Ações da Coreia do Norte afetam potências, mas não há consenso sobre solução

EUA, China, Japão e Coreia do Sul: direta ou indiretamente, são todos afetados; desarmamento nuclear é posto em xeque

SÃO PAULO – Aos que acreditavam que a polêmica em torno da Coreia do Norte ficaria restrita ao segundo teste nuclear do país, esta quarta-feira (27) trouxe uma surpresa: além das armas nucleares e de novos testes com mísseis de curta distância, o governo também abandonou o armistício que pôs fim à guerra com a Coreia do Sul, ameaçando o vizinho com ataques militares.

Além disso, o Estado afirmou que não pode mais garantir a segurança de embarcações norte-americanas e sul-coreanas em sua costa ocidental. Ignorando a condenação da comunidade internacional, o governo também pode ter reativado as atividades de uma planta de produção de plutônio. De acordo com o periódico sul-coreano Chosun Ilbo, havia fumaça saindo da fábrica de processamento de combustível nuclear em Yongbyon.

As novas ações do governo norte-coreano seguem a decisão do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) de anunciar uma nova resolução em resposta à clara violação das leis internacionais pelo país. Em relação à Coreia do Sul, as críticas de Pyongyang são dirigidas ao anúncio de união com o programa dos Estados Unidos de reduzir a proliferação de armas de destruição em massa.

Os motivos

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De acordo com a instituição de análise financeira e econômica IHS Global, a motivação principal para as movimentações recentes da Coreia do Norte é doméstica. Com os rumores em relação à deterioração da saúde de Kim Jong-li aumentando, o governo pode estar tentando ganhar as graças de políticos linha-dura para apoiar o seu sucessor, que provavelmente será o filho mais novo de Kim.

Além disso, há uma razão interna mais técnica, que seria a vontade da Coreia do Norte de melhorar sua tecnologia nuclear, principalmente depois do fracasso dos primeiros testes, que ocorreram em outubro de 2006. “Todavia, especialistas acreditam que Pyongyang permanece bem longe de ter mísseis nucleares confiáveis e a tecnologia de miniaturização necessária para anexar ogivas nucleares a seus mísseis”, ressalva a IHS Global.

Já as motivações internacionais que poderiam ser atribuídas às atitudes de Pyongyang são o desejo de afirmação da Coreia do Norte como uma potência nuclear. Além disso, também especula-se que Kim queira chamar a atenção do governo de Barack Obama de forma a conseguir concessões.

Os impactos externos

São diversos os impactos políticos das decisões tomadas pela Coreia do Norte nos últimos dias, especialmente para os países vizinhos, como China, Japão e Coreia do Sul.

Relação entre as Coreias

De acordo com a análise da IHS Global, as ações da Coreia do Norte devem suscitar dúvidas em relação ao futuro de Seul. A pergunta que emergirá, segundo a instituição, é se deverá começar um programa de armamento nuclear ou não.

“Os eventos nas próximas 24 horas podem ser seguidos por incidentes navais mais hostis contra a administração da Coreia do Sul. No médio prazo, Seul provavelmente irá procurar pela confirmação dos Estados Unidos de seu compromisso de defender o país no caso de um ataque militar do Norte”, afirma a IHS Global.

Dúvidas na China

Na situação criada pelo governo norte-coreano, a China fica em uma posição difícil. Conforme explicado pela instituição, há duas escolas de pensamentos em relação à visão da China sobre a Coreia do Norte.

Na primeira, o governo chinês vê o vizinho de forma estratégica, mantendo as tropas norte-americanas na Coreia do Sul, longe do território chinês. Na segunda, o país representaria uma ameaça aos seus interesses, já que a movimentação da Coreia do Norte pode dar início a contra-ataques, principalmente do Japão.

“Claramente, Pequim está se movendo mais perto da posição dos Estados Unidos, expressando uma oposição resoluta aos testes de segunda-feira”, afirma IHS Global. Além desses problemas a China deve lutar para impedir uma desestabilização política no vizinho por medo de um fluxo de refugiados norte-coreanos ao seu território.

Militarização do Japão?

Para o Japão, as dúvidas levantadas a partir dos testes nucleares da Coreia do Norte também são substanciais. Enquanto a militarização do país deve voltar ao foco e levantar questões sobre o desenvolvimento de programas nucleares, no médio prazo, o Japão deve aumentar os gastos com defesa e intensificar a cooperação com os Estados Unidos, segundo a IHS.

“No longo prazo, permanece a possibilidade de que Tóquio convide Washington para posicionar mísseis nucleares de curto alcance no Japão como um meio de intimidação”, observa a instituição.

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Um teste ao governo de Obama

Mesmo estando fisicamente longe, os Estados Unidos não conseguem se distanciar politicamente dos conflitos no leste asiático. Dada a campanha do presidente Barack Obama para a redução da proliferação das armas nucleares e a questão do programa nuclear do Irã, reconhecer a Coreia do Norte seria vista como uma fraqueza do governo. É improvável, conforme avaliação da IHS, que isso aconteça.

Por outro lado, também não deve haver uma reação robusta em relação ao fato, já que o governo de Obama deve equilibrar as duras críticas do Japão e da Coreia do Sul com uma visão mais cautelosa da China e da Rússia.

Bottom-line

De acordo com a HIS, assim como aconteceu durante o lançamento do foguete norte-coreano em abril, as diferentes reações aos testes nucleares da Coreia do Norte mostram novamente a discordância entre as potências, o que deve afetar negativamente uma resolução conjunta dos países.

Porém, mesmo que a ONU chegue a uma decisão coletiva de impor sanções à Coreia do Norte, a instituição acredita que ela terá um efeito mínimo. “Assim, enquanto a comunidade internacional deverá mostrar que o país enfrenta algum tipo de consequência por suas ações, a possibilidade de encontrar uma solução robusta e eficiente parece improvável”.