Nas mãos do governo

4 pilares fundamentais para Petrobras retomar os níveis de crescimento pré-PT

Última década se tornou o pesadelo da estatal; entre 2003 e 2012, a empresa viu seu lucro crescer apenas 19%, enquanto entre 1994 e 2002 a expansão foi de 568%, segundo cálculos da Economatica

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SÃO PAULO – A Petrobras (PETR3; PETR4) já não é a mesma empresa desde 2002. Com lucros em declínio desde o pico em 2010, a estatal precisa fazer mais do que pode para voltar a ter um maior grau de aderência dos acionistas, que atualmente caminham em corda bamba em meio às interferências do governo e às necessidades da empresa em importar gasolina e diesel – fatores que vêm ajudando a sangrar o caixa da companhia. 

A última década marcou um importante período para a empresa: em 2007, a petroleira brasileira descobriu 40 bilhões de barris de petróleo no pré-sal, que colocaram o Brasil diante de perspectiva de se tornar um grande exportador mundial. Mas esse período de brilho do setor contrasta com dados alarmentes: de acordo com balanços da própria Petrobras, entre 1995 e 2002, a produção de petróleo cresceu 109,5%; já entre 2003 e 2012, o crescimento foi de 27,60%. 

A grandeza do pré-sal coloca em curso o processo de “destruição” da companhia. O governo passou a exigir demais de uma empresa só em meio às promessas de fortunas milagrosas, criando uma sensação de que a companhia tem fôlego para fazer vultuosos investimentos, mas que no futuro podem se mostrar grandes desastres.  

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Um levantamento feito pela Mirae Asset Global Investments indica que cerca de 36% dos ativos do balanço da Petrobras não geram lucro atualmente. São investimentos que ainda não deram retorno, usinas paradas ou velhas e áreas de negócio pouco competitivas. Ou seja, aproximadamente R$ 250 bilhões em patrimônio que empurram a Petrobras para baixo. 

A construção de quatro refinarias entra nessa categoria. Com mais de 16 bilhões de barris em reservas provadas, a Petrobras deveria concentrar esforços em exploração e produção de campos de óleo e gás. No entanto, vem enterrando em refino um terço do seu orçamento, ou R$ 32 bilhões em 2012. “A rentabilidade desse negócio é muito baixa, e ainda deve-se levar em consideração que parte das refinarias não conseguirão cobrir os custos de capital da empresa. É quase impossível isso acontecer”, disse Oliver Leyland, que ajuda a administrar cerca de R$ 1 bilhão em ações, incluindo as da Petrobras, na Mirae Asset Global Investments. A margem de lucro de uma refinaria não passa de 5%, enquanto a exploração gera uma rentabilidade de 35%.

Segundo Leyland, “a preocupação com a empresa vem aumentando a medida que a produção dos poços vai caindo. A questão é saber até que ponto os novos ativos podem reverter esse cenário”. A empresa vem sofrendo com paradas das plataformas para manutenção e baixa produtividade do pós-sal – especialmente na Bacia de Campos -, que ainda responde por mais de 90% da produção total, e cujos campos estão em declínio de produtividade por estarem maduros.

O “pesadelo” da Petrobras
De acordo com dados da Economatica, a última década se mostrou um “pesadelo” para a empresa. Desde o fim de 2002 até 2012, a Petrobras viu seu lucro crescer apenas 48,11%, enquanto entre o término de 1994 e 2002 o crescimento foi de 232,99%. 

entrada do governo petista no poder coincide ainda com crescimento menor no valor de mercado, ao passo que a dívida líquida aumentou, em comparação com a época em que Fernando Henrique Cardoso governava o País. A receita líquida, por sua vez, expandiu praticamente no mesmo patamar em cada governo. Veja a tabela abaixo:

Em milhões R$*PSDBPT
19942002%20022012%
Receita Líquida52,033

122,178

+130,38%122,178281,379+130,30%
Lucro Líquido 4,29514,302+232,99% 14,30221,182 +48,11% 
Valor de Mercado 32,29096,176+197,85%96,176254,852+164,99% 
Dívida Líquida 8,93733,428+274,04% 33,428147,370+340,86%
*Valores ajustados pelo índice de inflação IPCA

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Esse cenário foi reforçado no último balanço da companhia. A estatal encontra-se envolta em um mar de lama, causado pela transformação da companhia num instrumento usado pelo governo para controlar a inflação. “Todo o barulho do atual governo é para conter a inflação, e não para voltar a ver a Petrobras como a queridinha do mercado”, apontou Leyland.

A Petrobras mostrou em seu balanço anual de 2012 uma queda de 36% do seu lucro líquido – o menor dos últimos oito anos. Os custos de operação dobraram em seis anos, enquanto a produção tem avançado a passos tímidos e o preço da gasolina vem sendo mantido baixo por quatro anos, resultando num aumento do endividamento, que hoje corresponde a 2,8 vezes sua geração de caixa.  

“A Petrobras já não é a mesma empresa de anos atrás, que apesar de uma estatal via menos influência do governo e tinha um grau maior de aderência dos investidores estrangeiros. Hoje, vemos uma Petrobras utilizada como ferramenta para algumas manobras do governo, como controle da inflação – e isso não deixa a conta da empresa fechar no positivo no final do ano”, disse Sérgio Quintella, diretor da Valore Investimentos Personalizados.

A empresa paga mais pelo petróleo e diesel importados do que é autorizada a cobrar no Brasil. Um quadro que tem aproximado a Petrobras a níveis insustentáveis de endividamento, ao passo que a empresa ainda precisa fazer uma série de investimentos para que não precise mais importar o combustível. 

“Sinuca de bico” está formada
Mas no ritmo atual, é bastante provável que faltem recursos para manter o cronograma de investimentos. E, nesse ponto, indica Quintella, a “sinuca de bico” está armada para a Petrobras: para cumprir o plano de negócios, de 2012 a 2016, a empresa pode ser obrigada a arrumar alguma maneira de se financiar, seja emitindo dívida ou ações, e isso levaria a um problema ainda maior, que poderia ser desde uma forte diluição dos papéis, o que faria as ações se desvalorizarem ainda mais, a um aumento de sua alavancagem – que já encontra-se num nível alarmante; caso ultrapasse a barreira de 3,5 vezes sua geração de caixa, a Petrobras pode ter seu rating cortado pelas agências de classificação de risco. Basicamente, um rating menor para a companhia deixaria empréstimos mais caros, o que limitaria a capacidade de investimentos.

Companhias de petróleo dependem de crédito barato para tornar seus projetos viáveis. Como poços de petróleo levam anos para produzir e começar a gerar receitas, e a exploração custa uma fortuna, é fundamental que as empresas consigam financiamentos competitivos, uma vez que taxas altas podem inviabilizar investimentos.  

Os quatro pilares fundamentais da Petrobras
Mas, segundo Leyland, dá para melhorar esse quadro. São quatro pilares fundamentais para a companhia voltar a crescer aos níveis de uma década atrás: definir prioridades (com 36% dos negócios não rentáveis, a empresa poderia seguir o plano de vender parte dos ativos, o que já traria um alívio financeiro); reajustar novamente os preços dos combustíveis; cortar custos e eliminar o monopólio do pré-sal (a empresa precisa ser sócia de todos os blocos de exploração, o que pressiona o seu caixa).

O último ponto, contudo, é mais difícil de ocorrer; e enquanto não criar uma outra alternativa, o risco só aumenta com o próximo leilão marcado para o mês de novembro. “A empresa tem o compromisso de participar, mas a questão é: o dinheiro virá de que lugar?”, interroga Leyland.

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“Isso é mais um fardo no balanço da empresa, e que deve pesar até o final deste ano, a não ser que tenha uma melhora significativa na produção e reajuste nos preços, mas a chance de ocorrer uma melhora é bem baixa”, aponta. A estimativa do mercado é que a produção de petróleo fique estável este ano, e em 2014 pode trazer alguma melhora, mas com crescimento de um dígito.

Em meio às desconfianças do mercado em relação à sua capacidade de melhorar o resultado operacional, a estatal, que chegou a ser a segunda maior petroleira do mundo em valor de mercado, atrás apenas da gigante norte-americana Exxon Mobil, hoje ocupa a oitava posição no ranking. Não é nem mesmo a maior da América Latina – perdeu o posto para a Ecopetrol, que fatura 70% menos e tem 12% das reservas. 

Diante desse cenário, a empresa encerrou o mês de fevereiro com mais uma marca histórica: registrou seu terceiro pior bimestre. Nos dois primeiros meses deste ano, a estatal viu seu valor de mercado recuar R$ 53,9 bilhões, segundo cálculos da Economatica. E desde o fim de 2010, a empresa perdeu R$ 179,3 bilhões em valor de mercado – passou de R$ 380,2 bilhões para R$ 200,9 bilhões no último dia 28 de fevereiro.