Podcast Rio Bravo

“A máquina está tão viciada em ajudar políticos que esquece de ajudar quem deve”, diz Rogerio Chequer

Outsider na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, expoente do Vem Pra Rua quer ser a voz da renovação em São Paulo

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SÃO PAULO – Há uma ineficiência deliberada na máquina pública, na qual a razão de ser do Estado foi desvirtuada por uma lógica viciada para atender a interesses de partidos e políticos. Essa é a leitura que faz Rogério Chequer, que recentemente deixou o movimento Vem Pra Rua para ingressar na corrida eleitoral como pré-candidato ao governo de São Paulo pelo Partido Novo. O outsider na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes foi entrevistado pelo Podcast Rio Bravo.

Confira os destaques da conversa:

O que motivou sua decisão de, no fim do ano passado, sair do movimento Vem Pra Rua e ingressar no Partido Novo?

O movimento ainda é bastante influente e está operando a toda carga. É um movimento que tem uma governança totalmente estabelecida e a minha saída não compromete os objetivos de curto, médio e longo prazo. Do meu ponto de vista e da minha realidade, eu me encontrei numa posição privilegiada de ter alguma exposição na sociedade, vindo de uma causa que buscava o fim da corrupção e a renovação política, e que eu teria condições de levar esses pleitos para uma disputa eleitoral. É uma combinação de fatores que acho que não é comum acontecer por aí. Eu me senti quase que na obrigação de tentar levar para a esfera da gestão pública tudo o que nós temos exigido dos gestores nesses últimos três anos.

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Sair de um movimento como o Vem Pra Rua para enfrentar um partido há tanto tempo no poder é intimidador para você?

É desafiador e altamente motivador, porque quando você começa a montar um programa, a investigar o que há de errado, você começa a perceber que toda a ineficiência dos governos, das máquinas públicas, é uma ineficiência absolutamente deliberada. É uma ineficiência desenhada para gerar dinheiro, poder e apoio político, que geralmente desaguam em duas coisas: enriquecimento pessoal e reeleições. A máquina está tão viciada em ajudar os políticos que esquece de ajudar quem deve, que é o povo, a sociedade. Montar um programa de governo me deixa animadíssimo ao perceber que, se entra alguém lá disposto a transformar essa máquina numa máquina de serviços de qualidade para a população, principalmente em Saúde, Educação, Segurança, Saneamento, é possível ser feito como não é feito há décadas.

E a população está disposta a fazer parte dessa mudança? Ou ela está cansada de tantas promessas?

Acho que as duas coisas. Com quem conversamos, encontramos uma aceitação e um alinhamento muito grandes em relação a querer fazer parte de um projeto de fazer política diferente e governar de forma diferente. Existe uma parcela da sociedade que também está absolutamente descrente de que alguém possa fazer diferente. Então, atitudes de políticos que não cumprem promessas — a gente teve uma recente, com o João Doria, em São Paulo, de terminar o seu mandato — e de políticos que prometem uma coisa e, quando chegam lá, fazem outra criam uma resistência muito grande, principalmente nos grupos menos favorecidos, de que é possível alguém entrar lá para fazer diferente. Então, as duas coisas acontecem ao mesmo tempo.

Em que medida as propostas que você tem desenvolvido para o governo do estado diferenciam, por exemplo, daquelas que têm sido empregadas pelo PSDB nos últimos anos?

Acho que tomar o estado de São Paulo como exemplo do que está acontecendo é muito válido. É um partido que está no poder do estado há mais de 20 anos e nem por isso conseguiu melhorar a qualidade dos serviços absolutamente básicos que a população espera do governo. É um estado que ainda tem educação sofrível, saúde num estado deplorável, uma segurança que, apesar de melhor do que dos outros estados e alardeada pelo governador como boa, não deixa ninguém seguro quando está nas ruas. E é um partido que teve uma chance de mais de duas décadas de arrecadação bilionária para consertar as coisas e não consertou. Então, colocado de uma forma muito simples, o que nós pretendemos fazer é direcionar o dinheiro dos impostos da população para serviços e não para reeleição, não para inchamento de máquina, não para troca de favores, não para loteamento de governo.

Como os integrantes do movimento Vem Pra Rua, voltando à sua origem na militância e na atuação política, reagiram à candidatura? Houve quem tenha ficado desapontado com a sua decisão?

Fiquei muito surpreso com a reação dos membros e seguidores do Vem Pra Rua. Imaginava que haveria alguma resistência, mas a avassaladora maioria me deu apoio e ofereceu ajuda nessa árdua batalha que tenho pela frente numa proporção altamente surpreendente. Isso dá para ser comprovado, inclusive, pelas mídias sociais quando anunciei minha saída. Foi sensacional a reação.

Qual é a maior dificuldade ao encarar uma campanha, uma disputa eleitoral dessa magnitude para governo do maior ente da Federação?

Na verdade, nosso maior adversário é a resignação e a descrença. A população está tão machucada e já foi enganada tantas vezes que, quando alguém chega com uma proposta de fazer alguma coisa diferente, ela tende a igualar essas promessas às antigas e não cumpridas. O grande desafio é mostrar para a população que é possível fazer diferente, que para fazer diferente não é necessário apenas uma vontade e uma promessa, mas é necessário um partido que tenha regras diferentes por trás para que os mandatários desse partido estejam com alinhamento de interesse com a sociedade. Só com esse conjunto é que a gente vai conseguir vencer a resignação e as feridas de uma sociedade que está absolutamente cansada de ser usada e enganada.

Como tem sido a mobilização para além dos grupos que já conhecem sua atuação política? Como tem acontecido essa participação sua em outras regiões do estado?

A gente tem percorrido várias cidades e vários centros do interior de São Paulo, principalmente para entender qual é a realidade deles, para perguntar o que tem sido feito, o que não tem sido feito, quais são as suas demandas principais, porque um programa de governo para um estado tão importante quanto São Paulo não pode ser feito de forma unilateral, ele tem que ser construído junto com a sociedade e a gente tem que escutar o que está funcionando e o que não está funcionando em localidades muito diferentes da capital, sejas as litorâneas, sejam as que vão mais para o interior. Nossa missão agora é construir um programa robusto, factível, verdadeiro e honesto junto com as pessoas e é para isso que precisamos ouvi-las o tempo todo.

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Quem está te ajudando a construir o programa, além da mobilização da sociedade civil?

A gente tem procurado especialistas em cada área. Nós definimos algumas verticais, como Educação, Saúde, Saneamento, Segurança, Habitação, que são as que mais afetam o paulista. E nessas áreas temos atraído e convidado especialistas, tanto da academia, como da indústria, quanto pessoas que têm a própria experiência já no governo, seja atual ou seja passado, para evitar construir programas que sejam castelos de areia. O grupo está se formando, já começamos a ter as primeiras reuniões e dentro de poucos meses vamos apresentar um programa muito robusto para a sociedade.

Quando você fala em programa robusto, destaca pontos que possam ser efetivamente compreendidos pela população?

Existem pontos mais simples e pontos mais complexos, e a compreensão da população vai ser proporcional a essa complexidade. Existem soluções que podem ser adotadas muito rapidamente e acho que a população vai entender isso de forma muito rápida. E existem pontos que requerem desafios maiores, requerem aprovação legislativa, uma burocracia maior. Estes pontos a gente vai precisar de mais tempo para explicar e desenvolver. Agora, o bacana dessa história toda é que as ações que já trazem impacto para a sociedade já podem começar a serem tomadas logo nos primeiros seis meses.

Como é que você pretende lidar, uma vez eleito, com a Assembleia Legislativa de São Paulo?

Com muita transparência. No momento em que temos definido quem é o governo e quem é a Assembleia, a gente precisa começar a conversar sobre o que a sociedade precisa. E nessa conversa precisa entrar a sociedade, que é algo que nunca aconteceu aqui em São Paulo. A partir dela vão sair os principais pontos de responsabilidade da Assembleia Legislativa, que devem ser feitos com o único objetivo de melhorar a qualidade de vida dos paulistas. E aí passa a ser de responsabilidade e mérito da Assembleia a execução desses pontos, e passa a ser da responsabilidade de cobrança da população que elegeu essa Assembleia cobrar para ver se essas coisas serão feitas. A gente está numa época onde o diálogo pode ser muito mais eficiente por causa da tecnologia e pode ser muito mais transparente para a sociedade. Eu conto com essa tecnologia para que o paulista participe desse debate mais do que nunca. A gente tem no Brasil — e isso vale para várias esferas, não é só a estadual — o vício de que mudanças legislativas são da responsabilidade do Executivo. Não são, elas são de responsabilidade do próprio Legislativo, coordenado e representando a sociedade. É essa conexão que nós vamos estimular.

Do ponto de vista das lideranças políticas existentes e também do passado, existe algum governador, algum político que você toma como referência para atuar agora nessa campanha e mesmo pensando no governo?

Infelizmente, não, e o motivo é muito simples. Há muito tempo que os partidos no Brasil não têm seus interesses alinhados com os da sociedade. Há muito tempo que eles recebem recursos públicos independente da qualidade da prestação de serviços que eles oferecem. Então, o sistema está absolutamente falido. Enquanto nós não tivermos partidos políticos que requerem, que necessitam da contribuição espontânea e voluntária da sociedade para sobreviver e a ela têm que servir, nós não poderemos ter uma estrutura política consistente. E essa é a grande novidade nas eleições de 2018. Nós temos um grupo de pessoas disposto a fazer as coisas diferentes e amparado por um partido político novo, que não usa dinheiro público, que impede o número de reeleições e que seleciona seus candidatos de uma forma que nunca aconteceu antes na história eleitoral brasileira.

A gente vive um momento de considerável tensão ideológica. Como você lida com isso? Como você enfrenta essa desconfiança, por exemplo, para quem enxerga o Partido Novo ou mesmo sua atuação no movimento Vem Pra Rua como parte de uma agenda política que não necessariamente pertence aos ideais de todos os eleitores?

Acho que a gente tem que tratar desse assunto esclarecendo o que são diferentes ideologias e rompendo com réguas tradicionais. Hoje, existem hábitos, características e valores da extrema direita que se assemelham muito à extrema esquerda e, na minha opinião, isso faz com que a régua inteira fique invalidada. Acho que a discussão não é mais de direita, centro ou esquerda. A discussão é de tamanho do Estado e tamanho do governo. Acho que a discussão não é mais de quem trabalha para o social e de que isso é uma exclusividade da esquerda, mas sim como que a eficiência da máquina administrativa pode ajudar a sociedade. Os critérios são diferentes, a régua não funciona mais e a gente tem que finalmente enfrentar o problema do desalinhamento de interesses que existe entre os partidos atuais e a sociedade. Essa discussão é muito mais construtiva do que a gente ficar tentando localizar cada um numa régua absolutamente obsoleta.

A campanha de 2018 será uma das mais curtas da história recente da política nacional. Como você pretende conquistar a atenção do eleitorado num espaço tão enxuto de tempo?

Falando a verdade. Pouca gente tem tido a coragem de expor para a sociedade os absurdos que têm sido feitos em campanhas e em mandatos, e isso só pode ser feito por quem não tem o rabo preso, que é o nosso caso. Então, falando a verdade, apontando como as coisas são feitas atualmente, apontando o que será feito nessa própria campanha, é assim que a gente vai chegar, conversar e tocar com essa sociedade que é vítima dessas práticas tão antiquadas.

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