Sem pânico

5 motivos pelos quais a ordem mundial não terá um colapso, apesar de parecer o contrário

Ex-ministro das relações australiano, Gareth Evans ressalta em artigo ao Project Syndicate que a ordem mundial não entrará em colapso, apesar das diversas manifestações e disputas territoriais eclodindo pelos mais diversos países

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SÃO PAULO – Manifestações eclodindo, guinada de partidos de direita e disputa territorial. Os últimos tempos não tem sido nada fáceis para a ordem mundial. Com isso, até mesmo revistas menos exaltadas sobre esse assunto, como The Economist e Foreign Affairs destacam que a ordem mundial está em ruínas, que a capacidade dos EUA de tentar reverter este quadro está em declínio e que a perspectiva de evitar um novo conflito na próxima década é ilusória.

Porém, conforme aponta em artigo para o Project Syndicate, Gareth Evans não está tão pessimista sobre o cenário global. O ex-ministro das relações exteriores da Austrália e presidente do International Crisis Group destacou que, mesmo com as condições políticas globais não sendo tão boas assim, há muitas razões para se pensar que os problemas não são tão ruins como muitos estão pensando. E estas são as cinco razões mais importantes apontadas por Evans para não perder tanto sono como alguns especialistas dizem que você deve.

1º Não estamos entrando numa 2ª Guerra Fria: Rússia e China não têm o anseio de disputarem a liderança global com os EUA. “Eles estão profundamente integrados na ordem global existente e não têm nem unidade ideológica, de interesse econômico, capacidade física, nem o apoio dos aliados para gerar uma nova ordem. Eles querem mais influência nas instituições internacionais, não derrubá-las”, aponta.

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2º O declínio no poder dos EUA poder e influência da China e outras potências emergentes: é natural, inevitável, e não um motivo de alarme entre os dependentes da longa proteção e apoio dos Estados Unidos, afirma Evans. É inconcebível que os EUA poderiam ter mantido sempre o domínio unipolar desde o início da Guerra Fria, quando era responsável por cerca de 30% do PIB mundial e metade das despesas militares do mundo. 

A realidade é que, em termos absolutos, o poder econômico e militar dos EUA ainda é enorme, e que eles têm – e terão no futuro – muito mais aliados, amigos e influência do que qualquer um dos seus concorrentes. O que importa é como ele agora opta por exercer esse poder.

 Sempre houve ambição de potências por mais espaço e influência: isto é um dado e não é remotamente inevitável que esta missão terá a forma militar. Todo mundo tem muito a perder. As grandes potências mundiais são muito mais interdependentes financeiramente e em termos de cadeias de suprimento do que eram em 1914 – o ano de otimismo equivocado que os pessimistas gostam de citar – e os horrores do século XX mudaram fundamentalmente o ambiente normativo. Belicismo – a noção de que a guerra é nobre, e pode ser justificada pela purificação e limpeza – está morta além da redenção, afirma.

4º Declínio no poder militar para resolver geopolítica é bom sinal: para Evans, não é um sinal de que os responsáveis são fracos, mas que são adultos. A credibilidade dos EUA não está em risco, tanto para os seus aliados ou inimigos, quando se faz escolhas cuidadosamente calibradas sobre o equilíbrio de risco e retorno em usar tal força em casos particulares. “Se os dias de cowboy de George W. Bush não existem mais, isso deve ser aplaudido, não lamentado”, destaca. 

5º Sistema internacional tem respondido aos desafios geopolíticos: e mais eficazmente do que é geralmente reconhecido. Segundo Evans, apesar da crise em seu relacionamento com a Crimeia, os EUA e a Rússia têm continuado a trabalhar em conjunto para negociar uma solução diplomática para a questão nuclear iraniana e desenvolve com a China respostas coletivas do Conselho de Segurança a sucessivas crises na África.

“Em quase todas as áreas de maior rivalidade de poder, questões potencialmente voláteis são compartimentadas, enquanto a cooperação continua”, ressaltam. Mas ele avalia que os políticos não podem ser complacentes: não há fim à vista para o pesadelo sírio, a trégua no leste da Ucrânia parece temporária e as relações sino-japonesas ficam cada vez mais passionais. E não há avanços em discussões como redução de armas nucleares. 

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“Mas o pessimismo alarmista, derrotista, precisa ser contestado. Há uma abundância de razões para acreditar que, em áreas mais importantes, aprendemos imensamente com os erros do passado. Se conseguirmos manter a calma e sensatez, o pior deles não vai ser repetido”, finaliza.