo elevou as taxas de juros para controlar a inflação, reduziu os benefícios de pensão e buscou reequilibrar o Orçamento, reduzindo ainda a atuação do BNDES. E ela até mesmo a perspectiva de uma visita de Estado nos EUA foi positiva, mostrando um certo pragmatismo presidencial.

Porém, a escala de transformação de Dilma foi compensada pela dimensão dos desafios econômicos e políticos que ela enfrenta – muitos deles criados por ela mesma.

“Enquanto ela ganhou a eleição prometendo assegurar a milhões de brasileiros pobres que eles continuariam recebendo benefícios sociais e garantindo aumentos salariais, as políticas intervencionistas durante seu primeiro mandato, acompanhado por gastos excessivos na frente fiscal, tem prejudicado a economia e ampliado o déficit orçamentário, aumentando o ameaça de um rebaixamento do rating de crédito”, afirma o FT. Na frente política, uma crise da Petrobras envolvendo o esquema de corrupção na estatal aumenta os rumores de resgate da companhia, o que prejudicaria os esforços de seu novo ministro da Fazenda para reverter o crescente déficit fiscal.

Em uma tentativa de combater os problemas do país, Dilma tem desta vez escolheu uma equipe mais amigável do mercado. Joaquim Levy começou a trabalhar mudando altos cargos, substituindo o ex-secretário do Tesouro Arno Augustin e trazendo de volta Jorge Rachid nos quadros, um respeitado burocrata. 

A escolha de Dilma do ministro das relações exteriores também foi bastante elogiada e também pode facilitar as relações com Washington. O jornal britânico também destaca que a postura mais favorável às empresas da ministra da Agricultura Kátia Abreu e do ministro do desenvolvimento, indústria e comércio exterior Armando Monteiro são boas indicações do segundo mandato.

A mudança de rumo é um exemplo da capacidade do Brasil de surpreender quando confrontados com desafios aparentemente intransponíveis, afirmou Paulo Sotero, diretor do Instituto Brasil no Woodrow Wilson International Centre for Scholars, ao FT. Mas o desafio para Dilma será manter o apoio para suas propostas dentro do Congresso e nas ruas.

“A disputa com Barbosa sobre o aumento do salário mínimo é um lembrete da vulnerabilidade política do presidente, que venceu a eleição por uma das margens mais estreitas da história recente e estará sob pressão dos parceiros de coalizões inquietas e facções dentro de seu próprio partido, afirmou Sotero.