Marcelo Odebrecht: de presidente de um conglomerado a alvo da Lava-Jato

Afastado dos negócios desde 2015, o empresário responde atualmente por 40 processos iniciados com a operação

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Nome completo:Marcelo Bahia Odebrecht
Data de nascimento:18 de outubro de 1968
Local de nascimento:Salvador, Bahia
Formação:Engenharia Civil pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), MBA pela IMD Business School (Suíça)
Ocupação:Empresário

Quem é Marcelo Odebrecht?

Marcelo Bahia Odebrecht é um engenheiro civil que presidiu o grupo Odebrecht de 2008 a 2015, um dos maiores conglomerados de engenharia e construção da América Latina antes da operação Lava-Jato.

Sua trajetória profissional foi interrompida quando veio à tona um esquema de propinas, que existia há décadas, envolvendo a Odebrecht e esferas do poder público. Em junho de 2015, sob denúncias de corrupção, Marcelo foi preso para cumprir mais de 19 anos de prisão, pena que reduziu posteriormente até chegar a sete anos e meio.

Pela abrangência do esquema e volumes financeiros negociados, o caso Odebrecht é considerado o maior escândalo de corrupção da história recente do Brasil. De lá para cá, a empresa, que hoje se chama Novonor, minguou de tamanho. Primeiro, por causa da Lava-Jato; depois, pela retração econômica durante a pandemia, que atingiu fortemente todas as empresas do setor.

Com dívidas que ultrapassam R$ 4,6 bilhões, a Odebrecht Engenharia e Construção (OEC), da Novonor, pediu recuperação judicial no final de junho de 2024. Segundo o plano da empresa, a ideia é fortalecer o caixa e ampliar os projetos com um empréstimo de R$ 650 milhões.

Origem e trajetória

Nascido em 18 de outubro de 1968 em Salvador, Bahia, Marcelo Odebrecht é filho de Emílio Alves Odebrecht e Regina Bahia, e o mais velho entre três irmãos. 

Pessoas próximas costumam apontar entre as principais características do empresário a inteligência pragmática, o foco e a organização, sendo inclusive considerado um workaholic, com capacidade de concentração acima da média para o trabalho. Não à toa, foi preparado para suceder seu pai no comando do grupo criado por seu avô, o imigrante alemão Norberto Odebrecht, que chegou ao Brasil na segunda metade do século XIX.

Em 1944, fundou a construtora que levou o seu nome, atuando inicialmente em Salvador. Tempos depois, expandiu as atividades para outras localidades do Nordeste, até que, nos anos 70, as obras alcançaram outros estados.

Desde jovem, Marcelo acompanhava a rotina do pai e do avô na empresa, o que lhe fez optar por uma formação que lhe desse condições de assumir a liderança futura do negócio. Assim, formou-se em Engenharia Civil na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e se especializou em uma das melhores instituições de negócios do mundo – a IMD Business School, na Suíça.

Seu início no grupo foi como engenheiro, responsável por obras em Salvador. Posteriormente, trabalhou nas subsidiárias inglesa e americana do conglomerado, e voltou ao Brasil para atuar na consolidação do setor petroquímico. Ao longo dos anos, o grupo Odebrecht havia adquirido empresas do segmento, que se fundiram em 2002 dando origem à Braskem.

Já no início das atividades da Braskem, Marcelo assumiu a área de engenharia e construção da empresa, cargo no qual permaneceu até 2008, quando se tornou presidente do grupo, aos 40 anos de idade. Com a prisão, renunciou ao comando da Odebrecht em dezembro de 2015.

O caso Odebrecht

Em março de 2014, a operação Lava-Jato começou a investigar um esquema de corrupção que, tempos depois, revelaria a ligação entre a Petrobras e importantes construtoras brasileiras – entre elas, a Odebrecht. 

A investigação do Ministério Público Federal (MPF) contou com a participação dos EUA e Suíça, teoricamente por causa de contas utilizadas nesses países. Na ocasião, chegou-se à conclusão que Odebrecht e Braskem pagaram propinas acima de um bilhão de dólares a governos, partidos políticos e empresários de 12 países, incluindo o Brasil. Em troca, as empresas recebiam vantagens em relação aos concorrentes nas licitações das quais participavam.

Embora o esquema tenha vindo a público somente em 2015, ele havia surgido algumas décadas antes. Como parte do acordo de delação premiada da empresa, Emílio Odebrecht declarou ao MPF, em dezembro de 2015, que a construtora mantinha esse tipo de relação com a classe política há mais de 30 anos.

“O que nós temos no Brasil não é um negócio de cinco ou dez anos. Estamos falando de 30 anos. Tudo o que está acontecendo é um negócio institucionalizado, uma coisa normal, em função desse número de partidos envolvidos”, disse Odebrecht ao MPF.

Como funcionava o esquema

Ao longo dos anos, com o crescimento do grupo e cada vez mais obras acontecendo no Brasil, a Odebrecht precisou montar uma rede gigante e complexa que administrasse o esquema de propinas. Para isso, utilizou-se de empresas fantasmas e abriu contas em diferentes países.

Em 2006, o grupo criou um departamento chamado de “Divisão de Operações Estruturadas”, que se dedicava exclusivamente a gerenciar o pagamento das propinas. Na prática, os políticos ou seus intermediários procuravam um executivo da Odebrecht para apoio financeiro de campanhas eleitorais. Mas esses recursos não eram declarados na Justiça Eleitoral – em outras palavras, tratava-se do famoso “caixa dois”. Por isso, a necessidade de se criar esse departamento na empresa.

Os pagamentos eram feitos sempre em dinheiro vivo. A companhia utilizava suas contas em paraísos fiscais para repassar dinheiro do caixa dois para as contas dos doleiros no exterior. Por sua vez, esses doleiros arrecadavam reais em espécie de diferentes formas, utilizando alguns comerciantes, empresas de transportes e até mesmo cheques compensados de empresas de fachada (alguns gerentes de bancos facilitavam essas transações).

Para armazenar o grande volume de dinheiro vivo, era preciso alugar bunkers, até que as quantias fossem distribuídas aos políticos. Para ocultar e dar segurança a essas transações, foi desenvolvido o Drousys, um sofisticado sistema de comunicação entre os participantes ( membros da empresa, doleiros, seguranças e demais facilitadores) por meio de mensagens instantâneas e e-mails com senhas e códigos próprios.

A confirmação de que existia o departamento de propinas aconteceu meses depois da prisão de Marcelo Odebrecht. Em fevereiro de 2016, a Polícia Federal prendeu Maria Lucia Tavares, secretária do empresário, que explicou em detalhes como o setor funcionava e entregou às autoridades registros de repasses de dinheiro.

A partir daí, mais de 70 executivos da empresa foram indiciados, muitos deles também presos.

Desdobramentos recentes

Em maio de 2024, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), anulou condenações do ex-juiz Sergio Moro contra Marcelo Odebrecht. 

A justificativa foi de que existiu conluio entre magistrados e procuradores da República que atuaram no caso. Segundo Toffoli, o processo contra a Odebrecht foi conduzido de forma arbitrária, parcial e sem respeitar o devido processo legal.

Apesar disso, ainda restam 40 processos aos quais Marcelo Odebrecht responde atualmente, pois as anulações contemplaram somente os atos do ex-juiz no âmbito da Lava Jato.