Análise

A verdadeira disputa entre Rodrigo Maia e Michel Temer (e que interessa ao mercado)

"O que Maia quer é surfar no desgaste do PMDB para ser mais um interlocutor privilegiado, já que é praticamente impossível suplantar o Executivo nesta seara, por controlar os mecanismos de política econômica", observa o analista político Leopoldo Vieira

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SÃO PAULO – Ao contrário dos atritos observados durante a primeira denúncia apresentada pela PGR, a nova disputa entre Rodrigo Maia e Michel Temer não fortalece especulações sobre uma possível sucessão presidencial por parte do deputado com eventual queda do peemedebista. A divulgação do vídeo da delação premiada do operador Lúcio Funaro no site da Câmara dos Deputados deflagrou um novo desgaste entre os dois atores políticos, mas não tende a alterar a dinâmica da nova peça que tramita contra Temer na casa.

“Não está em questão uma rebelião para depor o presidente, outrossim a disputa pela democratização da interlocução com o mercado financeiro”, observou o analista de cenários Leopoldo Vieira em relatório. “O que Maia quer é surfar no desgaste do PMDB para ser mais um interlocutor privilegiado, já que é praticamente impossível suplantar o Executivo nesta seara, por controlar os mecanismos de política econômica”.

O analista lembra do contexto em que ocorreu a nova crise entre o deputado e o presidente. Antes da revelação dos vídeos, o parlamentar havia reclamado de uma espécie de “boicote” de aliados do peemedebista à Medida Provisória que trata da leniência com os bancos, esvaziando o plenário para fazer acelerar a tramitação da denúncia na casa. Na ocasião, Maia havia manifestado irritação e criticado o governo, sob a alegação de que as denúncias atrasavam a agenda de reformas.

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“Por seu turno, Temer busca forçar o mercado a não descuidar do apoio ao governo, ou seja, fechar os olhos às denúncias, sob pena da agenda emperrar. Por isso, lança a palavra final sobre o Refis, leniência com bancos e reforma previdenciária para o pós-rejeição da segunda denúncia. E, com a outra mão, já sinaliza com uma reforma da Previdência mitigada, aprovável, em dezembro”, disse Vieira.

Em entrevista ao programa Conexão Brasília, da InfoMoneyTV, o analista político Erich Decat chamou atenção para a estratégia geral de Rodrigo Maia na atual disputa política. “O Palácio do Planalto operou para fazer Rodrigo Maia presidente da Câmara. Às vezes o vemos um pouco pendular. Esse pêndulo é uma questão estratégica, porque ele já está olhando para 2019”, explicou. Para o especialista, a estratégia do parlamentar é voltar ao comando da casa legislativa depois das eleições. “Ao mesmo tempo em que ele joga para o Palácio, ele também joga para a Câmara e para o centrão. Quando vemos algumas declarações meio truncadas, meio dúbias dele, pode ter certeza que a maioria dos líderes do centrão está com o mesmo discurso. É o Rodrigo Maia batendo e assoprando, garantindo um apoio do Palácio, mas ao mesmo tempo olhando para a casa que futuramente dará suporte a ele”.

A impopularidade faz de Temer um político “radioativo”. Com isso, movimentos de afastamento são naturais. Para Rafael Cortez, analista político da consultoria Tendências, depois da derrubada da primeira denúncia contra Temer no plenário da Câmara e do afastamento de qualquer articulação em torno do nome de Maia, houve uma mudança no ordenamento das peças do xadrez político. “A percepção é que, de fato, há pouco espaço para a construção de uma alternativa. Maia tem, ao mesmo tempo, um papel partidário, como líder importante do DEM — partido que olha a crise da polarização entre PT e PSDB especialmente do ponto de vista dos tucanos para tentar retomar um papel de protagonismo ou pelo menos de um peso relativo maior na política nacional –, e um papel institucional de conduzir os trabalhos. Esses sinais mistos têm um pouco a ver com esse duplo papel. O debate agora do mandato e toda essa desavença, por incrível que pareça, para mim tem efeito maior na eleição de 2018”, observou também durante o programa Conexão Brasília.

Em meio à perda de forças dos tucanos, torna-se inevitável a disputa entre PMDB e DEM por novos espaços. Mas nada que traga implicações práticas sensíveis à tramitação da segunda denúncia contra o presidente. O que sobra é uma disputa pelo controle da agenda política. Em seus próximos movimentos, espera-se que Maia estique mais a corda em direção às medidas de ajuste fiscal, em busca de maior simpatia dos agentes do mercado.