Tesouro faz maior leilão de títulos de inflação desde abril após vencimento recorde

Colocação integral dos três vencimentos interrompe sequência de ofertas enxutas, mas concentração no papel mais curto mostra que a demanda por títulos longos segue fraca

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O Tesouro Nacional vendeu nesta terça-feira (18) todos os 1,2 milhão de NTN-Bs que colocou à venda, no maior leilão desses papéis desde abril. As NTN-Bs são os títulos públicos atrelados à inflação, os mesmos que o investidor pessoa física conhece como Tesouro IPCA+. O leilão só foi possível por causa de um vencimento recorde de cerca de R$ 260 bilhões nesses papéis na segunda-feira (17), o maior da história para essa classe de títulos, que devolveu uma quantidade enorme de dinheiro ao mercado e criou espaço para uma nova rodada de emissões.

Resultado do leilão de 18 de agosto

TítuloVencimentoOfertadoVendidoTaxaVolume
NTN-B15/05/2031750.000750.0008,1285%R$ 3,34 bi
NTN-B15/05/2037300.000300.0007,8320%R$ 1,27 bi
NTN-B15/08/2060150.000150.0007,4540%R$ 590,33 mi
LFT01/09/20321.500.0001.500.0000,1165%R$ 29,33 bi
Fonte: Tesouro Nacional

Desde meados de junho, o Tesouro vinha oferecendo lotes bem menores a cada semana, num contexto de insegurança dos investidores com a política fiscal, juros nominais elevados e incerteza externa.

Mesmo assim, o resultado mostra que a demanda continua concentrada nos papéis de prazo mais curto. Dos R$ 5,20 bilhões vendidos em títulos de inflação, R$ 3,34 bilhões, ou cerca de 64% do total, saíram apenas do vencimento de 2031. “Mercado demandando somente título curto”, resume o economista e professor Alexandre Cabral. Segundo ele, o papel de 2031 saiu com taxa menor do que a negociada no mercado na véspera, enquanto os vencimentos de 2037 e 2060 ficaram próximos do fechamento anterior.

Cabral avalia que o volume precisa ser lido levando em conta o tamanho do vencimento que veio antes, e considera que a colocação ficou abaixo do que seria esperado diante da quantia que voltou ao mercado na segunda-feira. “Se fosse um leilão de dia a dia, ia ficar bem feliz com as taxas e o volume”, diz, acrescentando que, no contexto do vencimento bilionário da véspera, achou o volume ruim. Ele aponta como razões para a demanda fraca a concorrência dos títulos privados, uma inflação implícita alta demais, que acaba deixando a taxa do cupom baixa, e o IOF na previdência.

O leilão também aconteceu num momento de forte pressão sobre os juros longos no mundo todo. O rendimento dos títulos do Tesouro americano de 30 anos atingiu na segunda-feira o maior nível desde 2007, e a liquidação se espalhou por diversos mercados de renda fixa, dos Estados Unidos ao Japão, com investidores preocupados com contas públicas e inflação. Quando os juros longos sobem lá fora, os investidores tendem a exigir retornos maiores também no Brasil, o que torna mais caro para o Tesouro colocar papéis de prazo mais longo.

Esse ambiente ajuda a explicar por que a demanda por vencimentos distantes segue fraca. Em julho, as NTN-B tiveram a menor fatia do ano nas emissões do Tesouro, com apenas R$ 2,6 bilhões colocados, ou 1,6% do total do mês. No acumulado de 2026, a participação desses papéis caiu para 7%, ante 18% no fechamento de 2025, segundo dados apurados pela consultoria Eytse Estratégia. A taxa média das colocações naquele mês ficou em 7,98% ao ano, patamar que a consultoria considera bem acima da média histórica e do que seria compatível com as estimativas usuais de juro real neutro.

O leilão desta terça veio um dia depois de um ajuste técnico relevante no mercado. Conforme o InfoMoney noticiou, os fundos que seguem os índices da família IMA-B precisaram recompor suas carteiras no fechamento de segunda-feira, justamente por causa do vencimento da NTN-B 2026. Cálculos da Eytse projetavam uma demanda de cerca de R$ 35,3 bilhões com essa recomposição, mas concentrada nos vencimentos de 2028 e 2030, papéis diferentes dos que foram ofertados nesta terça. Do total que venceu na segunda, cerca de R$ 12,88 bilhões estavam nas mãos de pessoas físicas via Tesouro Direto até junho, segundo levantamento da XP.

No Tesouro Direto, as taxas dos títulos de inflação recuavam às 15h34 desta terça. O IPCA+ 2050 caiu de 7,35% na segunda-feira para 7,30%, e o IPCA+ 2040 foi de 7,63% para 7,58%, ambos com queda de 5 pontos-base. Os papéis com juros semestrais também apresentaram queda. Nos prefixados, o movimento foi misto, com o Prefixado 2029 recuando e o Prefixado 2032 subindo.

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Paulo Barros
Investimentos | Economia | Mercados

Jornalista há mais de 15 anos, editor de Investimentos no InfoMoney. Escreve sobre renda fixa e variável, alocação e o universo dos criptoativos