Conteúdo editorial apoiado por

Títulos isentos de IR não pagam tanto desde “ameaça” do governo; é hora de entrar?

Corrida tributária de 2025 após Medida Provisória que caducou deixou papéis isentos com prêmios artificialmente baixos, e choque em 2026 já faz gestoras aproveitarem janela para voltar a comprar

Paulo Barros

Ativos mencionados na matéria

(Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo)
(Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo)

Publicidade

As debêntures incentivadas são um dos investimentos mais populares entre quem busca renda fixa sem pagar imposto de renda, porque financiam projetos de infraestrutura e contam com isenção total para a pessoa física. Mas quem comprou esses papéis em meados de 2025 pagou o preço mais alto em anos. Uma corrida distorceu o mercado e deixou os investidores expostos quando o movimento se reverteu. Agora, uma das janelas de alocação mais atraentes em três anos está se abrindo, na avaliação de gestoras que já estão comprando.

Após o governo publicar a Medida Provisória 1303 em junho de 2025, que previa cobrar 5% de IR sobre os rendimentos de títulos isentos, investidores correram para comprar o máximo possível de papéis antes de uma possível mudança. Com isso, as empresas aceleraram emissões aproveitando o custo mais baixo, e o efeito foi uma distorção sem precedente recente: esses papéis chegaram a pagar menos do que títulos do governo de risco comparável, algo que não faz sentido numa análise fria de investimento.

Choque nos spreads

A MP foi derrubada em outubro, a isenção foi mantida, mas o mercado ficou com um legado perigoso: papéis que estavam simplesmente pagando pouco demais, sem espaço para absorver qualquer turbulência à frente. Quando o choque chegou, a correção foi rápida e dolorosa.

Oportunidade com segurança!

O gatilho foram os pedidos de recuperação extrajudicial de Raízen (RAIZ4) e do Grupo Pão de Açúcar (PCAR3), em março, que desencadearam uma corrida de saída de fundos de crédito privado estimada em R$ 30 bilhões só em abril.

No mercado de novas emissões, o travamento foi total: das 19 ofertas de debêntures previstas para o mês, nenhuma chegou integralmente às mãos dos investidores, ficando retidas nos próprios bancos que organizaram as emissões, segundo levantamento da Sparta.

O ajuste de preço que fez os spreads voltarem a subir foi causado, na análise da indústria, pelo comportamento dos investidores que saíam ao mesmo tempo, não uma piora na capacidade das companhias de pagar suas dívidas.

Recuperação em duas velocidades

O mês de maio mostra que o mercado está voltando ao normal, mas não da mesma forma para todos os papéis. Os índices da Anbima que medem o desempenho das debêntures mostram dois ritmos distintos: as debêntures ligadas ao CDI, a taxa de referência do mercado de renda fixa, já quase zeraram a desvantagem acumulada no ano frente ao próprio CDI. As incentivadas de prazo mais longo, porém, ainda acumulam defasagem de quase dois pontos percentuais no ano frente ao CDI, e de 3,5 pontos percentuais na janela de 12 meses.

Essa diferença é justamente o que atrai as gestoras. A Kinea descreve o fechamento recente dos prêmios como “bastante relevante e construtivo” e avalia, em relatório, que o mercado “pode estar no início de uma nova fase de compressão”, com respaldo histórico: turbulências similares de 2020 e 2023 “foram seguidas por janelas de performance bastante positiva para os fundos de crédito, com retorno substancialmente acima do CDI.”

A Sparta, mais cautelosa, mantém seu fundo fechado para novos aportes enquanto aguarda sinais mais claros de que o movimento de saídas se estabilizou de vez.

Continua depois da publicidade

Leia mais: Fuga do crédito privado puxa resgates de R$ 18 bi em fundos em abril

Ponto de entrada

O retorno extra pago pelos papéis acima da inflação subiu 0,40 ponto percentual em abril, uma alta que, segundo Daniela Gamboa, head de Crédito Privado e Imobiliário da SulAmérica Investimentos, “só encontra paralelo com a crise da Americanas em 2023″. Para ela, o nível atual já é suficiente para justificar entrada.

Um papel isento pagando 0,50 ponto percentual acima da inflação equivale, na prática, a um produto tributado pagando 2,25 pontos percentuais a mais, explica a profissional, porque no investimento isento o investidor não divide o ganho com o governo.

Continua depois da publicidade

“Para emissores de baixo risco e alta previsibilidade de caixa, esse patamar é um ponto de entrada tecnicamente muito favorável”, disse ao InfoMoney. E o prêmio médio já melhorou 0,90 ponto percentual desde o pico da tensão em fevereiro.

O que comprar e como lucrar?

Sobre o que comprar, Daniela aponta preferência por infraestrutura, e cautela com o agronegócio. “Por serem ativos regulados e com receitas corrigidas pela inflação, o setor de infraestrutura oferece proteção robusta”, afirma. No agronegócio, “incertezas específicas do setor ainda demandam prêmios de risco que compensem a volatilidade.”

Para quem já investe em Tesouro IPCA+, diz, as incentivadas entram como complemento da carteira: “o segredo não é a substituição, mas a diversificação: as incentivadas equilibram o risco-retorno da carteira frente à volatilidade dos títulos públicos”. Com a Selic em 14,5%, a isenção de IR pesa mais do que nunca nessa conta, e os fundos de infraestrutura isentos (FI-Infra) levam vantagem no retorno líquido.

Continua depois da publicidade

Quem compra pode optar por levar até o vencimento ou lucrar com a chamada marcação a mercado: esperar as taxas das novas emissões baixarem mais, ver a valorização do papel em carteira e vender no mercado secundário com um lucro maior. A questão é o timing, ou seja, saber quando os prêmios vão baixar mais.

“A compressão [dos spreads] depende fundamentalmente da estabilização técnica: precisamos de maior visibilidade sobre o fim do ciclo de saídas dos fundos”, opina Daniela. Com as antecipações de emissões feitas ao longo de 2025 reduzindo a oferta de novos papéis, a tendência é de fechamento dos prêmios “pela via da escassez e da volta da demanda”.

Ou seja, para quem topa assumir o risco, entrar enquanto os outros estão saindo pode gerar um bom retorno lá na frente.

Continua depois da publicidade

Paulo Barros

Jornalista há quase 20 anos, editor de Investimentos no InfoMoney. Escreve principalmente sobre renda fixa e variável, alocação e o universo dos criptoativos