Publicidade
SÃO PAULO – Benjamin Roth não era um escritor ou investidor profissional. Mesmo assim, ele escreveu um dos mais instrutivos livros já publicados. Roth manteve um diário durante a Grande Depressão de 1931 até 1940. Os escritos descrevem vividamente a maior tragédia econômica da história. O advogado era fascinado pelo mercado de ações e em como pessoas inteligentes poderiam ser destruídas por ele. Ele repetiu várias vezes uma lição óbvia de investimentos para qualquer um que viveu durante o período: o valor incrível de manter dinheiro em caixa. O colunista Morgan Housel do site Motley Fool selecionou alguma das passagens do diário e o que pode ser aprendido com elas.
Dezembro de 1931: “As pessoas acreditam que é possível achar boas ações e bons títulos a preços muito atrativos. A dificuldade é que ninguém tem dinheiro para comprar”.
Setembro de 1932: “Eu acredito que pode ser verdade que o homem que tem dinheiro durante essa depressão para investir nas melhores ações e segurar por dois ou três anos vai ser rico em 1935”.
Junho de 1933: “Estou preocupado que a oportunidade para comprar uma fortuna em ações a dez centavos passo e eu não pude tirar vantagem disso”.
Julho de 1933: “Durante essa depressão percebo toda vez que a oportunidade é uma deusa severa que passa direto por aqueles que não estão preparados com capital líquido”.
Agosto de 1936: “Essa depressão me deixou uma impressão, que é necessário ter dinheiro em mão para cobrir emergências. Minha experiência como advogado mostra que uma grande proporção de falências acontece mais pela falta de capital do que pela falta de conhecimento técnico”.
Continua depois da publicidade
Maio de 1937: “A grande chance em uma vida de construir uma fortuna passou e provavelmente não voltará tão cedo. Poucas pessoas tinha qualquer dinheiro sobrando para investir – era uma mais uma questão de ganhar o suficiente para se sustentar”.
Morgan Housel pede para manter em mente o que aconteceu durante esse período. O Dow Jones caiu 89% de 1929 até 1932 e o desemprego disparou para 25%. Essas pessoas, sem dinheiro em caixa o suficiente para sobreviver, foram forçadas a vender suas ações por centavos. Então, o mercado teve uma alta de cinco vezes de 1932 a 1937 no maior rali de cinco anos da história. Muitas blue chips aumentaram de valor de dez a vinte vezes. Aqueles com dinheiro em caixa e estômago para isso viram a maior oportunidade de investimento de suas vidas passar em sua frente.
O colunista afirma que essa história se repete ao longo do tempo, mesmo que não tão severa. Durante momentos de alta, todas as pessoas se importam apenas com retornos e reclama sobre o quão sem valor é o dinheiro em caixa, rendendo muito pouco. Durante uma quebra, elas percebem que nada é mais precioso do que ter algum dinheiro guardado, mesmo se ele tiver que ficar lá por anos.
Pensar em dinheiro em caixa dessa forma é terrível, de acordo com Morgan Housel. Dinheiro em caixa não rende nada no momento atual, mas deixa opções para o futuro. Ao longo do tempo, o potencial pode ser bem maior do que a rentabilidade baixa atual. “Dinheiro na mão combinado com coragem em uma crise é algo sem preço”, Warren Buffett disse uma vez.
A maioria dos investidores nunca ouviu falar de Arnold Van Den Berg, mas ele é um dos maiores investidores do tempo atual. Desde 1974, o fundo de Van Den Berg já subiu cerca de 14,5% por ano, contra uma alta média de 11,9% do S&P 500. US$ 1 mil investidos no fundo dele em 1974 se tornariam US$ 196 mil hoje, contra US$ 80 mil para quem seguiu o S&P 500.
Na média, dinheiro em caixa ocupa mais de 20% da quantidade total de recursos do gestor, enquanto os fundos mútuos geralmente guardam em caixa cerca de 5%. Uma vez perguntaram a ele o porquê ele, como investidor em ação, acumulava tanto dinheiro em caixa. “Pense dessa forma”, ele disse, “se nós sentarmos no dinheiro e esperarmos uma ação que vale US$ 15 cair para o nosso ponto de entrada, a US$ 10, e eventualmente ela subir de novo para US$ 15, nós ganhamos um retorno de 50% em nosso investimento. Nós achamos que isso mais que conserta os meses ou trimestres que esperamos com dinheiro em caixa, mesmo não conseguindo nenhum lucro no período”.
Continua depois da publicidade
“O dinheiro que você está segurando hoje é o material bruto para resultados superiores de amanhã”, diz Van Den Berg. Ele entende o que a maioria das pessoas só aprende após uma depressão, afirma Morgan Housel.