Análise

Abaixo dos 10%, Alckmin tem 3 focos (improváveis) de esperança para ir ao segundo turno

Mesmo com cenário difícil, o chamado "voto útil", as dificuldades de campanha de Bolsonaro com a internação e uma possível fragmentação da esquerda podem dar a última luz ao tucano

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SÃO PAULO – A três semanas do primeiro turno, Geraldo Alckmin (PSDB) não consegue superar os 10% de intenções de voto e patina nas pesquisas para a corrida presidencial, mesmo com o horário de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão a pleno vapor – espaço em que tem grande vantagem em relação aos adversários. O ambiente tem deixado desnorteado aliados do chamado “blocão”, que apostaram em uma aliança nacional com a candidatura do tucano, mas recheada de traições nos estados.

Desde as primeiras movimentações, já se percebia que um dos maiores desafios do tucano seria reaver votos perdidos por seu partido ao longo do tempo – principal prova de fogo à sua viabilidade eleitoral, cada vez mais questionada entre aliados do “centrão”. Eleitores que antes decidiam em um candidato do PSDB para a presidência agora se dividem entre nomes que vão de Jair Bolsonaro (PSL) a João Amoêdo (Novo). Perdeu-se o monopólio do antipetismo.

Mesmo em um ambiente pouco animador para a campanha de Alckmin, ainda há dois fatores que podem tornar realidade um cenário cada vez mais difícil, da conquista de uma das duas vagas para o segundo turno: 1) o tal do “voto útil”; 2) risco de fragmentação entre votos da esquerda. A avaliação é que, se não começar uma reação nesta semana, o quadro ficará dramático.

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1. O “voto útil”

O crescimento meteórico de Fernando Haddad (PT) após o anúncio oficial como substituto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, declarado inelegível pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), faz com que aliados do tucano considerem o petista com assento provável no segundo turno. A ideia, então, seria tentar recuperar antipetistas que hoje indicam apoio a adversários, em uma estratégia combinada ao chamado “voto útil”.

Neste caso, a campanha de Alckmin pode intensificar os ataques contra Bolsonaro, no intuito de elevar seu índice de rejeição, o que, se bem sucedido, poderia colocar em risco a viabilidade do deputado em eventual disputa de segundo turno contra qualquer que seja o adversário. Tal estratégia está longe de ser consenso entre aliados. Um grupo defende, ainda, a tática de bombardear Haddad, que deve ficar para a reta final, em uma tentativa de o tucanato recuperar a imagem de ente polarizador com o PT.

“Em uma conta simples, vamos imaginar que Bolsonaro fique em patamar entre 20% e 25%, o que é razoável. Também imaginemos que o potencial de Haddad está não nos 39% de Lula, mas no que o Datafolha aponta como a preferência pelo PT: 24%. Imaginemos que ele consiga confirmar cerca de 80% desta fatia e ainda herde uma parte de votos de Lula, chegando a cerca de 22%. Isso significa que Alckmin precisará de algo superior a 23% para chegar ao segundo turno, ou para tirar Bolsonaro ou para tirar Haddad”, observou o cientista político Carlos Melo no último programa Conexão Brasília.

Para isso, nem mesmo a soma de todos os votos hoje declarados em Álvaro Dias (Podemos), João Amoêdo (Novo) e Henrique Meirelles (MDB) seria suficiente. Os três somados têm 9% das intenções de voto, de acordo com o último Datafolha, o que levaria Alckmin a 19%.

A partir daí, o tucano teria que apostar em uma espécie de estratégia de “voto útil”, em uma tentativa de convencer o eleitorado antilulista de que é o candidato com mais chances de derrotar um nome petista no segundo turno. Tal estratégia, porém, pode ter menos eficácia entre os eleitores de Bolsonaro, que hoje se mostram mais convictos sobre tal decisão, superando, inclusive, os atuais apoiadores de Alckmin. É o que mostra a tabela abaixo, com base na penúltima pesquisa feita pelo instituto, há uma semana:

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Em relação ao seu voto, você diria que:
datafolha1009
Fonte: Datafolha 10/09 (BR-02376/2018)

Além de ser complexa a missão de convencer eleitores de Bolsonaro à mudança no voto, Alckmin precisará de uma estratégia para múltiplas frentes, já que o apoio que teria que reaver se distribui em pelo menos quatro candidatos, além do grupo de brancos, nulos e indecisos, que somou 19% na última pesquisa Datafolha, divulgada na última sexta-feira (14).

Ainda é preciso considerar que um candidato com 9% das intenções de voto dificilmente conseguirá ser beneficiário do chamado “voto útil”, correndo muito mais riscos de ser vítima dele. É nesse sentido que Carlos Melo chama atenção para uma possível disputa entre Alckmin e Marina Silva (Rede) por este tipo de voto na reta final do primeiro turno. 

“O que está aparecendo é que Haddad cresce, Ciro Gomes para e Marina perde. Mas acho que ela não perde mais do que perdeu [em grande medida, o espólio lulista]. Ela pode ganhar de outro lado, os eleitores de Alckmin, tendo um ‘voto útil’ de centro. Por que esses votos poderiam ir para Marina e não para Alckmin? Porque ela não carrega os problemas dele: por exemplo, o centrão, que leva uma identidade com Michel Temer; o problema do PSDB, dos ‘Aécios’; e o desgaste natural com o partido durante este tempo todo. Marina talvez tivesse menos amarras para puxar esse voto de centro”, observou.

“Mas, mesmo assim, chega a mais de 20%? Porque deveríamos imaginar que, tanto para Marina quanto para Alckmin, no patamar que estão, teriam que herdar todos os votos de Amoêdo, Meirelles e Álvaro Dias. Isso me parece não fazer muito sentido matemático”, ponderou o cientista político.

2. Fragmentação da esquerda

Para que uma transferência mais factível seja suficiente, o ‘voto útil’ teria que ocorrer, o tucano teria que vencer a disputa por essa faixa de eleitores e, ainda, torcer para uma fragmentação de votos na esquerda. Ou seja, Alckmin precisaria torcer por uma resiliência de Ciro Gomes, que Haddad não consiga herdar mais muitos votos do lulismo. O cenário não é o mais provável nas avaliações dos cientistas políticos, embora não seja aconselhável descartar o tucano neste momento. Cisnes negros provaram-se uma constante na política brasileira, sobretudo em processos eleitorais.

3. Bolsonaro fora de combate

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Vítima de um ataque a facada durante ato de campanha em Juiz de Fora (MG) há 11 dias, Bolsonaro está hospitalizado, impossibilitado de fazer campanha efetiva nas ruas 20 dias antes do primeiro turno. Tal circunstância poderia prejudicá-lo durante o momento mais agudo da campanha. Além disso, a percepção de um quadro de saúde debilitado poderia retirar-lhe votos.

Nada disso até o momento aconteceu. Desde o atentado, o deputado cresceu nas pesquisas, sobretudo entre os chamados votos espontâneos, quando os eleitores declaram suas intenções de voto sem que lhes sejam apresentados nomes de candidatos. Isso significa uma alta entre os eleitores convictos em digitar o número 17 nas urnas daqui a pouco menos de três semanas.

Apesar de estar longe das multidões nas ruas, Bolsonaro reforça sua estratégia de comunicação nas redes sociais. No último domingo, o candidato fez seu primeiro pronunciamento desde o atentado que sofreu. Em 20 minutos de transmissão pelo Facebook, o parlamentar reforçou suspeitas sobre o resultado das eleições, apontando possível favorecimento do PT.

“Se coloquem no lugar do presidiário que está lá em Curitiba”, afirmou Bolsonaro. “Você aceitaria, passivamente, bovinamente ir para a cadeia? Você não tentaria uma fuga? Bem, se você não tentou fugir, é obviamente porque tem um plano B. E qual é o plano B desse presidiário?”, questionou. “Não consigo pensar em outra coisa a não ser o plano B se materializar numa fraude”. A cada movimento do líder nas pesquisas para reforçar sua tropa, mais dramática fica a condição de Alckmin para roubar votos. Na atual disposição das peças, o tucano passou a ser “zebra” no primeiro turno.

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