Análise

A estratégia de Rodrigo Janot após o baque dos novos áudios da JBS

Por mais arriscado que fosse, a coletiva de imprensa convocada às pressas na última segunda-feira visava uma autoblindagem, mas o procurador-geral não conseguirá recuperar sua imagem em tempo

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SÃO PAULO – O procurador-geral Rodrigo Janot acertou ao não insistir no erro e anunciar investigações sobre o acordo de delação premiada firmada com executivos do grupo J&F, que pode ser cancelada por irregularidades como a omissão na apresentação de informações relevantes. No entanto, é inegável que ele sai diminuído do episódio, que, na avaliação de alguns especialistas, a depender do que for revelado, pode culminar na anulação de todas as provas do caso, embora muito se diga que ainda é cedo qualquer conclusão nesse sentido.

Por mais arriscado que fosse, a coletiva de imprensa convocada às pressas na última segunda-feira visava uma autoblindagem de Janot para o que poderia aparecer já durante o mandato de sua sucessora, a procuradora Raquel Dodge. A estratégia do PGR também consistiu em uma ofensiva ao ex-procurador Marcelo Miller em uma tentativa de manter vivas política e juridicamente as provas obtidas — o que ainda demandará tempo para se verificar. Janot também avançou sobre o Supremo Tribunal Federal, o que mais pareceu um ato de desespero, que depois mostrou-se infundado, com as citações feitas a três ministros nos áudios não passando de conversas superficiais, sem qualquer indício de ilícito.

As possibilidades de anulação das provas obtidas alçaram teorias conspiratórias e reviveram provocações que associavam o procurador-geral ao Partido dos Trabalhadores, por conta da indicação ao cargo ocorrida no momento em que o partido comandava o Poder Executivo. Nos últimos dias de se mandato, Janot luta para evitar um fim trágico, evidenciado na ironia de um de seu maior adversário no STF, o ministro Gilmar Mendes. “Ele conseguiu coroar dignamente o encerramento de sua gestão com esse episódio do Joesley. Fez jus a tudo o que plantou durante esses anos. Isso vai ser a marca que vamos guardar dele. O procurador-geral da ‘Delação Joesley’, desse contrato com criminosos, dessa fita”, provocou o magistrado em viagem oficial a Paris.

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Nas últimas semanas, o procurador-geral acelerava a apresentação de denúncias contra diversas figuras do mundo político, em uma espécie de “esquenta” para a segunda flechada contra o presidente Michel Temer. Mas parece que foi surpreendido pelo baque dos novos áudios de Joesley Batista e Ricardo Saud. Se o quadro já não era tão favorável para a apresentação de uma denúncia capaz de provocar significativos abalos ao mundo político ao ponto de ameaçar o peemedebista novamente, agora a situação fica muito negativa ao PGR. Os acontecimentos recentes dão força à narrativa que a defesa de Temer usou um mês atrás e lança suspeita sobre os próximos passos de Janot, além de outros acordos de colaboração firmados — sobretudo aqueles que tiveram as digitais do ex-procurador Marcelo Miller.

Maculado por todos esses acontecimentos, o procurador-geral tenta distribuir novas flechas para recuperar alguma credibilidade. Na véspera, apresentou denúncia com elevada carga de discurso político contra membros do PT. Foram atingidos por Janot os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, além dos ministros da da Fazenda Antonio Palocci e Guido Mantega, a presidente da sigla, senadora Gleisi Hoffmann (PR), e seu marido, o ex-ministro das Comunicações Paulo Bernardo, além dos ex-tesoureiros do partido João Vaccari e Edinho Silva, que hoje atua como prefeito de Araraquara (SP).

Por mais que a já esperada ofensiva agrade o anti-petismo, Janot não recuperará o prestígio perdido. A forma imprudente como foi firmado o acordo com executivos do grupo J&F já deixou suas cicatrizes e pode trazer impactos à própria operação Lava Jato e ao instituto da delação premiada.