Entrevista

“A repressão foi anterior à manifestação: política para uns, polícia para outros”, diz professora

"O clima de tensão não deve diminuir e fico preocupada com alguma tragédia que aconteça. É hora de a política entrar em cena e ocupar o lugar da polícia", afirmou Esther Solano em entrevista ao InfoMoney

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SÃO PAULO – Na última terça-feira (12), os paulistanos e todo o Brasil assistiram a mais um episódio de violência explícita durante manifestação realizada na avenida Paulista contra o aumento nos preços da passagem de ônibus, em vigor desde o sábado em São Paulo. Manifestantes, policiais, jornalistas, moradores de rua e quem por ali transitava presenciaram cenas de guerra, com muita correria, bombas e feridos. Para professora da Unifesp Esther Solano, doutora em ciências sociais e coautora do livro “Mascarados, a verdadeira história da tática Black Bloc” (Geração editorial, 2014), o saldo de tudo isso foi, em vez do aprendizado com os erros do passado, a ampliação de tensões e o uso cada vez mais incisivo da Polícia Militar para resolver questões que deveriam ser tratadas na esfera política.

Entrevistada pelo InfoMoney, a pesquisadora diz que o episódio de ontem foi o mais brutal que ela já presenciou em termos de aparato policial, e que o uso de força desproporcional, a seu ver, impediu o democrático exercício de se manifestar a quem estava pesente na Praça do Ciclista. “O problema fundamental é a falta de vontade política e a insistência de se impor decisões sem diálogo ou explicações previas”, argumentou Esther Solano, que teme a manutenção do clima de tensão para os próximos protestos organizados pelo Movimento Passe Livre. “A repressão foi anterior ao início da manifestação, o que é uma supressão de direito clara. De qualquer maneira, o argumento do Black Bloc não poderia servir para anular o direito de um conjunto de cidadãos a exercer seu direito de protesto. Se a polícia quer impedir a depredação, que se utilizem outas táticas, mas nunca violar de forma tão ostensiva o direito de manifestação”. Confira a entrevista na íntegra:

InfoMoney – Conte-nos o que você viu ontem nas manifestações. Houve supressão de direitos democráticos? O que mais chamou sua atenção?
Esther Solano – Estou presente na maioria das manifestações desde 2013, com objetivo de pesquisa, e ontem foi a mais brutal em termos de aparato policial. Parecia uma operação de guerra, até com a presença da Rota, um corpo policial letal e que nunca deveria estar presente em uma manifestação. Não só o contingente policial (além da Rota, força tática, choque, cavalaria…) foi absolutamente desproporcional, mas também houve um bloqueio total ao protesto. Muitos manifestantes não podiam entrar, várias ruas foram cortadas e ficamos praticamente isolados dentro do cordão policial. A principal violação cometida é que não se respeitou a garantia de liberdade de manifestação que deve ser incontestável em qualquer democracia. Antes mesmo de começar, o protesto foi interrompido por uma chuva de bombas de efeito moral na própria avenida Paulista, colocando em risco quem estava lá. Houve vários relatos de pessoas feridas por estilhaços de bomba e cassetete que acabaram no Hospital das Clínicas, assim como população de rua ferida, jornalistas e vários detidos. E desta vez não houve nenhum tipo de ação prévia do Black Bloc que legitimasse a ação policial. A repressão foi anterior ao início da manifestação, o que é uma supressão de direito clara. De qualquer maneira, o argumento do Black Bloc não poderia servir para anular o direito de um conjunto de cidadãos a exercer seu direito de protesto. Se a polícia quer impedir a depredação, que se utilizem outas táticas, mas nunca violar de forma tão ostensiva o direito de manifestação.

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IM – O clima de revanchismo entre PMs e manifestantes já mostra acirramento. O que explica esse contexto? Por que há tanta tensão e violência nesses protestos?
ES – A tensão está sempre muito presente nestas manifestações. Infelizmente em vez de tentar dialogar, apostar na mediação ou na negociação, as autoridades políticas (governo e prefeitura) ficam em silêncio e enviam a polícia para a rua, com a qual o clima de violência latente só piora. Estamos assim desde 2013 e não aprendemos nada; pelo contrário, a espiral de violência só aumenta até o ponto que possamos chegar a alguma tragédia. O problema fundamental é a falta de vontade política e a insistência de se impor decisões sem diálogo ou explicações previas. Um protesto que incomoda (como o dos secundaristas) se transforma num assunto de segurança pública, policial, quando é uma questão eminentemente política e assim deveria ser resolvida, com política, não com polícia.

InfoMoney – Uma comparação que se tem feito é que os protestos pró-impeachment ocorreram sem confrontos e até em um clima amistoso entre forças policiais e manifestantes, o que não se repete nesses movimentos contra o aumento no preço das passagens de transporte público. Qual é a grande diferença entre os protestos? O comportamento da PM é diferente? Por quê?
ES – Sim, é inevitável fazer esta comparação porque é gritante a diferença. A composição social dos protestos pelo impeachment é classe média alta, famílias brancas, idade adulta — ou seja, um espetro que não é considerado “classe perigosa” nem pela polícia, nem pela sociedade. É um protesto de caráter conservador, que não incomoda o poder, portanto não é tratado como “assunto de polícia”. Agora, quando você junta, como no caso do MPL, jovens incomodando a estrutura de poder da cidade e do Estado, presença de jovens de periferia, Black Bloc inclusive, aí, sim, já temos o protótipo da “classe perigosa”, aquela que é uma ameaça para o status quo, aquela com a qual a política não quer dialogar. Acho que o que nós estamos vendo aqui, no fundo, é a questão do histórico classismo brasileiro, que diferencia os cidadãos em termos de status econômico, em termos de padrões raciais, em termos de estrutura de poder, e dá um trato diferente aos mesmos. Para uns, a política, para outros a polícia.

IM – Como você avalia a ação policial? Foi uma operação estratégica de repressão às demandas dos manifestantes? Pela recorrência e ação coletiva da corporação, você acredita em ordens vindas de cima? Se sim, qual seria a origem?
ES – Em última instância, a PM obedece ao governo do Estado, portanto, o governador é o último responsável, sem a menor dúvida. O que está claro é que, desde 2013, a tropa está submetida a uma pressão muito grande nas manifestações e o clima está muito tenso, mas justamente o que deve ser feito é tentar aproximar posturas, minimizar o contexto de violência, para evitar supressão de direitos e dramas maiores que possam vir. Essa seria a postura de responsabilidade política. Infelizmente as orientações políticas, que deveriam ser de diálogo e mediação, são de mais repressão. É difícil mediar uma manifestação, tentar negociar? Sim, mas, para isso, votamos em nosso representantes, para que resolvam as complexidades sociais, para que deem respostas e tenham honestidade e coragem para enfrentar os problemas, não se esconder atrás das fardas dos policiais.

IM – Você poderia fazer um comparativo entre manifestações que acompanhou na Espanha e as atuais no Brasil? Leve em conta também o perfil dos manifestantes, das forças policiais e as demandas envolvidas.
ES – Nas últimas manifestações na Espanha, o aparato policial também era muito grande, teve Black BLoc, e também houve abusos, mas acho que a diferença fundamental é que aqui a Polícia Militar — e a política também — tem essa lógica do inimigo e da guerra, e não só com o Black Bloc. Ontem, todos nós — até a imprensa — fomos criminalizados, como se, pelo fato de estarmos na manifestação, estivéssemos cometendo algum delito. Bem, a diferença essencial então é que, no Brasil, as questões sociais são, com muita frequência, tratadas como questões de segurança pública, e a partir da ótica do confronto.

IM – Como deveriam agir os principais atores envolvidos? O que é esperado deles em um contexto de democracia?
ES – Na minha percepção, o MPL deveria pensar muito bem sua estrategia; deve agir de forma inteligente, a fim de conseguir seus objetivos, e não se colocar em risco nem se queimar muito rápido. Afinal, estamos em ano eleitoral e o movimento deveria aproveitar essa janela. Por outro lado, tanto governador como prefeito devem estar dispostos ao diálogo, a dar explicações, a sair na imprensa, descer às ruas, para explicar a decisão de subir a tarifa. Os jovens querem participar das decisões, não aceitam mais imposições políticas de forma passiva. Finalmente, a polícia deve abandonar esta lógica bélica do inimigo, porque uma manifestação (por mais que o Black Bloc esteja presente) não tem nada a ver com uma operação contra o tráfico, por exemplo. Não podemos aplicar os mesmos padrões. Nada justifica esse comportamento.

IM – Os Black Blocs voltaram a ser os vilões a justificar a ação policial nos protestos. Qual é sua percepção acerca desse grupo, a legitimidade de sua narrativa e a responsabilidade sobre a violência generalizada em protestos.
ES – Quando aparece o Black Bloc, a tensão sempre aumenta, claro. Eu tenho críticas à atuação deles, sim, mas minha principal crítica é que as autoridades políticas não têm a capacidade ou a coragem para tentar resolver os problemas na base do debate, do diálogo, e tensionam tanto a situação. O Black Bloc acaba sendo uma consequência natural (não só aqui mas em muitos outros países em que estão presentes) a esta postura autoritária. Esses garotos são o sintoma de uma sociedade e uma política que não dialoga e que se expressa pela violência. Entrevistei muitos deles para minha pesquisa e eles me contavam que tinham chegado ao ponto de utilizar a tática da violência porque a política era opaca às suas revindicações e como resposta à violência policial que eles vivenciam todo dia, não só nas manifestações, como nas periferias urbanas. Lembro que um garoto me dizia: “Na minha quebrada, a PM é violenta todo dia, aqui é a minha oportunidade de dar o troco, nem que seja com uma pedra na mão”. Por outro lado, você não pode julgar todos os manifestantes pela presença de alguns indivíduos que façam depredação (levando em consideração que a maior parte da mesma é lixo jogado na rua, barricadas ou vidraças quebradas, o que não me parece que legitime a presença da Rota, por exemplo, algo absolutamente desproporcional). Você não pode impedir todo um conjunto de manifestantes de protestar pelo argumento da presença do Black Bloc nem levar todo um enorme aparato policial às ruas, provocando mais a ação deles, dando mais combustível para eles, e aumentado o risco. Essa estratégia policial da força bruta é muito pouco inteligente; é, em último termo, ineficaz e antidemocrática. Se realmente existem sujeitos dentro da manifestação que supõem um perigo para a integridade física das pessoas, bem, que se identifique essa conduta e se aja de forma individualizada, não criminalizando a manifestação toda. De fato, a maioria do Black Bloc simplesmente leva máscara e faz atos menores como barricadas ou pequenos fogos. Estamos dizendo que a PM de São Paulo, uma das maiores do mundo, para “controlar o Black Bloc”, precisa montar uma operação de guerra, levar a Rota para a rua e impedir os protestos?

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IM – Como você avalia o silêncio do prefeito Fernando Haddad e o posicionamento de autoridades estaduais?
ES – Sou extremamente crítica a que as autoridades fiquem em silêncio. Hoje escutei uma entrevista de Haddad, onde se dizia preocupado com a repressão policial e pedindo uma mediação. Bem, é isso mesmo, mas não só palavras, ações devem ser tomadas de forma rápida.

IM – Qual é a sua leitura sobre a pauta do Passe Livre?
ES – Me parece perfeitamente legítima, uma frente de luta popular tão digna como a pela moradia ou a revindicação dos secundaristas — aliás, uma pauta que afeta uma grande parte da população, sobretudo aquela mais desfavorecida economicamente.

IM – O que os recentes protestos trazem de legado daquele período de junho de 2013? O revanchismo entre PMs e manifestantes herda tensões de lá?
ES – Efetivamente, é triste comprovar que a situação continua muito tensa, que a violência está sempre no centro dos protestos que somos incapazes de aprender com os erros passados. É muito frustrante, porque uma sociedade, uma política que insiste em não dialogar, em resolver os problemas em base a violência e polícia, é uma sociedade que não está construindo seu futuro.

IM- Era esperado confronto dessa magnitude? O que você projeta para as próximas manifestações?
ES – Infelizmente, as perspetivas de futuros protestos não são boas. O clima de tensão não deve diminuir e fico preocupada com alguma tragédia que aconteça. É hora de a política entrar em cena e ocupar o lugar da polícia. 

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