A arriscada “aposta dupla” de FHC, que pode implodir candidatos de centro e eleger extremos

Não se surpreendam caso a eleição presidencial caminhe para uma reedição do que ocorreu na última disputa pela prefeitura do Rio, quando Marcelo Crivela derrotou Marcelo Freixo no segundo turno

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SÃO PAULO – Experiente e ainda influente no curso da política brasileira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tem lançado mão de uma estratégia que intriga muitos analistas políticos nessas eleições. Em meio a uma disputa marcada pela nebulosidade persistente e uma tendência maior à fragmentação do que em outros momentos, o cacique tucano busca patrocinar e manter os pés sobre duas canoas que rumam em direção ao Palácio do Planalto.

De um lado, o ex-presidente incentiva a candidatura de Geraldo Alckmin, governador de São Paulo e nome mais provável para representar o PSDB na disputa pela sucessão de Michel Temer. Neste caso, vale a leitura da experiência política e a ideia de uma aposta segura aos eleitores. Do outro, a aposta é em um outsider da política. Em meio à elevada rejeição ao establishment, trata-se de um movimento amparado no discurso da necessidade de se arejar a política e suas instituições.

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“Os dois são candidatos da preferência do presidente de honra do PSDB. Mais do que isso. É a favor deles que emprega a sua ainda extensa capacidade de articulação política”, observa a equipe de análise da MCM Consultores em relatório enviado a clientes.

“No ano passado, FHC ajudou a consolidar a candidatura presidencial de Geraldo Alckmin. Interveio na disputa entre Tasso Jereissati e Marconi Perillo pelo comando do partido quando ambos se armavam numa batalha cujo consequência poderia ser até o racha do PSDB”, lembra. O resultado, naquela ocasião, foi a desistência de ambos e a escolha do governador paulista por aclamação.

“Agora, trata de empurrar Huck para a corrida presidencial. Se fala tão bem dele em entrevistas a rádios populares é porque, nos bastidores, está, muito provavelmente, incentivando Huck a ser candidato. Deve também estar auxiliando o televisivo global a estabelecer pontes com setores da elite política e econômica do país”, complementam os analistas.

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Por trás do patrocínio a dois perfis opostos dentro da centro-direita governista, há uma estratégia de oferecer um cardápio mais variado ao eleitor que não deseja se expor à disputa mais polarizada entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ). No menu, uma opção mais conservadora, do establishment, e outra mais ousada, fora das quatro linhas do poder. Que o melhor sobreviva ao primeiro turno.

“Em tese, a diversificação das candidaturas reduziria a possibilidade de o processo eleitoral ‘sair dos trilhos’ e resultar na eleição de um populista de esquerda ou direita despreparado para presidir o país. Mas há uma chance não desprezível de a engenharia político eleitoral de FHC fracassar e, ao invés de minimizar, ampliar os riscos associados ao processo eleitoral”, pondera a equipe de análise da MCM.

Cada novo aceno de FHC em Huck prejudica a candidatura do nome anteriormente apoiado. “Se nem o presidente de honra do PSDB aposta para valer em Alckmin, caso contrário não estaria estimulando o outsider Huck, por que outros partidos o fariam?”, questionam.

Com essa movimentação, o ex-presidente, no afã de maximizar as chances de a centro-direita reformista ir ao segundo turno, pode contribuir para a configuração de um cenário de hiperfragmentação, mais próximo do que se observou em 1989. A falta de convergências torna o ambiente completamente imprevisível. “Com a profusão de candidatos e a perspectiva de que a taxa de abstenção e os votos brancos e nulos irão crescer, a eleição ganhará ares de loteria”, explicam os analistas.

Portanto, não se surpreendam caso a eleição presidencial caminhe para uma reedição do que ocorreu na última disputa pela prefeitura do Rio, quando Marcelo Crivela derrotou Marcelo Freixo no segundo turno.

Marcos Mortari

Responsável pela cobertura de política do InfoMoney, coordena o levantamento Barômetro do Poder, apresenta o programa Conexão Brasília e o podcast Frequência Política.