Entrevista

2015 foi ano em que o “transatlântico Brasil” bateu no iceberg, diz Giambiagi

Economista, que lançou recentemente o livro "Capitalismo: Modo de Usar", destacou em entrevista ao InfoMoney que o Brasil começou a "virar o leme", mas que sofre as consequências por anos de políticas erradas

SÃO PAULO – Em tempos de crise, a economia e os seus dados ruins acabam dominando o noticiário. Contudo, muito ainda deve ser feito para ensinar os brasileiros os fundamentos da economia.

Tendo em vista este cenário, o economista e especialista na área de finanças públicas Fabio Giambiagi lançou o livro “Capitalismo: Modo de Usar”, com linguagem não direcionada a economistas. Na publicação, Giambiagi destaca que o progresso futuro está rigorosamente atrelado às leis do capitalismo, como a valorização da competitividade e do empreendedorismo, e que o fato do Brasil ainda lutar ideologicamente contra o capitalismo alimenta o subdesenvolvimento do Brasil. 

Em entrevista ao portal InfoMoney, o economista destaca que o ciclo de esgotamento econômico atual, baseado em estímulos ao consumo e gastos mais altos, pode ser sim uma oportunidade para o Brasil ter uma virada, mas que depende de uma condução política adequada. Giambiagi ainda critica a morosidade do Brasil em realizar mudanças e remonta à metáfora de que o Brasil é um transatlântico, que demora a mudar de rumo. Porém, em 2015, este foi o ano “em que o transatlântico bateu no iceberg” e uma mudança de rota pode estar à vista. “Tenho a esperança de que o desfecho dessa crise ainda poderá se revelar positivo”, avalia. 

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Confira a entrevista completa abaixo: 

InfoMoney – O esgotamento do ciclo econômico que vivemos nos últimos anos e que tinha como base uma visão mais paternalista do Estado, pode ser um passo para trás para depois conseguirmos, como sociedade, fazermos uma autocrítica e darmos dois passos para frente?

Fabio Giambiagi – Pode, mas desde que haja uma condução política adequada. O papel da liderança política é importante para isso, para organizar a revisão de conceitos por parte da sociedade. Esses processos não brotam por geração espontânea e tendem a ser desorganizados. Cabe à liderança conduzir as reformas de que o país precisa.

IM – Em seu livro, o senhor usa uma metáfora de Fernando Henrique Cardoso, que compara o Brasil a um transatlântico pela falta de destreza e demora em mudar de rumo. Em que medida o ano de 2015 está sendo significativo para mudar o rumo da economia?

FG – Eu diria que 2015 é o ano em que o transatlântico bateu no iceberg. E isso ocorreu porque estávamos há muito tempo no rumo errado e, mesmo quando o novo ministro [da Fazenda], Joaquim Levy, começou a tentar virar o leme, não houve como o país não sofrer as consequência pela rota errada que vinha sendo seguida há anos.

IM – No Brasil, os políticos refletem o que pensa e o que quer o povo brasileiro? Como eles podem equilibrar sua popularidade ao mesmo tempo em que mudam o papel do Estado na sociedade?

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FG – Vale um pouco o paralelo com a época de alta inflação. Naquela época, havia uma resistência muito grande a que, por ocasião da estabilização, as pessoas renunciassem à ideia do que se chamava na época de “correção pelo pico”, com todos querendo ter durante o ano o poder aquisitivo que só se podia ter logo depois do reajuste.

A estabilização foi possível quando essa ideia passou a ser aceita, dado que os prejuízos daquela inflação elevadíssima estavam se tornando insuportáveis.

A sociedade pode estar mais disposta a mudar de posição sobre certas posturas dela, se o custo de manter o rumo tradicional se tornar proibitivo. O papel do bom político é tentar mostrar isso antes de que o país chegue a uma situação extrema.

IM – A queda de mitos, a falta de um líder forte com o discurso de “pai dos pobres” como Getúlio Vargas e, mais recentemente, Lula, pode representar um progresso sobre o que a população espera do Estado? Ou seria necessária uma mudança inversa: mudar primeiro a cabeça do eleitor para que ele não buscasse mais este determinado tipo de liderança política?

FG – Ambos fenômenos podem convergir. Por um lado, é razoável imaginar que haja uma fadiga com as políticas que Lula defendia, até porque os ônus dela estão aparecendo de forma mais clara.

Ao mesmo tempo, fenômenos como uma maior escolarização da população, a urbanização, o maior alcance da televisão e a intensificação do debate político podem ir modificando com o passar dos anos o pensamento médio do brasileiro.

IM – Um dos temas em voga atualmente é a bomba da Previdência. Houve a votação pelo fim do fator previdenciário [depois vetada por Dilma], o que traz perspectivas ainda mais alarmistas para o País com relação a essa questão, e ainda com aval da oposição que, quando esteve no governo, criou o fator. O populismo econômico está em todos os partidos?

FG – A rigor, não houve propriamente a extinção do fator previdenciário e sim uma limitação do número de situações em que ele se aplica. Esse ato do Congresso foi um momento ruim da democracia brasileira. Foi um ato irrefletido, no qual a oposição, especificamente, se deixou guiar pelo fígado. Às vezes, os países cometem erros. Esse episódio correspondeu a uma dessas situações.

IM – Estamos condenados, por conta do nosso espírito “anticapitalista”, a sermos sempre o país do futuro?

FG – Espero que não e o livro pretende ser uma modesta contribuição a que não seja assim. A opinião pública é influenciada pela opinião publicada e as ideias cumprem seu papel no debate político. Nos anos 80, a economia estava muito mal, mas houve uma evolução das ideias econômicas que esteve por trás da mudança operada no Brasil nos anos 90. Já na década passada, houve uma regressão. Eu acredito que cedo ou tarde o pêndulo da História vai se movimentar de novo.

IM – Em 2013, muito se falou que a pauta das manifestações era vaga, ao exigir mais do governo, mas sem mostrar uma direção exata do que a população queria. Até mais do que isso, aquelas manifestações mostraram uma uma certa contradição da população sobre o que ela quer?

FG – Sem dúvida. Eu sou um crítico daquele processo. Primeiro, porque ele se originou de uma reivindicação economicamente absurda, como é a ideia de que os ônibus não devem ter reajuste, o que é uma aberração no contexto de uma inflação anual não desprezível.

Segundo, porque traduzia uma pretensão impossível (a ideia de “padrão FIFA” para tudo), pelo fato de que aquilo que é objeto de um esforço específico não poder ser reproduzido em escala massiva. É possível construir 10 estádios de primeiríssimo nível, mas é impossível ter atendimento de saúde de primeiríssimo nível para 200 milhões de pessoas num país de renda média. E terceiro, pela tolerância com os “black blocs”, o que pessoalmente julgo inadmissível.

IM – Muito se fala que os períodos de crise podem representar também uma oportunidade, também de reflexão para a sociedade. O senhor vê que neste momento está havendo um maior engajamento da população em buscar se informar mais sobre os assuntos políticos e econômicos que mexem com o País? O livro busca contribuir para essa reflexão?

FG – O livro tem a pretensão de ser uma contribuição nesse sentido. A manifestação da população procurando se expressar de forma pacífica, como nas manifestações de 2015, é muito mais saudável que o “surto” caótico de 2013. O fato de estarmos a mais de 3 anos das próximas eleições presidenciais, obviamente, torna mais difícil que haja mudanças mais profundas de forma imediata.

Ao mesmo tempo, em que pese estarmos vivendo um cenário de horror na economia, aquilo que está acontecendo no âmbito da Justiça expressa um movimento tectônico do país como há muito tempo não se via. [Antonio] Gramsci dizia que a crise consiste do fato de que o velho morreu sem que o novo tenha ainda nascido. Penso que há elementos de um Brasil novo que está nascendo, com maior consciência política, reconhecimento dos males do estatismo excessivo e uma Justiça mais atuante.

Tenho a esperança de que o desfecho dessa crise ainda poderá se revelar positivo, embora obviamente passar por três anos de crise muito séria, incluindo aí a perspectiva de 2016, implique atravessar uma fase terrível.