Tesouro Direto: juros de prefixados avançam para até 13,84% após Haddad se esquivar de falar sobre temas sensíveis do futuro governo

Entre os papéis atrelados à inflação, a remuneração real mais elevada era oferecida pelo Tesouro IPCA+ 2026, no valor de 6,35%

Bruna Furlani Neide Martingo

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O tão aguardado discurso do ex-ministro e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad jogou um balde de água fria no mercado nesta sexta-feira (25). Com isso, a semana termina com o clima das últimas duas semanas, de turbulência. Durante pelo menos uma hora, as negociações de títulos públicos do Tesouro Direto ficaram paralisadas em razão da forte volatilidade nos preços e nas taxas.

Haddad disse hoje que o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dará prioridade total à aprovação da reforma tributária no Congresso. Ele é um dos nomes mais citados para assumir o Ministério da Fazenda a partir de 2023 – opção que não é bem vista pelo mercado, que vê a indicação como mais política e não técnica para o cargo.

Haddad esteve em evento promovido pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), em São Paulo. O ex-prefeito se esquivou de questionamentos sobre sua função no novo governo, assim como evitou falar sobre as articulações para PEC da Transição

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Sem trazer novidades sobre a postura fiscal que será adotada pelo próximo governo, Haddad disse apenas que estava representando o presidente eleito – afastado após cirurgia – e encerrou sua fala pontuando que Lula ainda vai escolher seu ministério.

Sem definições na mesa sobre a política fiscal, ou sobre o nome para a Fazenda do novo governo, os juros oferecidos pelos títulos públicos renovam alta durante a tarde. Movimento que foi visto desde a abertura nesta sexta-feira (25). Às 15H24, o destaque entre os prefixados estava no Tesouro 2025,  com retorno de 13,84%, o que representa uma alta diante do percentual da quinta-feira (24), de 13,60%.

Já entre os papéis atrelados à inflação, a remuneração real mais elevada era oferecida pelo Tesouro IPCA+ 2026, no valor de 6,35%, também às 15h24. Tal percentual é superior aos 6,23% vistos um dia antes.

A falta de articulação entre integrantes da equipe de transição e parlamentares em torno da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Transição também está no foco dos agentes econômicos.

Diante do imbróglio sobre o texto definitivo, o governo eleito cogita abandonar a PEC por uma Medida Provisória (MP) para bancar a verba do Bolsa Família, segundo informações do jornal O Estado de S.Paulo. Dessa forma, a aprovação do pacote poderia ocorrer independentemente do aval constitucional do Congresso Nacional.

“O governo eleito tem mostrado a intenção de tentar tirar o Auxílio Brasil do teto de gastos, o que tem sido mal avaliado pelo mercado. A dívida pública brasileira hoje está a 80% do PIB e, caso esse cenário se concretize, ela poderia ir para 100% até 2026. Evidentemente que a intenção do governo eleito não é condição suficiente para que esse cenário venha a acontecer. Porém, isso gera dúvidas sobre a própria solvência do Estado brasileiro”, indica Vicente Guimarães, CEO da VG Research.

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Para Guimarães, caso a dívida vá para 100%, ela se torna impagável diante das elevadas taxas de juros praticadas no mercado, de 14% ou mais. Diante disso, segundo ele, uma política fiscal mais frouxa leva ao aumento dos juros porque a elevação dos gastos significa risco de não pagamento para os investidores, que financiam a dívida pública. “Diante do baixo nível de previsibilidade atual, preferimos títulos públicos pós-fixados que, além de possuírem uma elevada remuneração atrelada à taxa Selic, não registram os efeitos negativos da marcação a mercado como acontece com os títulos prefixados ou indexados à inflação”.

Confira os preços e as taxas dos títulos públicos disponíveis para a compra no Tesouro Direto na volta dos negócios nesta sexta-feira (25): 

Tesouro Direto
Fonte: Tesouro Direto

PEC da Transição

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, rebateu ontem (24) declarações do senador Jaques Wagner (PT-BA), de que está faltando um “ministro da Fazenda” para facilitar o andamento da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Transição. Para ela, o impasse ocorre por falta de articulação política no Senado.

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“Não vejo isso, articulação política se dá no Congresso independentemente de quem é o ministro. Temos de respeitar o tempo do presidente Lula [para indicar os ministros]. Não sei porque essa ansiedade toda”, afirmou Gleisi. “Está faltando articulação política no Senado, por isso acho que nós travamos na PEC. Não é falta de ministro.”

Ela lamentou o fato de Lula não ter podido estar em Brasília para ajudar na articulação da PEC por questões de saúde – devido a uma cirurgia na garganta no domingo, ele adiou para a próxima semana a viagem à Capital Federal, prevista inicialmente para esta semana.

Campos Neto

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto disse nesta sexta-feira (25) que existe no mundo uma mensagem clara de que os arcabouços fiscais precisam de limites. “É preciso maior coordenação entre as políticas fiscal e monetária. Não pode ter política fiscal de um lado e política monetária do outro”, afirmou no almoço anual da de dirigentes de bancos promovido pela Febraban.

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Entre os convidados do evento estavam dois ex-ministros de governos petistas: Alexandre Padilha e Fernando Haddad, que estão na equipe de transição.

Para ilustrar a preocupação sobre como a política fiscal interfere no trabalho do BC, Campos Neto mostrou gráficos sobre a curva de juros futuros que já precifica uma alta na Selic no ano que vem, quando a aposta era de cortes. A mudança aconteceu quando surgiram as notícias sobre a intenção da equipe de transição do novo governo de pedir uma estouro do teto de gastos de cerca de R$ 200 bilhões.