Steve Wozniak antes e depois da Apple; a trajetória do engenheiro eletrônico mais famoso e rico do mundo

Conheça a história de Steve Wozniak, o engenheiro eletrônico que ajudou a moldar a indústria da computação ao criar, com Steve Jobs, o Apple I – primeiro computador da empresa

Nome completo:Stephen Gary Wozniak
Ocupação:Cofundador da Apple, engenheiro eletrônico, programador e filantropista
Local de Nascimento:São José, Califórnia, Estados Unidos
Data de Nascimento:11 de agosto de 1950
Fortuna:US$ 100 milhões

Quem é Steve Wozniak?

Steve Wozniak é um homem de muitas identidades. Sua certidão de nascimento informa que ele se chama Stephan, mas sua mãe queria que fosse Stephen – grafia que ele adotou mais tarde. Ele é conhecido como Steve ou, simplesmente, Woz. Mas também já usou pseudônimos como “Berkeley Blue”, para atuar como hacker de telefones em uma era pré-computadores, e “Rocky Racoon Clark”, para terminar a graduação na Universidade de Berkeley.

A história de Steve Wozniak se mistura com a revolução do computador pessoal. Isso porque Woz é um engenheiro eletrônico e programador que se juntou a outro Steve, o Jobs, para fundar em 1976 aquela que viria a ser a maior companhia de tecnologia da informação e a empresa listada em bolsa mais valiosa do mundo: a Apple.

Jobs precisou convencer Woz a se demitir de seu trabalho como engenheiro na HP. Depois de construir, artesanalmente, um dos primeiros computadores pessoais do mundo, o Apple 1 – o primeiro a usar um teclado para digitação e ter uma tela de vídeo – , Woz também montou o Apple 2, um dos primeiros microcomputadores fabricados em larga escala.

Após deixar a Apple, em 1985 (apesar de continuar até hoje registrado como funcionário e receber um salário simbólico da empresa), Woz criou o primeiro controle remoto universal e seguiu carreira como professor de tecnologia para crianças. Em 2017, ele fundou a Woz U, uma plataforma educacional focada em engenharia de software e desenvolvimento tecnológico.

Com 10 títulos de doutorado honorários em engenharia, além do status de “estrela pop”, o introvertido geek passou a ser chamado para uma série de participações em programas de televisão como a série The Big Bang Theory, o talk show de Jimmy Fallon e até mesmo a versão americana da Dança dos Famosos.

Família e formação

Steve Wozniak nasceu e cresceu em San José, na Califórnia. Sua mãe, Margaret Louise Wozniak, queria que o filho fosse registrado como Stephen. Mas, por um erro, sua certidão de nascimento foi registrada com o nome de Stephan Gary Wozniak. Em homenagem ao desejo da mãe, ele adotou a grafia. Woz afirma que também deve a ela seu senso de humor peculiar.

Steve, o primogênito, e seus irmãos cresceram sem conhecer detalhes sobre o trabalho do pai, Francis Jacob “Jerry” Wozniak. Na família, era proibido perguntar sobre o emprego do patriarca que, anos antes, havia atuado como jogador de futebol americano, com relativo sucesso.

Tudo que ele sabia era que o pai era engenheiro de um programa de mísseis na Lockheed, uma companhia aeroespacial americana com diversos contratos militares ultrassecretos com o governo dos EUA. Mesmo depois de crescido, e depois do fim da Guerra Fria, Wozniak nunca conseguiu fazer com que o pai contasse o que, de fato, fazia no trabalho.

Com o pai, Steve aprendeu sobre a importância da honestidade e herdou a curiosidade pela eletrônica. O pequeno Woz recebia componentes eletrônicos para brincar, montando rádios, transmissores e antenas.

Na época, Wozniak dividia seu tempo entre o grupo de amigos nerds com quem bolava todo tipo de projeto (como um interfone residencial que conectava seis casas da rua – todas de amigos seus) e atividades esportivas como beisebol, natação, futebol americano e corrida.

Woz também era famoso por suas brincadeiras. No último ano do Ensino Médio, montou um metrônomo e o empacotou como uma bomba. Na embalagem, escreveu a mensagem: “explode ao ser tocado”. Wozniak deixou o pacote no armário de um colega e achou que o trote não teria grande repercussão. Até que ele foi chamado pelo diretor da escola, que o aguardava com dois policiais. Steve foi levado pela polícia e passou uma noite na detenção de menores pela brincadeira.

Sem acesso a um computador ou aulas de computação, Woz aprendeu a programar sozinho, com livros, lápis, papel e milhares de horas de dedicação.

Steve Wozniak, John Sculley e Steve Jobs
Steve Jobs (à esquerda) e Steve Wozniak (à direita) ao lado de John Sculley (Crédito: Bettmann / Getty Images)

De estudante a milionário

Quando chegou o momento de ir para a faculdade, Woz escolheu a Universidade do Colorado. Mas ele foi expulso após hackear sistemas da universidade para passar trotes em colegas.

De lá, ele foi para a Universidade da Califórnia, em Berkeley, decidido a ser um engenheiro. “São aqueles que fazem produtos que tornam as nossas vidas mais fáceis. Um dia, os engenheiros criarão produtos que farão as pessoas trabalharem apenas quatro dias por semana. Essa era a minha motivação”, disse Woz em uma palestra décadas depois.

Em junho de 1971, Wozniak desenhou e construiu seu primeiro computador, com a ajuda do amigo Bill Fernandez, que viria a ser um dos primeiros funcionários da Apple.

Mas não eram apenas computadores que Woz construía. Ele desenvolveu um estilingue gigante, capaz de atirar ovos em um telefone público que ficava em frente ao dormitório estudantil. Esse mesmo orelhão era usado em outros tipos de brincadeiras de Woz, como enchê-lo de creme de barbear. Quando fazia isso, a turma voltava para o dormitório e ligava para o número do telefone: a vítima que atendia conseguia ouvir apenas as risadas de Woz dizendo que se tratava de uma propaganda de espuma de barbear.

Antes mesmo de se formar, a dedicação aos estudos rendeu a Woz um trabalho como engenheiro na Hewlett-Packard. Na HP, ele trabalhou em projetos que, mais tarde chamaria de “iPhone daquela época”: o desenvolvimento das calculadoras científicas.

Na empresa, Wozniak conheceu um jovem cinco anos mais novo, que ainda estava no Ensino Médio e frequentava alguns treinamentos da companhia: Steve Jobs, que era amigo de um colega de faculdade. Apaixonados por computação (e trotes), ambos logo ficaram amigos, se envolvendo em uma organização local chamada Homebrew Computer Club, onde eles passavam horas discutindo e testando hardwares e softwares.

Em 1971, a dupla iniciou seu primeiro projeto: Woz montava “blue boxes”, um dispositivo que permitia ao seu portador fazer ligações de longa distância sem pagar nada por isso – e Jobs as vendia. Mas a empreitada não durou muito tempo.

Woz topava qualquer experimento que o apresentassem na HP. Em 1975, ele começou a trabalhar no que viria a ser o Apple I e, por cinco vezes, tentou convencer a HP a abraçar a ideia. Mas, na época, a companhia estava focada em suas calculadoras. Mas Wozniak conseguiu terminar o protótipo ainda assim. Em 29 de junho de 1975, pela primeira vez, uma televisão transmitiu uma imagem gerada por um computador caseiro.

No ano seguinte, quando mostrou a Jobs o projeto que estava desenvolvendo, ouviu: “Isso é incrível, você precisa vender isso!”. Assim, Woz foi convencido a fabricar o computador e vendê-lo, usando o argumento de que, mesmo que a empreitada desse errado, eles poderiam contar aos netos que já haviam sido donos de uma empresa.

Para conseguir dinheiro, Jobs vendeu seu carro e Woz, sua calculadora. Eles juntaram US$ 1.300 e começaram a construir os computadores na garagem da família Jobs. Nascia assim a Apple Computer Company (hoje, Apple Inc.), batizada por Jobs, que havia trabalhado num pomar pouco tempo antes.

A dupla vendeu os 50 primeiros Apple I para uma loja em Mountain View, por US$ 666 cada. Era o primeiro computador com interface de vídeo no mercado americano.

O sucesso desse computador fez a Apple a ser conhecida e receber um aporte de US$ 600 mil de Mike Markkula, um ex-executivo da Intel. Markkula também convenceu Woz a deixar seu emprego na HP para se dedicar integralmente à Apple.

A decisão valeu à pena. Em 1977, nasceu o Apple II, com gráficos coloridos que permitiam que os programadores criassem aplicativos e personalizassem seus equipamentos. Em pouco tempo, já havia mais de 15 mil aplicativos disponíveis para a máquina.

O primeiro aplicativo a fazer sucesso trazia algo que hoje é considerado bastante prosaico: planilhas. Com elas, um homem de negócios começava a ver funcionalidades para computadores. Os outros computadores pessoais vendidos na época não tinham memória suficiente para rodar planilhas, mas o Apple II, construído com possibilidades de expansão de memória, conseguiu chegar lá. Com isso, esse foi um dos primeiros microcomputadores de maior sucesso produzido em massa.

Em 12 de dezembro de 1980, a Apple abriu seu capital. Jobs e Woz conseguiram mais do que abrir uma empresa: eles viraram milionários.

Outros caminhos

No ano seguinte, viria o Macintosh, o primeiro computador com mouse e interface gráfica. Mas, no meio do projeto, Woz sofreu um acidente de avião, que lhe rendeu diversos ferimentos e perda de memória

Após sua recuperação, Woz se afastou da Apple. Preferiu voltar para Berkeley e terminar seu curso. Como já era famoso, precisou usar outro nome no curso: seu diploma foi concedido a um tal “Rocky Racoon Clark”. Wozniak também começou a dar aulas no ensino fundamental de escolas da região do Vale do Silício.

Woz também se aventurou pelo mundo de festivais de música e tecnologia. Mas, depois de perder dinheiro, acabou voltando para a Apple em 1982. A companhia já havia crescido muito e Woz não tinha interesse em gerenciar equipes, como fazia antes de se afastar: ele queria apenas criar coisas novas. E foi com essa função que retornou.

Quando Woz e Jobs começaram a Apple, a memória suficiente para gravar uma música custava cerca de US$ 1 milhão. O Apple 1 não tinha nenhuma patente registrada porque Woz queria um ambiente totalmente aberto. O mundo tinha mudado e a forma de fazer computadores também.

Em meio a conflitos internos entre as equipes de engenheiros e produtos e sendo empurrado novamente para funções de gestão que não queria ter na companhia, Woz saiu novamente da Apple em 1985, dizendo que a empresa estava indo para o caminho errado, se desfazendo de boa parte de suas ações.

Para a maioria das pessoas, se desfazer de ações de uma companhia que viria a se tornar a maior empresa em valor de mercado de capital aberto do mundo pode parecer muito azar. Mas isso não é um problema para Woz. Em diversas ocasiões, mostrou um certo desprezo pela acumulação de riquezas.

Em entrevista para a revista Fortune em 2017, Wozniak afirmou: “Não queria estar perto do dinheiro, porque isso poderia corromper seus valores.” Quando a Apple abriu seu capital, por exemplo, Woz dividiu cerca de US$ 10 milhões de suas próprias ações com alguns dos primeiros funcionários da empresa.

A vida depois da maçã

Após sair da Apple, Woz fundou a CL9. Na nova empreitada, lançou o primeiro controle remoto universal. Steve também criou uma fundação dedicada ao ensino da programação, promovendo a capacitação de professores e a doação de equipamentos.

Em 2001, Wozniak fundou a Wheels of Zeus (WOZ) para criar tecnologia GPS para ajudar todas as pessoas a encontrar todas as coisas de maneira mais fácil. Ele também ocupou o cargo de cientista-chefe na companhia de software Fusion-io, e foi um dos cofundadores da Comic Con do Vale do Silício, a convenção anual que reúne fãs de games e quadrinhos. Em 2017, ele fundou a Woz U, uma plataforma de educação à distância.

Steve Wozniak e Stan Lee na Comic Con de 2016
Steve Wozniak e Stan Lee na Comic Con de 2016 (Crédito: Kelly Sullivan/Getty Images)

Apesar de ter saído da Apple magoado, sua amizade com Steve Jobs foi retomada tempos depois. Woz lamentaria, inúmeras vezes, a morte do amigo com quem fundou a companhia de maior valor de mercado do mundo. Seus laços com a Apple também não foram completamente cortados. Ele continua sendo funcionário da empresa e recebe um salário de cerca de US$ 50 por semana, que ele chama de simbólico, mas fruto de lealdade.

Estilo de vida e filantropia

Woz se tornou maçom por influência da primeira esposa, Alice Robertson. Mas deixou a maçonaria pouco tempo depois, porque sua personalidade geek e tecnológica não se adequava muito bem.

Wozniak foi criado em uma família de cristãos e um dos seus tios foi ordenado padre, mas, hoje, Woz se define como ateu ou agnóstico.

Ao longo de sua vida, Woz se casou quatro vezes e teve três filhos, todos com sua segunda esposa, a ex-atleta de canoísmo Candice Clark. Antes do casamento com a atual mulher, Janet Hill, Woz namorou a comediante e atriz Kathy Griffin e se casou com Suzanne Mulkern.

Bastante envolvido com educação, Woz é o fundador-patrocinador do Tech Museum, do Silicon Valley Ballet e do Children’s Discovery Museum de San Jose, além de ser um dos fundadores da Electronic Frontier Foundation, uma organização não governamental que apoia direitos digitais.

Ele também transformou a Un.U.Son., ou Unite Us In Song, sua entidade criada para organizar festivais de música, em uma instituição para apoiar projetos educacionais.

Com 10 títulos de doutorado honorários em engenharia e uma Medalha Nacional da Tecnologia, honraria concedida pelo então presidente Ronald Reagan, a figura de Woz acabou se transformando em uma estrela pop.

Ele contorna sua timidez usando piadas e brincadeiras nas suas apresentações e palestras e já fez aparições em uma série de programas de televisão, como The Big Bang Theory, onde interpretou a si mesmo e até mesmo o Dancing with the Stars (o formato que inspirou a Dança dos Famosos brasileira).

Hoje, quando não está viajando pelo mundo em projetos sociais, Wozniak vive em Los Gatos, na Califórnia, com a esposa Janet Hill e quatro cachorros da raça Bichon Frisé. Ele também é um praticante e entusiasta do Polo de Segway, um esporte de equipe que usa as regras do polo tradicional, mas, em vez de estar em cima de um cavalo, os jogadores estão em diciclos motorizados. Um esporte peculiar, como quase tudo que Woz faz.

Para saber mais

Livros

  • iWoz: A verdadeira história da Apple segundo seu cofundador (Steve Wozniak)

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