Trégua no Irã: com incertezas ainda no ar, como lidar com ações e renda fixa?

Especialistas indicam cautela apesar de preços terem respondido rapidamente ao anúncio de cessar-fogo; veja as principais recomendações para esse momento

Paulo Barros

Ativos mencionados na matéria

Painel de cotações da B3 em São Paulo -19/10/2021 (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)
Painel de cotações da B3 em São Paulo -19/10/2021 (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

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A trégua de duas semanas entre EUA e Irã, anunciada na noite de terça-feira (7), provocou uma das maiores reversões de ativos em um único dia desde a pandemia, mas não convenceu os principais bancos, corretoras e casas de análise de que o risco geopolítico foi superado. Para especialistas globais e brasileiros, o cessar-fogo é uma condição necessária, mas longe de suficiente para reposicionar portfólios de forma agressiva.

A reação dos mercados na quinta-feira (9) já deu o tom. O petróleo Brent, que havia despencado 13% no dia anterior para US$ 94,6 por barril, voltou a subir 2,9% ao longo do dia, após Teerã acusar Washington de violar três cláusulas do acordo. Apenas quatro navios atravessaram o Estreito de Ormuz no primeiro dia da trégua, contra centenas no período pré-guerra. Cerca de 187 petroleiros carregando 172 milhões de barris permanecem retidos dentro do Golfo Pérsico.

A recomendação que atravessa todas as casas ouvidas é a mesma que o CIO do UBS, Mark Haefele, sintetizou em carta publicada na quarta-feira: manter-se investido, evitar movimentos abruptos de alocação e não tentar “negociar” eventos geopolíticos. O petróleo segue como o principal barômetro. E enquanto o Estreito de Ormuz não normalizar plenamente seus fluxos, a cautela permanece o denominador comum entre as mesas.

Confira um resumo das recomendações:

Renda fixa: pós-fixados seguem porto seguro

A classe mais indicada entre as casas de análise, sem exceção, é a renda fixa pós-fixada, como CDBs indexados ao CDI e o Tesouro Selic. Com a Selic em 14,75% ao ano após o corte de 0,25 ponto percentual do Copom em março, o carrego da classe permanece elevado.

O Santander recomenda uma alocação de 67% em pós-fixado para perfis conservadores, a XP mantém posicionamento acima do neutro na classe, citando o “caráter defensivo” diante da volatilidade geopolítica.

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O racional passa pela noção de que o choque de petróleo aumentou a assimetria inflacionária no curto prazo e deve tornar o ciclo de cortes da Selic mais lento do que o mercado precificava antes do conflito. A projeção mediana do Focus para o IPCA de 2026, que estava em 3,91% ao final de fevereiro, subiu para 4,36% no primeiro Focus de abril. E o próprio Banco Central deixou clara a dependência do conflito ao afirmar que “considerará o desdobramento dos conflitos na calibração da taxa básica.”

Para perfis mais arrojados, CDBs pós-fixados chegavam a 115% do CDI na plataforma da XP nesta semana.

Prefixados e IPCA+: acima do neutro, mas com limitações

A XP mantém posição acima do neutro em prefixados, com duration recomendada em torno de quatro anos. O argumento é que os níveis atuais da curva oferecem prêmio relevante de fechamento de juros, com taxas nominais acima de 14% nos vencimentos a partir de cinco anos, mas reconhece que a posição convive com volatilidade elevada no curto prazo. O Santander identifica nos prefixados a oportunidade de “travar taxas atrativas para os próximos anos.”

Nos títulos atrelados à inflação, a XP trabalha com duration em torno de seis anos e destaca que os riscos associados à alta do petróleo elevaram a inflação implícita precificada na curva, especialmente nos vértices curtos e intermediários. O Santander reforça a relevância do IPCA+ no contexto atual, dado o choque energético e a instabilidade geopolítica.

O UBS recomenda, na renda fixa global, vencimentos curtos e médios, com duration média próxima a quatro anos. O Goldman Sachs identifica oportunidade em bonds de qualidade nos EUA, à medida que o mercado começa a reincorporar a possibilidade de cortes do Fed ainda em 2026 (a probabilidade que saltou de 14% para 43% logo após o anúncio do cessar-fogo, antes de recuar novamente na quinta com a deterioração do acordo).

Renda variável: Brasil bem posicionado, mas com seletividade

O Ibovespa fechou em recorde histórico de 192.201 pontos na quarta-feira e acumula alta de 16,35% no ano, liderando os retornos globais. O movimento continua nesta quinta, com o índice atingindo pela primeira vez a casa dos 195.000 pontos. As casas convergem na avaliação de que a composição do índice, com peso relevante em commodities e energia, confere ao mercado brasileiro uma posição comparativamente defensiva em cenários de alta do petróleo.

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A XP mantém posição próxima ao neutro em renda variável Brasil, com abordagem “construtiva, porém cautelosa.” O Safra projeta Ibovespa em 198.000 pontos no fim do ano e recomenda, para o ambiente atual de incerteza e ano eleitoral, estratégia focada em ações pagadoras de dividendos, a carteira de dividendos da casa acumula 44,6% em 12 meses.

No cenário externo, o S&P 500 recua cerca de 7% no ano, mas a correção veio predominantemente pela contração de múltiplos, a quase 14% no Preço/Lucro, e não por queda acentuada nos lucros, segundo análise da XP.

O Morgan Stanley traçou três cenários para o investidor global:

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O Goldman Sachs alertou na quinta-feira que as condições para um fundo sustentável no mercado acionário ainda não estão confirmadas: são necessárias melhora no driver principal (o petróleo), limpeza de posições vendidas e dados macro mais fortes. A probabilidade de recessão nos EUA foi elevada para 30%.

Ouro: hedge ainda válido, mas abaixo dos picos

O ouro subiu 2,3% na quarta-feira para US$ 4.810 por onça, mas permanece cerca de 10% abaixo do pico atingido no início do conflito, em 2 de março. O UBS mantém alvo de US$ 5.900 por onça até o fim do ano, sustentado pela perspectiva de juros reais mais baixos, riscos fiscais e geopolíticos elevados. O JPMorgan projeta US$ 6.300 e o Deutsche Bank, US$ 6.000. A BlackRock alerta que, durante o conflito, títulos e ouro não funcionaram como lastro de portfólio da forma tradicional, o que reforça a necessidade de diversificação mais ampla.

Fundos listados e alternativos ganham espaço nas alocações

A XP elevou a exposição a fundos listados nas carteiras moderada e sofisticada em detrimento de multimercados, que reduziram 2,5 pontos percentuais em todas as políticas. O argumento é que os FIIs historicamente apresentam baixa correlação com a dinâmica macroeconômica global e fundamentos domésticos resilientes. O Itaú BBA publicou preferência por fundos imobiliários de papel (recebíveis indexados ao CDI) para abril, dados o nível restritivo de juros e a incerteza inflacionária.

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O BTG Pactual adotou posicionamento defensivo em sua carteira de ETFs de abril: mais renda fixa, mais bonds atrelados à inflação, redução de ações globais e aumento de commodities. A casa identificou também um “superciclo” em gastos de defesa global, com o orçamento americano podendo crescer 60% até 2027, e recomenda exposição via ETF de defesa como tese estrutural independente do desfecho do conflito.

Vem mais volatilidade aí?

As delegações americana e iraniana se encontram nesta sexta-feira (10) em Islamabade, sob mediação do Paquistão. As posições de partida são distantes: os EUA exigem limites ao programa nuclear; o Irã demanda fim das sanções, garantias de segurança, retirada de tropas americanas da região e cessação das hostilidades de Israel contra aliados regionais. Israel, que de primeira declarou que o cessar-fogo “não inclui o Líbano”, concordou em abrir um canal de conversa com o país.

A Guarda Revolucionária afirmou que o tráfego pelo Estreito de Ormuz só pode ser realizado “em coordenação com as Forças Armadas do Irã”, uma cláusula que, dependendo de como for interpretada nas negociações, pode se tornar o principal ponto de atrito. Para a XP, “mesmo um eventual cessar-fogo não eliminaria os impactos permanentes sobre as cadeias de energia e os prêmios de risco.”

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Como a guerra no Irã afetou o mercado:

AtivoPreço 27/02Preço 09/04Variação (%)
Petróleo WTI (US$)67,0296,3443,75%
Petróleo Brent (US$)72,4894,5730,48%
Ibovespa (pontos)188.787194.9773,28%
PETR4 (R$)39,3347,5921,00%
S&P 500 (pontos)6.878,886.830,85-0,70%

Ultima atualizacao: 09/04/2026 18:18

Paulo Barros

Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)