Quem é André Janones?

Presença forte nas redes, o mineiro apostou na virada eleitoral e viu sua estratégia despertar interesse fora do Brasil

A eleição presidencial de 2026 teve uma reviravolta inédita: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terminou o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL), mas venceu o segundo com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21%. Entre os aliados do presidente na campanha estava André Janones (Rede-MG), deputado federal que, ao longo da disputa, afirmou publicamente acreditar em uma recuperação de Lula nas urnas, mesmo em momentos em que pesquisas indicavam cenário desfavorável ao petista.

Meses antes da eleição, Janones passou a criticar aspectos da estratégia de comunicação da campanha e dizia identificar tendências nas redes sociais que, segundo ele, não eram captadas integralmente pelos levantamentos de intenção de voto. Sua atuação esteve concentrada principalmente no ambiente digital.

Foi nesse contexto que o deputado criou o Exército do Lula, um canal de WhatsApp que reuniu milhões de participantes durante a campanha. A iniciativa ampliou sua visibilidade nacional e colocou Janones no centro das discussões sobre mobilização política nas redes sociais.

Quem é André Janones?

André Luis Gaspar Janones nasceu em 5 de maio de 1984, em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro. Filho da empregada doméstica Divina Gaspar Janones, perdeu o pai quando tinha apenas dez meses de vida.

A infância foi marcada por dificuldades financeiras. Janones estudou em escolas públicas e, segundo seu relato, chegava a percorrer seis quilômetros para assistir às aulas. Na juventude, começou a trabalhar como cobrador de ônibus, emprego que exerceu entre 2003 e 2005.

“Eu acordava às quatro horas da manhã, chegava à garagem para começar a trabalhar às seis e ficava até duas horas da tarde sem comer absolutamente nada”, contou o deputado ao recordar aquele período. “Eu conheci a fome, ela me deixou traumas”, afirmou. Ao falar sobre as dificuldades que enfrentou, Janones costuma atribuir à determinação da mãe a possibilidade de continuar estudando e mudar de vida.

Em 2004, conseguiu uma bolsa de estudos para cursar Direito na Fundação Educacional de Ituiutaba (FEIT), posteriormente incorporada à Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Enquanto estudava, continuou trabalhando e, em 2005, passou a atuar como escrevente no Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Concluiu a graduação em 2008, ano em que iniciou a carreira de advogado.

Como advogado, Janones passou cerca de dez anos atendendo gratuitamente famílias de baixa renda que buscavam na Justiça acesso a medicamentos e tratamentos de saúde.

Nesse período, também começou a usar as redes sociais para cobrar soluções das autoridades e dar visibilidade a problemas relatados pela população. Essa atuação ajudou a aumentar sua exposição pública e antecedeu sua entrada nas disputas eleitorais.

Como André Janones começou na política

André Janones filiou-se ao PT em 2003, aos 19 anos, legenda na qual permaneceu até 2012. Posteriormente, passou pelo PSC, partido pelo qual disputou a Prefeitura de Ituiutaba em 2016 e terminou em segundo lugar.

Em 2018, ganhou projeção nacional durante a greve dos caminhoneiros, com transmissões ao vivo e vídeos de apoio à paralisação que alcançaram grande audiência nas redes sociais. A visibilidade o ajudou a conquistar uma cadeira na Câmara dos Deputados.

Eleito pelo Avante naquele ano, recebeu cerca de 178 mil votos, a terceira maior votação de Minas Gerais. Em 2022, reelegeu-se com 238 mil votos, a segunda maior do estado. Já em 2026, pela Rede Sustentabilidade, conquistou seu terceiro mandato consecutivo, com quase 79 mil votos.

Atuação parlamentar e projetos aprovados

Na Câmara, Janones priorizou pautas ligadas à assistência social. Durante a pandemia de Covid-19, defendeu a manutenção do auxílio emergencial em R$ 600 e mobilizou apoiadores nas redes sociais em torno do tema.

Entre suas iniciativas legislativas está a Lei 14.216/2021, originada de projeto de sua autoria, que suspendeu despejos e remoções forçadas durante a pandemia. O Congresso aprovou a medida após derrubar veto do então presidente Jair Bolsonaro. Janones também foi coautor de outros projetos que posteriormente se tornaram leis.

Em 2019, participou da CPI que investigou o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. Entre suas iniciativas, apresentou requerimento para ouvir o ex-ministro de Minas e Energia Moreira Franco.

Janones também foi investigado em um caso de rachadinha em seu gabinete. Em 2025, admitiu ter utilizado o cartão de crédito de um assessor para custear despesas pessoais entre 2019 e 2020. O episódio resultou em um acordo de não persecução penal com a PGR, homologado pelo STF. Após o pagamento de R$ 157,8 mil, a Procuradoria pediu a extinção de sua punibilidade em setembro de 2026.

As redes sociais continuaram ocupando papel central em sua atuação política e ampliaram sua participação nas campanhas presidenciais de 2022 e 2026.

André Janones e a campanha de Lula em 2022

A aproximação de André Janones com Luiz Inácio Lula da Silva ganhou força em agosto de 2022, quando o deputado desistiu de disputar a Presidência pelo Avante e anunciou apoio ao petista.

O acordo foi anunciado em uma transmissão ao vivo, em 4 de agosto, após Lula assumir compromissos com pautas defendidas por Janones, especialmente a manutenção do auxílio de R$ 600.

Janones também buscava dialogar com eleitores que não se identificavam integralmente com nenhum dos polos políticos. Segundo contou ao portal UOL, criticava o governo Jair Bolsonaro, mas também reconhecia medidas que considerava positivas.

Em reunião com dirigentes petistas, Janones apresentou técnicas de engajamento e defendeu uma comunicação mais pessoal, adaptada a cada plataforma. A abordagem impressionou a equipe de Lula, segundo reportagem do UOL na época.

Com liberdade para atuar em seus próprios perfis, adotou uma linguagem direta e reagia rapidamente aos assuntos do momento, nem sempre seguindo o ritmo da campanha oficial.

André Janones e a virada de Lula na eleição de 2026

Meses antes da eleição de 2026, André Janones já alertava para os riscos da campanha de Lula. Em março, publicou um vídeo afirmando que, sem mudanças na comunicação, o presidente poderia perder. Segundo contou ao UOL, recebeu críticas e perdeu seguidores, mas manteve sua avaliação.

Em 14 de agosto, previu que Flávio Bolsonaro ultrapassaria Lula nas pesquisas até a segunda semana de setembro, quando o presidente ainda liderava diversos levantamentos. “Quem domina as redes domina a vida política, e isso será provado nessas eleições”, escreveu. Um mês depois, a Quaest mostrou Flávio numericamente à frente, com 42% contra 40% de Lula, embora tecnicamente empatados.

Janones também alertou que, sem mudanças, Flávio poderia terminar o primeiro turno na liderança. Foi o que aconteceu em 4 de outubro, quando o senador recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A partir dali, o deputado passou a apostar na virada do presidente.

Em entrevista em 14 de outubro, quando a Quaest ainda mostrava Flávio com 46% das intenções de voto e Lula com 44%, Janones afirmou que a vitória do presidente era “praticamente irreversível”. “A rede tem um sentimento, um clamor, uma onda que vai sendo gerada”, explicou, referindo-se a movimentos que, segundo ele, as pesquisas ainda não captavam plenamente.

Na véspera da eleição, Datafolha, Quaest e PoderData apontavam Flávio com 51% dos votos válidos, contra 49% de Lula. Nas urnas, o presidente venceu com 51,79%, uma vantagem de 3,58 pontos percentuais.

Enquanto as pesquisas mostravam uma disputa apertada, o deputado insistia para que os apoiadores não desanimassem e mantivessem a mobilização. Essa orientação ganhou força no Exército do Lula, que reuniu milhões de pessoas durante a campanha.

Exército do Lula e a mobilização digital na campanha

Ao fim do primeiro turno, o Exército do Lula tinha cerca de 55 mil integrantes. Criado por André Janones em abril de 2026, o canal de WhatsApp inicialmente funcionava como um espaço de troca de ideias entre apoiadores do presidente. Com a vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, o deputado decidiu transformar a iniciativa em uma central de mobilização para a reta final da campanha.

Janones estabeleceu como meta ampliar rapidamente o alcance do grupo. O canal chegou a 500 mil participantes em poucas horas e ultrapassou dois milhões de inscritos nos dias seguintes. Ao longo do segundo turno, o crescimento continuou até alcançar cerca de 10,8 milhões de participantes ao fim da campanha.

A estratégia consistia em incentivar os integrantes a compartilhar conteúdos políticos com suas próprias redes de contatos, especialmente amigos, familiares e conhecidos. Em entrevistas, Janones afirmou que buscava transformar eleitores comuns em produtores e disseminadores de conteúdo, ampliando o alcance das mensagens para além dos perfis oficiais da campanha.

Durante o segundo turno, o canal enfrentou uma suspensão temporária determinada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), após uma ação movida pela campanha de Flávio Bolsonaro. Após a regularização do cadastro junto à Justiça Eleitoral, a plataforma voltou a operar normalmente. Segundo Janones, mesmo durante o período de suspensão, os participantes foram incentivados a continuar produzindo e compartilhando conteúdo por conta própria.

A iniciativa transformou o deputado em um dos principais articuladores da mobilização digital da campanha de Lula. Após a vitória, o presidente agradeceu publicamente a atuação de Janones e dos integrantes do canal. Poucos dias depois, a experiência passou a chamar a atenção de lideranças políticas de outros países, que buscaram conhecer as estratégias utilizadas para engajar milhões de participantes pelas redes sociais.

Estratégia atrai interesse internacional

Poucos dias após a eleição, a estratégia de mobilização digital associada a André Janones passou a atrair atenção de lideranças políticas de outros países.

O primeiro convite veio da Espanha, onde o primeiro-ministro Pedro Sánchez disputa a reeleição em novembro. Janones afirmou que aceitou colaborar com a campanha e anunciou uma viagem a Madri. Segundo o deputado, também recebeu convite da presidente do México, Claudia Sheinbaum, para discutir estratégias de comunicação política.

Ao comentar o interesse internacional, Janones atribuiu os resultados alcançados à participação dos integrantes do Exército do Lula. Em publicação nas redes sociais, escreveu: “Eu só fui um desses dez milhões. O verdadeiro general sempre foi o povo”.